O Conto da Aia não é uma distopia. É uma releitura ficcional da realidade.

Atriz Elizabeth Moss em O Conto da Aia

Acompanhei a primeira temporada da série “O Conto da Aia” no início de 2019, quando os primeiros instintos mais fortes ligados à causa feminista começavam a aflorar dentro de mim. As cenas eram impactantes, duras de assistir, mas persisti até o fim. Na época, porém, ainda não tinha dimensão real do que tudo aquilo significava.

Passa um ano. Brasil, 2020. Fanatismo religioso. Pandemia. Isolamento social. Acabei, enfim, com um exemplar em mãos do livro que deu origem à série, escrito pela canadense Margaret Atwood

Eu, a mesma pessoa, mas agora já também com mais de um ano de estudos feministas na bagagem, graças ao projeto desenvolvido junto à minha amiga Carolina Marco, o NÓS (por meio do qual criamos conteúdo gratuito para empoderar mulheres), pude realmente me aprofundar nessa obra crítica brilhante. Talvez equivocadamente chamada de distopia.

O fato é que, a meu ver, o mundo em que vivemos hoje parece tornar-se cada vez mais próximo do cenário da série. Vou explicar o porquê.

Elementos centrais de O Conto da Aia 

Distopia, segundo o dicionário, seria uma antítese de utopia. Em outros termos, diz respeito a um estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação (antítese de utopia). Sob tal perspectiva, caso ainda não tenha ouvido falar da série ou do livro, a classificação estaria correta.

Para dar um breve resumo, a história se passa na chamada República de Gileade. Trata-se de uma sociedade estabelecida nas fronteiras do que antes eram os Estados Unidos da América, tomado por um movimento fundamentalista de reconstrução cristã autointitulado “Filhos de Jacó”. 

Por meio de um golpe, ele suspende a Constituição sob o pretexto de “restaurar a ordem” social diante de um problema central: o país se encontrava tão poluído e tóxico que a saúde e a fertilidade da maioria da população feminina foi afetada e as mulheres pararam de ter filhos.

Basicamente, o que se passa é que sob o pretexto religioso é criado um Estado completamente totalitário, militarizado, hierárquico e fanático, que distorce textos do Velho Testamento para reorganizar o país sob um elemento central: a reprodução. As mulheres não têm mais a possibilidade de leitura, estudo ou autonomia de qualquer tipo.

Naturalmente, elas acabam divididas em “castas” estabelecidas, claro, por sua capacidade reprodutiva (existente ou inexistente). Cada uma está predestinada a executar uma função. A personagem principal, Offred, faz parte do grupo das Aias – mulheres obrigadas a se vestirem de vermelho e copularem com os Comandantes das casas que habitam, cujas esposas já são inférteis.

Mas há também as mulheres destinadas à limpeza e aos serviços domésticos, por exemplo. Cada uma na sua “caixinha”, no seu papel. Odiando – ou invejando – a outra pelo que ela ocupa. São justamente esses elementos sutis da narrativa que parecem transformá-la não mais em algo distópico. Mas, sim, em algo próximo da realidade de todas as mulheres, independentemente da classe social. 

Na verdade, O Conto da Aia simplesmente mistura aspectos já existentes e fortíssimos da opressão à mulher e imagina-os levados à máxima potência.

Violência que transparece nas palavras

Tive o insight de que o livro não era totalmente imaginativo justamente porque palavras são muito expressivas. Como a obra inteira é narrada em primeira pessoa, fui capaz de sentir o mesmo que Offred em diversos aspectos de sua descrição quanto à objetificação de seu corpo, os olhares de julgamento de outras mulheres e a educação estruturada com base na cultura de estupro, que tende a culpabilizar as vítimas pelos abusos.

Tomei a liberdade de expor, aqui, alguns trechos diretos que corroboram o que digo. Por exemplo: quando, no Centro de Treinamento ao qual às mulheres são enviadas assim que a República de Gilead é estabelecida, as “Tias” (espécies de freiras treinadoras) lhe fazem uma lavagem cerebral para que se submetam ao regime.

“Janine está contando como foi currada por uma gangue aos catorze anos e fez um aborto. (…) – Mas de quem foi a culpa?, diz Tia Helena, levantando o dedo roliço. ‘Foi dela, foi dela, foi dela, entoamos em uníssono.’ ‘Quem os seduziu?’, Tia Helena sorri radiante, satisfeita conosco. ‘Ela seduziu. Ela seduziu. Ela seduziu. ‘Por que Deus permitiu que uma coisa tão terrível acontecesse? ‘Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição. Na semana passada, Janine explodiu em lágrimas. (…) Nesta semana, ela nem espera que comecemos com as zombarias. ‘Foi minha própria culpa’, diz ela. Foi minha própria culpa. Eu os incitei, os seduzi. Mereci o sofrimento’. ‘Muito bem, Janine’, diz Tia Lydia. Você é um exemplo.”

Forte, não é?

Ou esta descrição de como Offred se sente em relação ao seu próprio corpo:

“Eu costumava pensar em meu corpo como um instrumento de prazer, ou um meio de transporte, ou um implemento para a realização de minha vontade. Eu podia usá-lo para correr, apertar botões deste ou daquele tipo, fazer coisas acontecerem. Havia limites. Mas meu corpo era, apesar disso, flexível, sólido, parte de mim. Agora, a carne se arruma de forma diferente. Sou uma nuvem.”

Ok, não podemos dizer que a realidade atual do Brasil está nesse nível de totalitarismo, obviamente. Mas, se você for mulher, provavelmente vai se identificar com algumas sensações evocadas pelo livro. Talvez sinta alguma cosquinha engraçada que lhe diga: já experimentei tal sentimento. Ou, inclusive, “já julguei outra mulher assim”.

Foi muito interessante que, quando terminei a leitura, compartilhei lá no meu Instagram justamente a perspectiva de que “O Conto da Aia” não é uma distopia. A Mariana Blauth, que foi minha colega na faculdade de Jornalismo e hoje coordena um projeto literário super bacana chamado Página Cem, me chamou no inbox e contou:

“Sabia que a própria autora falou em uma entrevista que ela classificaria sua obra como ficção especulativa, não distopia?”

Aí a ficha caiu. De fato, a narrativa do livro não é completamente impossível. Para algumas mulheres, em maior ou menor grau, é uma extensão da realidade. Daí, mais uma vez, a importância da luta feminista: é sobre fazer prevalecer nossos direitos para que a vida se torne melhor para as mulheres – e não pior.

Porque o pior é muito, muito, muito assustador. Como Atwood já alertou em sua fascinante obra-prima que parece distante no tempo, escrita em 1985, mas se torna a cada dia mais atual.

E você, já leu o livro ou acompanhou a série? O que achou? Teve alguma percepção semelhante? Me conta aqui nos comentários que eu vou amar saber!




“Jeffrey Epstein: Poder e Perversão”, série documental da Netflix, quase me fez vomitar. Precisamos falar sobre cultura de estupro

Jeffrey Epstein e Donald Trump

O aviso antes da exibição de cada episódio era um prenúncio do que estava por vir:

“Esta série contém descrições explícitas de abuso sexual de menores, que podem incomodar alguns telespectadores”.

A nova série criminal da Netflix incomoda. “Incomodar”, na verdade, é um verbo que não faz jus às sensações que ela evoca. Eu descreveria a experiência de acompanhá-la mais como um soco no estômago. Entrou para a lista de coisas mais nojentas que já vi na vida.

De forma resumida, o documentário dividido em quatro episódios demonstra como o bilionário Jeffrey Epstein utilizou de seu dinheiro, de sua influência e de sua inteligência perversa para criar uma rede internacional de tráfico de meninas menores de idade. Só pelo trailer você já pode ter uma ideia:

O foco eram, claro, meninas frágeis. Que vinham de famílias com problemas, muitas não tinham condições financeiras, tampouco perspectiva de melhorarem de vida. Epstein se alimentava, triunfava diante de sua impotência – o que devia aumentar sua sensação de poder mentalmente doentia.

Era um predador que seduzia pelo dinheiro, lhes chamava para fazer “massagens”, que rapidamente se transformavam em outra coisa. Depois, como um astuto abusador costuma fazer, lhes prometia pagar seus estudos no exterior, ajudá-las a crescer na vida. Bancava o pai bonzinho e convencia as próprias vítimas a chamarem outras amigas para as tais massagens.

Assim, facilmente, montou um esquema de pirâmide sexual com menores.

Cultura de estupro e a proteção do mais forte: o homem hétero, rico e branco

A série é reveladora em inúmeros sentidos, aliás. Primeiro, ao expor mais uma vez diversos nomes associados a Epstein. Príncipe Andrew. Bill Clinton. Kevin Spacey. Woody Allen. Harvey Weinstein. Este último que, graças às vozes corajosas de mulheres que encabeçaram o movimento #MeToo, foi parar atrás das grades.

Isso sem falar no próprio Trump. Sim: cada vez mais, ao que tudo indica, o presidente norte-americano não é perigoso só por não ter escrúpulos. Trata-se de um pervertido sexual em potencial.

Segundo, por elucidar de forma clara toda a estrutura de poder por trás do sistema que nos oprime como mulheres. Quando se trata de um homem rico, com influência, de cor branca e bons contatos, até mesmo a justiça se calou (foi comprada para se calar, dito de outro modo) diante das mais sólidas evidências. O que só aumentou o número de vítimas.

Eles fazem o suborno de um juiz aqui, melhoram sua imagem na mídia com uma filantropia ali e a coisa toda vai se arrastando. O esquema de Epstein revela o que há de mais podre no sistema capitalista: a possibilidade do dinheiro e da influência serem utilizados para silenciar e intimidar as sobreviventes. Não permitir que sejam ouvidas.

Ainda pior: culpabilizá-las. Algumas das que ousaram falar, conforme a série demonstra, foram automaticamente denominadas pela mídia como “prostitutas” ou “ex-prostitutas”. Eram menores de idade quando os abusos aconteceram. Eram vítimas. Ví-ti-mas.

Esta é justamente a essência da cultura do estupro: não só permitir que abusos aconteçam, como também culpabilizar a oprimida e, assim, viabilizar a continuação da violência. É perverso.

Sinto que nós ainda precisamos reforçar muitas vezes que um abuso mental ou físico contra a mulher nunca é culpa dela. Se você já ouviu comentários desnecessários sobre seu corpo, ou foi violentada por conta do uso de termos pejorativos que minaram sua autoestima, ou mesmo se já foi efetivamente estuprada, lembre-se de que isso não foi causado por você.

Não é sobre a roupa que você estava usando, nem sobre algo que você possa ter dito. A doença está na mente do predador.

Está na hora do nosso #MeToo

Enquanto mulher, me contorci na cadeira, suei frio e senti minhas entranhas apertarem a cada novo relato que a série trazia de uma mulher violentada. É uma experiência extremamente intensa ver tantas sobreviventes se pronunciando, chorando, relatando episódios semelhantes de abusos físicos e psicológicos. Uma após a outra.

Não vou entregar o spoiler de como ela termina, mas há um mínimo senso de justiça, pelo menos – embora incompleto. O fato é que a força e a cobertura do movimento que começou nas redes, o #MeToo, por meio do qual milhares de mulheres relataram ter sido violentadas e abusadas, garantiu a oportunidade das vítimas de Epstein se pronunciarem diante de um juiz que as ouviu. E colocou, finalmente, o pervertido atrás das grades.

Ainda assim, a verdadeira justiça não foi feita. Ao acompanhar o último episódio da série, você vai entender o porquê.

Mas e quanto às pequenas violências e estupros diários as mulheres ainda sofrem? E como fazer uma leitura disso aqui no Brasil?

Aproveito para recordar alguns dados estatísticos:

  • Segundo dados da Agência Brasil, só em São Paulo o número de casos de violência contra a mulher aumentou 44.9% durante a pandemia. Imagine com o número de casos não reportados.
  • Dados do Ministério da Saúde apontam que a cada quatro minutos uma mulher é agredida por um homem no Brasil. Um dos maiores índices de violência do mundo.

A opressão não está apenas na violência física e psicológica. Está em todos os setores da sociedade machista em que estamos inseridas. 

Ver as vítimas se pronunciarem no documentário da Netflix foi uma experiência tão difícil, quanto empoderadora para mim. Ficou ainda mais claro: nossa força enquanto minoria é coletiva.

Mulheres, nós, aqui no Brasil, também precisamos começar a falar.

Está na hora do “nosso” Me Too.

Ps: não costumo fazer uma chamada no fim dos meus artigos pedindo para que o leitor compartilhe meu texto. Mas, se você sentir que ler o que escrevi pode ser transformador para uma mulher, por favor, compartilhe. Obrigada.

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