carta a mim mesma.

Eu te perdoo. Por se desculpar demais e por não se desculpar às vezes.

Te perdoo pelas agressões, pelos limites que ultrapassei. Te perdoo pelas comparações, medos, excessos cometidos.

Por às vezes amar demais e às vezes silenciar o coração.
⠀⠀⠀
Te perdoo porque descobri que, assim como sempre perdoou aos outros, és capaz de estender esse amor também a ti. E porque és merecedora de tudo.

Não esquece, não: corpo, mente e consciência não precisam ser um campo de batalha.

(escrevi pra mim, mas dedico a todas as mulheres – 2020 foi ainda mais foda para nós. sejamos carinhosas conosco mesmas. 🤍)

Quando deixo a superfície

foto sob perspectiva de cima das ondas batendo no mar

As nuvens passavam, eu pensava sobre profundidade.

E me assustava. Talvez diante da ideia de jamais encontrar alguém capaz de mergulhar tão fundo na vida comigo. 

Por que não me contento com o banal? 

Tentei. Sei bem que tentei. O problema é que já não me percebo capaz de habitar contextos em que as conversas são tão iguais.

Tudo é trabalho, política, dinheiro, meta. Investimento, plano, matéria.

Concreto. Lucro.

Só que eu queria falar das flores. Dos contornos. Das sombras que formam desenhos nas paredes.

Daquilo que gostaria de fotografar. De arte. De morte e vida também.

Música. Poesia.

Por que o abstrato não interessa a ninguém? Só por que não é produtivo?

Bem, este é meu coração.

Tentei congelá-lo para me adequar ao sistema. O problema é que cada dia tinha um resquício de suicídio. 

Estava desnutrida de existir.

Foi contemplando as ondas do mar em Garopaba, meu lar de alma, que finalmente entendi.

Nós somos como as ondas. Estas, que batem em uma rocha e, no instante seguinte, já desaparecem.

“Como podemos ser tão frágeis?”, refletia.

Em essência, não somos. É só que todo externo se vai rápido.

Hoje sinto compaixão. 

De quem vive no raso sem saber que, no fundo, já está morto.

Se você não contempla, não existe.

Desculpe a profundidade.

Aliás, desculpe não.

Só sei ser assim. E não peço mais perdão por isso.

Aqui o espaço para quem faz questão de ficar na margem acabou.

Porque já mergulhei onde não dá pé faz tempo.

a beleza do caos.

imagem com o texto: "Ser furacão e calmaria nem sempre é fácil. Mas já descobri que existe beleza nesta fusão".

Monólogo interno

obra de arte feita com teias metálicas com uma menina sentada ao fundo

“Ninguém iria notar se você simplesmente desaparecesse e nunca mais escrevesse nada.”

“Como você foi capaz de cometer um erro de português tão idiota naquele artigo?”

“Você está passando vergonha se acha que vai chegar a algum lugar com um blog estúpido.”

Essas eram as linhas da batalha interna, o discurso torturante de minha mente contra mim mesma no último fim de semana.

Decidi reler e revisar alguns dos artigos, poemas e textos que postei desde que criei  coragem de expor minhas palavras na internet e nas redes sociais.

O resultado foi o recém mencionado monólogo silencioso e autodepreciativo comigo mesma.

Às vezes é assim: minha mente começa a falar coisas horrendas e simplesmente se recusa a parar. Algo em mim – talvez uma consciência mais elevada – buscava contra-argumentar.

“Mas houve tantos textos sem nenhum erro.”

“Tantas pessoas já comentaram que gostaram do livro e foram tão carinhosas em comentários por aqui. Algumas até escreveram para dizer que você as inspira!”

“Você chegou até a dar entrevistas para podcasts este ano falando sobre o seu trabalho.”

Parecia não importar. Meu cérebro já havia decidido me machucar.

Não foi a primeira vez que aconteceu. Também duvido que será a última.

Porém, nos últimos tempos descobri algumas formas de encontrar respiro em meio a esse filme de terror que por vezes se instala internamente aqui.

O patriarcado tem culpa, sim.

Na verdade, diria que a grande transformação tem sido compreender melhor o porquê se desencadeia esse processo de descida ao inferno da impostora dentro de mim.

O patriarcado é a primeira razão. Isso não é “mimimi” ou vitimismo. 

Acontece que todas as mensagens subliminares da sociedade gritam à mulher: “você só merece um lugar de destaque se for perfeita – física e intelectualmente. Nada menos que perfeita.” (Naomi Wolf explica bem a construção de tal mecanismo em “O Mito da Beleza”, recomendo a leitura). 

Aí já está o primeiro entrave. Afinal, a perfeição é uma exigência muito elevada. Errar é premissa básica de ser humano.

Então, com suas narrativas, a sociedade ocidental forja dentro do inconsciente feminino esta mensagem: “não adianta nem tentar. Esconda-se. De preferência, no vazio invisível do trabalho doméstico.”

Essa lógica foi embutida a fórceps dentro de mim pela mídia, pela disparidade salarial, por todo o contexto que me cerca – e olha que, dentro de casa, tive uma criação muito livre, nunca fui encaixada em um estereótipo pelos meus pais, por exemplo.

Buda também estava certo: domine sua mente, ou ela o dominará

A segunda razão é que a mente tem mesmo essa tendência de não parar de falar quando se apega a determinado assunto. Aí só Yoga entra mesmo para me salvar.

Somente a respiração, o centramento, a meditação são capazes de me fazer perceber que quando algo dentro de mim está tagarelando maldades, muito provavelmente, é a minha mente. Esta, condicionada por conceitos e pressões sociais, que não é a minha verdadeira essência.

A prática diária me fez compreender, como diz minha professora Maria Nazaré Cavalcanti, que a mente é nada mais que uma bailarina tímida. 

Quando elevamos a consciência pela prática, ela se aquieta. É aí que mora a liberdade. Só assim a batalha interior finda.

E por que decidi partilhar um artigo sobre isso?

Porque imagino que você – especialmente se for mulher nesta sociedade machista – já deixou de fazer algo que gosta, ou até de acreditar e bancar alguns de seus sonhos, por conta desse tipo de tortura mental programada como um software de computador.

Portanto, queria frisar aqui:

  1. Você não está sozinha;
  2. Você não precisa ser perfeita;
  3. Não deixe de percorrer seu caminho e fazer o que ama por conta desse peso;
  4. Cerque-se de pessoas que elevam sua autoestima – e não o contrário;

De minha parte, o que posso dizer é que também não vou ceder à mente. Vou continuar aqui.

Rabiscarei minhas palavras e as deixarei soltas ao vento, partilhando um pouco do que acredito com o mundo. 

Mesmo sabendo que não serei perfeita. Nem tendo certezas absolutas sobre para onde o caminho me levará.

Sei que vou errar. Talvez seja criticada. Ou mesmo ignorada.

Ainda assim… Não. Vou. Parar. Porque hoje reconheço que meu processo nunca foi sobre a chegada. Ele tem sido sobre estar em movimento.

Não deixe esta sociedade doente, preconceituosa e julgadora destruir seu sonho. Qualquer que seja.

Parafraseando Emicida:

“Você é o(a) maior representante do seu sonho na face da Terra”.

Não esqueça disso quando estiver em uma das suas batalhas internas.




5 livros que me ajudaram a “sair da bolha” em 2020

desenho de uma menina soltando um balão em formato de coração

Tenho 26 anos, o que se traduz em uma experiência de vida ainda bastante limitada. No entanto, ouso dizer que 2020 tem sido um dos anos mais difíceis na história do Brasil. Por quê?

Bem, pois está escancarada bem diante de nossos olhos a abismal desigualdade social de nosso país patriarcal. Tudo isso em meio a um genocídio (sim, assim descrevo o que acontece quando mais de 170 mil pessoas perdem sua vida, devido à necropolítica praticada por um governo).

Ontem mesmo, o LinkedIn divulgou nova pesquisa do Ministério da Economia, apontando que as mulheres concentraram 65,6% dos empregos formais eliminados na pandemia.

Em um lado da balança, os extremamente ricos ficaram ainda mais ricos: segundo levantamento do banco suíço UBS, a fortuna dos bilionários em meio à pandemia passou de 10 trilhões de dólares. Enquanto isso, a miséria extrema também avançou (onde uns têm demais, outros têm de menos, por obviedade). 

Mais de 13,2 milhões de brasileiros, segundo dados do Cadastro Único do Ministério da Cidadania, estão em situação de extrema miséria. 

Sair da bolha é dolorido e demanda coragem

Para contextualizar melhor a introdução deste texto (antes que alguém me chame de socialista de iPhone ou comunista), primeiro quero frisar: sei bem que sou uma menina branca, de classe média. E que, provavelmente, ainda vivo em uma bolha de inúmeras maneiras. 

Só que isso não me impede de tentar enxergar outras realidades além da minha. Penso, inclusive, que é o mínimo dever que tenho diante dos privilégios que possuo enquanto cidadã.

Além disso, acredito que minha função como jornalista é realmente procurar falar por aqueles que não têm voz. Foi por isso que, no texto de hoje, decidi compartilhar cinco livros que me ajudaram a “sair um pouco da bolha” neste ano de 2020, justamente para compreender melhor o contexto que me cerca neste país. 

Sair de bolhas é dolorido, eu sei. É um processo – muitas vezes desconfortável – reconhecer privilégios, mas isso nos engrandece enquanto seres humanos. Nos torna mais gratos e empáticos.

Além disso, enquanto nós da classe média – e alta, principalmente! – não observarmos para além das nossas bolhas, viveremos com medo da violência e da barbárie, que são frutos da desigualdade social. 

Então, sem mais delongas, vamos aos livros?

Para ampliar horizontes: 5 obras essenciais 

1. Quarto de Despejo, por Maria Carolina de Jesus

“Que efeito surpreendente faz a comida em nosso organismo! Eu, que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.”

Nunca passei fome na vida, mas fui capaz de ter dimensão da experiência com a história de Maria Carolina de Jesus. Em seu livro, amplamente comentado neste ano de 2020 e já citado em palestras da Feira do Livro de Porto Alegre e Araxá (que, aliás, estão rolando online pelo Youtube com palestras e convidados incríveis!), é possível mergulhar na vida dos moradores da favela de Canindé, em São Paulo, década de 50.

A obra, tristemente, segue atual. O mundo ainda está repleto de “Marias Carolinas de Jesus”. Basta você passar por uma grande cidade para perceber. Enquanto mulher, esse livro me tocou muito e fez com que pudesse desenvolver um senso de gratidão ainda maior pelas coisas mais simples da vida, como a beleza do entardecer e um prato de comida.

2. Os Miseráveis, por Victor Hugo

“O que é a história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava. De quem? Da miséria. Da fome, do frio, do isolamento, do abandono, da privação. Dolorosa negociação. Uma alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita. […]. Dizem que a escravidão desapareceu da civilização europeia: é um erro. Existe ainda, mas não pesa senão sobre a mulher, e chama-se prostituição.” 

Ainda não finalizei a leitura deste clássico calhamaço, mas já vale a pena dividir algumas palavras por aqui. Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que a obra de Victor Hugo é das mais tocantes que já li em toda a minha vida. Principalmente porque versa sobre a miséria humana em todos os espectros possíveis: do âmbito financeiro ao moral.

Este livro tem me feito compreender diversos tipos de miséria que permeiam a existência. A do dinheiro é apenas uma delas – e que exige, de fato, muita atenção e compaixão por parte de todos nós que nunca passamos pela privação extrema.

Por outro lado, a obra também abre o coração do leitor para o que é realmente o aspecto mais importante da vida: amar. Sem amor, somos todos miseráveis (ricos ou pobres).

3. O Mito da Beleza, por Naomi Wolf

‘Depois do sucesso da segunda onda do movimento das mulheres, o mito da beleza foi aperfeiçoado de forma a impedir o avanço do poder em todos os níveis na vida individual da mulher. As neuroses modernas na vida de um corpo feminino se espalham de mulher para mulher em ritmo epidêmico.”

Enquanto mulher, também faço parte de uma minoria oprimida da sociedade. Mas, neste contexto, há ainda outras bolhas mais profundas, que afligem diferentes camadas sociais.

A obra da jornalista Naomi Wolf me fez ter a sensação de sair de uma nova bolha este ano: aquela que permeia a “obsessão pelo corpo perfeito”, que atinge tantas e tantas mulheres neste exato momento.

Neste livro, ela tece um argumento poderosíssimo de que, para brecar o avanço intelectual das mulheres e suas conquistas profissionais, a sociedade patriarcal associou o crescimento patrimonial da mulher à uma “beleza comprável”, por meio de cosméticos, cílios, maquiagens e horas gastas na academia.

Em outras palavras: a sociedade de consumo aprisiona a mulher em seu ideal de corpo, de modo que despendemos nossos salários (já mais baixos), muito frequentemente, em coisas relativamente fúteis – quando poderíamos estar lendo um livro, ou nos cuidando em casa mesmo…

A quem interessa, afinal, que sejamos ignorantes e apenas belos “cabides” maquiados, ao invés de seres pensantes?

4. O Conto da Aia, por Margaret Atwood

“Somos úteros de duas pernas, isso é tudo: receptáculos sagrados, cálices ambulantes.”

Embora seja ficcional, a obra de Atwood me fez sair da bolha no sentido de pensar profundamente sobre as diferentes experiências de dor que podem impactar a mulher em uma sociedade. Sobre como somos colocadas em caixinhas e, frequentemente, julgamos umas às outras pelos papeis que assumimos (mãe, amante, esposa fiel, “lésbica”, dona de casa, etc).

As palavras da autora despertaram em mim compaixão por outras mulheres que, com certa vergonha, hoje confesso que já cheguei a julgar. Me fez aprofundar também a compreensão de que a única forma de modificarmos a estrutura patriarcal, inserida no contexto do fanatismo religioso, é ajudando umas às outras, jamais competindo e apontando dedos.

ps: já escrevi uma outra resenha mais completa sobre “O Conto da Aia”, você pode ler neste link.

5. Admirável Mundo Novo, por Aldous Huxley

“As flores do campo e as paisagens têm um grande defeito: são gratuitas. O amor à natureza não estimula a atividade de nenhuma fábrica.”

A distopia de Huxley foi perfeita para o momento de quarentena, pois acentuou minha percepção do que estava por trás do colapso social e econômico que pautou 2020: a diferença de salários e o nível de valorização que permeiam distintas profissões, além da alienação coletiva que ocorre, justamente, quando não saímos da bolha.

Por que as pessoas não pararam de trabalhar em meio à uma pandemia? Algumas não tiveram opção, precisavam do dinheiro. Outras não aguentaram o peso de sua consciência dentro de casa e, mesmo com bens acumulados para três gerações, acabaram saindo. Houve, ainda, aquelas que mal pararam para refletir sobre tudo o que está acontecendo e seguiram rotinas em um automatismo assustador.

A ignorância continua a mover grande parte da massa populacional do Brasil. E o maior problema dela é justamente o fato de ser mortal, como ficou claro com o Covid-19.

E você? Já leu alguma dessas obras? Se quiser me contar aqui nos comentários, vou adorar saber! 

Observação: os livros indicados neste post contêm meus links de afiliada. Ao comprar por meio deles, você não paga nada a mais, mas ajuda a rentabilizar meu trabalho para que eu possa seguir escrevendo esses textos. Obrigada!




Eu queria estancar tua dor

eu e minha amiga Carolina Marco

Sinto tua perda, de certa forma, como se fosse minha. É estranha, desconfortável, agoniante a distância. 

Ouvir lágrimas em áudios pelo WhatsApp. Ser incapaz de estender os braços para ti.

Tantas vezes a vida já nos fez chorar juntas. Algumas lágrimas de tristeza, fosse por conta de um relacionamento ou uma situação difícil no trabalho.

Outras, de alegria inexplicável. Como aquela vez ouvindo a Lana em São Paulo debaixo de uma lua cheia mágica e incrível, parecendo encomendada para tornar aquele momento ainda mais perfeito.

E agora, no meio deste luto tão inimaginável e inesperado pelo qual tu passa, sequer posso oferecer um abraço. É doído demais.

Sabe, às vezes penso que 2020 é o maior baque que nossa geração já sofreu. A gente não tinha dimensão do que é passar por uma espécie de guerra. Ou, como está acontecendo aqui no Brasil, um verdadeiro genocídio.

Enfim, descobrimos. É excruciante.

Amiga, eu queria ser capaz de diminuir tua dor – assim como a dos quase 170 mil brasileiros e brasileiras que já perderam pessoas amadas nesta pandemia.

Penso que mesmo nós, que continuamos vivos, morremos um pouco junto com eles.

Queria ter o poder de diminuir tanto sofrimento. Só que não tenho. Porque, invariavelmente, agora caberá a ti viver essa dor. 

O luto vai exigir o espaço dele.

Em algum momento, talvez ignorá-lo até pareça mais simples. Mas não funciona assim. Aliás, tem me preocupado essa recusa coletiva em nosso país de encarar a morte.

Penso que é absolutamente insano que o Brasil ainda tenha tamanho número de pessoas que só pensam em mover a máquina do dinheiro, esquecendo de que a alma precisa do seu momento também. 

Perder alguém deixa marcas que não podem ser mascaradas.

Então, chore. Chore rios, oceanos. Chore ainda tudo que precisar chorar. Depois o tempo vai encarregando de cicatrizar o coração. Mas a dor é um estágio. Também é parte da cura.

É por poder te oferecer tão pouco agora que compartilho essas palavras, em uma tentativa – talvez boba – de consolo. 

Só precisava dizer que a memória de quem amamos permanece conosco.

Meu coração está contigo.

*Dedico este texto à minha amiga Carolina Marco que, no último fim de semana, perdeu sua avó Adelina Tarouco para o Covid-19. Também, de certa forma, a todas as pessoas que tiveram de lidar de forma tão abrupta, dolorosa e inesperada com a morte este ano.

O paradoxo

foto de uma folha boiando na água

Ouço a chuva lá fora e sinto meus olhos cansados. Acho que já passou das 22h. Não posso ter certeza. Há tempos que já não durmo com o celular próximo.

Durante este dia inteiro algo me arranhou internamente. Essas palavras aqui imploravam pelo encontro com o papel, pois há algo em mim que busca compreensão. 

Necessito de algum vestígio de clareza sobre o paradoxo.

O imenso, assustador e magistral paradoxo que é 2020. Pensar nele me dói de tantas maneiras.

Há o sofrer ainda mais acentuado dos que já sofrem. A insanidade do homem se voltando contra ele mesmo.

Aquele negacionismo que lotou as praias no último feriado. A descrença egocêntrica dos que se recusam a usar uma máscara e acabam por revelar sem querer o que há de mais insensível ou ignorante dentro de si mesmos. 

Não sei porque essas coisas me doem tanto. Mas foram raros os dias em que não chorei.

E era mais fácil chorar quando havia braços que me acolhessem para secar as lágrimas. 2020 não teve.

Só havia meus meus próprios braços ali e foi neles que me envolvi. Simplesmente não houve saída senão o amor-próprio.

Quando deitei na cama vazia e chorei, fui eu quem disse a mim mesma: “isso também vai passar”. É aí que o paradoxo se acentua.

Surgiu mais um ponto de interrogação na pureza deste reencontro comigo mesma. Me acolher e trazer o amor mais importante de volta – o próprio – tem sido talvez a parte mais doce para mim neste amargo ano.

O ápice de sua contradição.

Eu amo e odeio 2020. A parte de odiar é mais fácil, pois o ódio sempre é, mas também não consigo deixar de ver beleza escondida em tudo.

Não sei porque sou assim. Simplesmente sou incapaz de não ver algo de belo na vida, mesmo quando todos buscam me convencer do contrário.

Não posso crer que este planeta é horrível e o mundo é um lugar feio.

Sou mais da opinião de que nós é que pintamos tudo de cinza com nossa pressa e falta de sensibilidade. Aqui poderia ser muito mais colorido.

Falando em colorir, amanhã quero pintar alguma coisa. Ou quem sabe procurar algo interessante para fotografar.

Porque estou chegando à conclusão de que talvez estas palavras aqui não solucionem o paradoxo.

Talvez ele não tenha de ser solucionado, apenas atravessado.

E no meu ouvido há algo que sempre parece sussurrar incansavelmente até por trás dos pensamentos: o único caminho é a arte.

Sem ela, tudo isso é pura insanidade.