A fé possível: montagens artísticas que possibilitam enxergar o mundo criticamente

Elenco de Senhora dos Afogados no Teatro Oficina

*Fotografia: Elenco de Senhora dos Afogados no Teatro Oficina, Arquivo Pessoal.

“Agora, entendo que a única coisa capaz de justificar todas as pesquisas científicas, filosóficas, a arte, é não saber o que é o nada” – Annie Ernaux, em “O uso da foto” (Editora Fósforo, 2025)

Penso em como ofertar um último texto este ano a partir da perspectiva do teatro – é, afinal, o território no qual estive mais recentemente imersa no último ano. Além do mais, entendo as Artes Cênicas como um imenso espelho da sociedade em que nos inserimos.

Aqui partilho, então, algumas percepções do caminhar.

Com a Professora Marici Salomão, aprendi que “o teatro não ensina, o teatro educa”.

Com o Professor Juão Nÿn (@juaonyn), aprendi que “quem não cria, está sendo criado”.

Com o Professor Daniel Veiga, lendo “Incêndios”, recordei a importância de “ler, escrever, falar, para sair da miséria, sair do ódio”.

Com Bertolt Brecht e Denise Stoklos, aprofundei minha convicção em batalhar por uma arte que não seja reduzida a mais uma forma neoliberal de alienação, entretenimento puro. Ou seja: criar teatro essencial. Um teatro pacifista, crítico à Guerra.

Um teatro que não reproduza o que já está posto na sociedade, mas que ofereça alternativas e perspectivas de transformação. Não é mais possível aceitar elencos com “buracos”, com pouca – ou nenhuma – diversidade étnica e racial.

Neste sentido, reverencio criações que me proporcionaram este tipo de experiência em 2025, como a montagem de Senhora dos Afogados no Teatro Oficina. O filme Jeanne Dielmann, da cineasta belga Chantal Akerman e “Bugonia”, do diretor grego Lanthimos.

E, claro, não menos importante: os longas nacionais “O Agente Secreto” e “Vitória”. Os poemas de Audre Lorde. As dramaturgias de Sarah Kane, Renata Carvalho, Blendon Cassio, meu querido colega.

Aliás, deixo aqui o agradecimento aos e às colegas que vivenciaram algumas dessas experiências comigo.

Que o próximo ano nos brinde com excelentes leituras, inspiração, sabedoria dançante e sempre, sempre, amor. Fé na arte é uma forma de fé possível.

A você que me lê, muito obrigada. Desejo que continue por aqui sempre que quiser. 🙂

Com meu abraço,

Rafa

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3.11.2025 – Leitura Cena Única

Estudantes da SP Escola de Teatro, Novembro de 2025, 2 Semestre

Fotografia: Rodrigo Reis

Olá, pessoa linda & maravilhosa.

Hoje escrevo para partilhar um texto que escrevi – e li – no evento Cena Única, organizado por estudantes de Dramaturgia da SP Escola de Teatro. Espero que goste e que te traga inspirações, ideias, percepções..

Aproveito para te convidar a participar, no dia 23.11.2025, do nosso Sarau Dramáticos SP, que vai rolar em uma tenda na Praça Roosevelt, a partir das 13h, como parte da programação do Festival Satyrianas. A proposta é ler cenas curtas de dramaturgia de até 10min e/ou poemas.

Você pode vir apenas presitigar ou, se sentir desejo, ler também um poema.

Boa leitura!

Fotografia: Rodrigo Reis
Fotografia: Rodrigo Reis

03.11.2025

Eis que, aos poucos, meu corpo vai se abrindo para experimentações.

Confiar em estar com estranhos me proporciona doses bem colocadas de sensações entre o medo e a vibração fecunda do prazer.

Então, eu pegaria todos os rostos entre minhas mãos e os beijaria simplesmente por saber deste amor transbordante dentro de mim – e uma pulsão de vida inenarrável ecoaria os versos de Geni Núñez: um amor não exclui o outro, expande-o!

Ouço os bem-te-vis:

Bem te vi! Bem te vi!

E vejo bem: a paz não é uma abstração. A paz é uma realidade possível, contida em pequenos gestos da vida cotidiana. Naqueles momentos fugazes em que nos sentimos infinitos.

Mesmo cientes da espantosa realidade de sermos um estalo e depois…pó.

EN – 3rd, November. 2025

Suddenly, little by little, my body begins to open up to new experiences.

Trusting in being with strangers gives me the right amount of dosis between the sensation of fear and the fertile feeling of pleasure.

And then I would take into my hands all of these faces and kiss them, simply by being aware of this overflowing love inside me – and something would echo Geni Núñez verses: one love does not exclude other, it mutiplies!

I listen to the birds singing:

“Bem te vi, bem te vi…”

And I see clearly: peace is not an abstraction. It is contained In those little gestures of daily life. Those brief moments in which we feel infinite.

Even in front of the terrifying awareness of being a flash and then…dust.”

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Borboleta azul

borboleta com cor azul nas asas pousa em uma folha verde

– Tu voa…

[ ]

– Tu te transforma…

[ ]

– Tu é livre por tua própria Natureza e te camufla quando precisa para seguir batendo as asas.

[ ]

– E pousa na folha verde se te for por descanso ou aconchego…

[ ]

– Tu é bonita…

[ ]

*Exercício de escrita realizado na SP Escola de Teatro, Linha de Estudo de Dramaturgia, junto ao professor Juão Nÿn.

**Fotografia via Revista Fapesp.

Sobre a escrita

*este texto é resultado de um exercício livre de escrita, realizado em fluxo de consciência durante o Curso de Dramaturgia da SP Escola de Teatro, sob orientação da Profª Drª Marici Salomão. A operação consiste em escrever livremente, durante três minutos, com pausas de 30 segundos entre uma escrita e outra.

É tipo uma terapia que não custa mais de R$ 100 a hora. Só que não há outro rosto. Fiquei em pé e lembrei de Virginia Woolf. Não pedi permissão. É mais talvez sobre demonstrar minha posição no mundo do que falar. “Não parem de escrever”, diz a Marici. É o que tento dizer a mim mesma quando penso que tudo o que faço não vai dar em nada…

(o choro do colega é a prova de que a escrita é também terapêutica).

A porra da verdade é que há caminhos na Psicanálise. Eles me interessam, estimulam. Como vamos encontrar esse lugar?

Ganhar o dinheiro como forma de autonomia, fazer, cuidar das crianças.

Cuidar das crianças. Ali há um trabalho que altera o curso de tudo mais.

Quer saber mais sobre exercícios de escrita? Conheça meu livro “O Nascer da Escrita: encontre sua voz por meio das palavras“.

Educar é uma tentativa e ideais elevados aumentam nossas possibilidades

imagem mostra o músico Maurício Colina tocando canções junto às e os estudantes da EMEB Arnaldo Grin. A jornalista e escritora Rafaela Dilly Kich aparece à direita, também acompanhando as canções;

Fotografia do Diretor Fernando Bertuzzi.

Está chegando ao fim a realização de meu Projeto “O Nascer da Poesia: pequenos poemas, grandes ideias”, na Escola Municipal de Ensino Básico Arnaldo Grin, em Novo Hamburgo, com financiamento do Programa RS Seguro COMunidade. Edital para artistas que queiram inscrever novos projetos está aberto, pelo site da Sedac.

Mostra com exposição de trabalhos encerra na tarde do dia 24 de julho

As primeiras atividades de encerramento envolveram momentos para contemplar alunos no contraturno para a finalização dos cartazes/quadros poéticos (criações artísticas com recortes visuais, desenhos e poemas), inicialmente elaborados durante minha presença na disciplina de Artes.

O momento foi rico, mais intimista do que as vivências anteriores nas turmas com maior número de alunos. Percebi um maior rendimento nos trabalhos manuais. Cada vivência, no entanto, é singular. Nos meses anteriores, as dinâmicas propostas com turmas de 7º, 8º e 9º ano buscaram ampliar noções sobre o que é poesia. Nas aulas de Educação Física, por exemplo, houve jogos teatrais e prática de Yoga (agradando a maioria).

Reitero que as práticas animaram o corpo discente e docente da Escola não apenas por observação empírica, mas por ter lido o relatório de avaliação do projeto que propus às estudantes e aos estudantes. A finalização oficial da atividade aconteceu no dia 18 de julho, nas salas de aula, seguida da abertura da exposição dos trabalhos na Biblioteca Mário de Andrade, nos intervalos da manhã e da tarde.

Além da mostra dos trabalhos (que segue até amanhã, dia 24 de julho, no intervalo da manhã), a abertura teve um Sarau de Poesias – com alun@s lendo poemas – e participação do músico graduando da UFPEL Maurício Colina. Ele tocou um repertório de Música Popular Brasileira e passou nas salas para conversar com as e os jovens sobre sua trajetória enquanto estudante da Rede Pública, desde o Ensino Básico até a Universidade.

No dia 24 de julho, amanhã, recolherei os materiais da Exposição e será considerado oficialmente encerrado o Projeto. Aqui, permito-me um momento para pensar e refletir: como estou me sentindo? Sinto-me cansada e ansiando por descanso. Foi bastante desafiador, no último semestre, equilibrar estudos e a condução deste e outros projetos.

Além disso, minhas expectativas quando idealizo uma iniciativa são sempre as mais altas. Acho que isso é positivo. Eleva as possibilidades para mim e quem me cerca. Mas há a expectativa e a realidade. O que podemos fazer dentro do que é possível e humano. 

Educar é uma tentativa. Exercer a docência é questionar-se o tempo todo: será que fiz o melhor que podia pelas alunas e alunos? Como posso fazer mais?

Assim, fazemos. Um dia após o outro. Buscando uma versão melhor de nós mesmos e de nossos estudantes. Aceitando, também, algumas impossibilidades. E, claro, mantendo uma postura intransigente diante daquilo que não pode ser aceito: a violência como normalidade.

Agora, permita-me falar um pouco mais, justamente, sobre essa realidade.

Violência e suas diferentes nuances

A série “Adolescência”, uma das principais produções em recorde de exibições pela Netflix neste ano, colocou em evidência a necessidade de um novo olhar para a juventude. Quando iniciei o projeto, já havia pesquisado sobre dados estatísticos alarmantes. 

Exemplos: total de ataques armados em escolas no Brasil, somado entre 2022 e 2023, já superou o registro dos 20 anos anteriores a nível nacional, apontam dados da Assembleia Legislativa do Estado do Piauí.

Conforme Informe Epidemiológico sobre Suicídio e Lesões Autoprovocadas do RS, publicado em 2023, os últimos anos registraram também considerável aumento no número de suicídios e autolesões entre jovens de 15 e 19 anos.

Adolescentes vivem hoje uma cultura que pode ser bastante opressiva. Seja pela estrutura neoliberal e, no caso da Rede Pública, muitas vezes também pela precariedade estrutural. Tudo se reflete em um aumento da violência. Acredito que, com meu projeto, plantei algumas sementes. Mas é preciso muito, muito mais.

Só há possibilidade de uma sociedade pacífica com Educação e Cultura

Quem realmente cuida diariamente das e dos jovens na sociedade são, justamente, as e os professores, coordenadores, diretores. Elas e eles estão “nas trincheiras”, assumindo funções tão vitais, quanto assustadoras em determinados momentos. Quem cuida de quem cuida? Há professoras e professores precisando fazer dois, três turnos por dia.

A desmoralização de profissionais da Educação por meio de salários precários é algo que precisa nos indignar como cidadãs e cidadãos. Essa é uma das formas mais brutais de manutenção da ignorância humana, de modo que formar pessoas aptas à individuação, ao pensamento crítico racional fica em segundo plano.

O reflexo do que acabei de afirmar aparece em problemas de toda a ordem: da violência urbana à superlotação de equipamentos públicos de saúde. Não há possibilidade de uma sociedade pacífica sem acesso à Cultura e Educação. 

A Escola precisa de Professores. A Escola precisa de Artistas.

E, sobretudo, de ideais elevados. Sempre. Como senti desde o primeiro instante na Escola Municipal de Ensino Básico Arnaldo Grin, que agora deixa lembrança no meu coração e o desejo de, quem sabe, um dia retornar. 

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Com amor,

Rafa

Ensinar poesia: entre escritas de Audre Lorde e experiência prática pessoal

Audre_Lorde,_Meridel_Lesueur,_Adrienne_Rich_1980. Por K. Kendall - originally posted to Flickr as Audre Lorde, Meridel Lesueur, Adrienne Rich 1980, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=8104615

Na fotografia, da esquerda para a direita, Audre Lorde, Meridel Le Sueur e Adrienne Rich, em uma oficina de escrita em Austin, Texas, 1980. Créditos: K. Kendall

O que dizer sobre ensinar poesia?

A poeta Audre Lorde escreveu o seguinte: 

“Então, ensinar poesia é ensinar a reconhecer o sentimento, é ensinar sobrevivência (…) o papel do poeta enquanto professor é encorajar a intimidade e a investigação. Assim, os medos que nos governam e formam nossos silêncios perdem poder sobre nós” – no artigo “A Poesia faz alguma coisa acontecer”, livro “Sou sua irmã” (Editora Ubu, 2020, p. 107)

Conforme me aproximo da Fase 3 da Execução do Projeto “O Nascer da Poesia”, na EMEB Arnaldo Grin, acredito intensamente que a docência é uma das práticas humanas que mais exige dinamismo. Ela demanda intenso planejamento e, ao mesmo tempo, desprendimento para fluir junto do movimento de um grupo de estudantes.

Acho que cabe dizer do quanto acho complexo nosso formato de ensino que ainda parte da dinâmica de uma pessoa dando aula para mais de 20 em uma sala de aula. Não vejo como ela pode ser plenamente proveitosa para todes, no sentido de que a capacidade de atenção à individualidade de cada estudante fica muito reduzida.

Contudo, considerando tal fato e a realidade do Brasil, no decorrer do projeto venho pensando em como extrair potencialidades a partir dos modelos estruturais do sistema educacional no país. Aí entra a função artista-docente: precisamos buscar formas de tornar aulas mais dinâmicas, integrativas, interessantes, em essência.

Poesia é também corpo e educar é exercício mútuo

Declamar poemas utilizando recursos oriundos das teatralidades (gestos corporais, mudanças nas nuances de voz, alterações de luz) em sala de aula tem se mostrado um recurso extremamente potente e que altera a dinâmica comum, engajando a maior parte das e dos estudantes.

Ademais, acho interessante citar que, quando propus aos alunos que trouxessem poemas de autores que começavam com a mesma letra de seus próprios nomes, entendi algo que ressoa com as teorias de Lorde e, arrisco dizer, com as de pensadores como Paulo Freire: educar é um exercício de compartilhamento mútuo de saberes. 

Em outros termos: não é porque estou ali na condição de professora que não tenho nada a aprender. Pelo contrário. Eu mesma conheci e revisitei poetas a partir das pesquisas dos alunos. As escritoras Isadora Duncan e Jacinta Passos são exemplos. 

Alguns alunos e alunas, mais tímidos, pediram para que eu interpretasse os poemas trazidos por eles. Aos mais corajosos, estimulei que lessem as palavras, sentindo-as, da forma que quisessem. Acho que a eles, a vivência foi igualmente bonita.

Penso que a experiência nos conectou, pois eu também me coloquei vulnerável, mostrando que a poesia, a literatura são lugares que nos permitem, sim, errar trechos em uma primeira leitura, tentar novamente, praticar, evoluir…este é, a priori, seu propósito. Permitir, sobretudo, que expressemos o que nos atravessa.

Alterar o espaço: a dinâmica da música ao vivo no intervalo

Nos intervalos das aulas do último encontro, convidei o artista Maurício Colina a entoar canções de Cazuza, The Beatles e outros compositores/grupos que transformaram também suas letras poéticas em músicas. A ideia central do Projeto também é esta: ampliar noções acerca do que se entende por poesia e (re)pensar de que formas distintas podemos ser tocadas e tocados por elas.

Mostrar referências é, acredito, uma das melhores “sementes” que podemos deixar a jovens estudantes. É o que tenho tido a oportunidade de vivenciar, na minha própria condição de estudante de Dramaturgia na SP Escola de Teatro, em espetáculos recentes.

Um dos exemplos é “Tão Carne Quanto Pedra”, do Balé da Cidade de São Paulo. Ali nem mesmo palavra se faz, mas a poética se traduz na coreografia e composição dos corpos e movimentos. Ou na apresentação cênica do Grupo Satyros, chamada “Peça para salvar o mundo”, na qual Inteligência Artificial e questões humanas profundamente filosóficas coexistem.

Cito, ainda, a referência dos espetáculos do Grupo Lume (que recentemente completou 40 anos de atuação), nos quais provocações de opressão também podem ser abordadas a partir de experiências de humor e palhaçaria, provocando risadas. Como educadores podem fruir dessas linguagens e adaptá-las para sala de aula, de modo a tornar a poética atraente, presente e estimulante para os jovens?

É uma questão relevante de se pensar na tentativa de responder com a prática. Se você tiver contribuições neste sentido, fique à vontade para comentar.

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Com amor,

Rafa

Permitir a expansão da poesia: Fase 1 do Projeto “O Nascer da Poesia”

Na fotografia, da direita para esquerda: Fernando Bertuzzi (Diretor-Geral), Mônica Reichert (Orientadora Educacional), Bruna dos Santos Cândido (Vice-Diretora), Adriana Bergold (Coordenadora Pedagógica) e Rafaela Dilly Kich (Artista Proponente).

Na fotografia, da direita para esquerda: Fernando Bertuzzi (Diretor-Geral), Mônica Reichert (Orientadora Educacional), Bruna dos Santos Cândido (Vice-Diretora), Adriana Bergold (Coordenadora Pedagógica) e Rafaela Dilly Kich (Artista Proponente).

Créditos da foto: Iván Andrés Fornos Angues

No dia 28 de fevereiro de 2025, tive a alegria de me reunir com a Equipe Diretiva da Escola Municipal de Ensino Básico (EMEB) Arnaldo Grin, representada na fotografia por seu corpo diretivo. A Escola será “palco” para a implementação de meu projeto “O Nascer da Poesia: Pequenos Poemas, Grandes Ideias“, viabilizado por intermédio de financiamento do Estado do Rio Grande do Sul e apoio do Programa RS Seguro COMunidade.

Pude observar um pouco da rotina dos alunos e alunas, compreender melhor os desafios apresentados pelo seu contexto social e, claro, observar também as belezas cultivadas neste espaço escolar tão precioso e acolhedor (horta, jardim, artes nos muros, entre outros elementos).

Ainda, em momentos compartilhados na sala dos professores, senti abertura, receptividade e acolhimento. No decorrer da realização de minha proposta pedagógica e poética, penso que o maior desafio será contemplar as individualidades de cada estudante em seu percurso de ensino – considerando uma metodologia contemporânea, os diferentes níveis de aprendizado e os interesses particulares de cada um.

Mesclando atividades como jogos (oriundos do Teatro, sobretudo performático), tarefas expositivas e intervenções poéticas com outros convidados e convidadas especiais, creio que faremos um belo trabalho. Este consistirá, sobretudo, em oferecer mecanismos estimulantes para viabilizar a expressão da poesia que já vive em cada uma e cada um deles.

Quer saber mais sobre este e outros projetos culturais que venho implementando? Inscreva-se na minha Newsletter via Substack!

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“O Nascer da Poesia: pequenos poemas, grandes ideias”

Pessoa segurando na mão um livro de poemas.

“Nada conterá a primavera” – Francisco, el Hombre

Foto de Valentin Salja, na Unsplash

É possível combater violência com poesia? Acredito que sim. Mas não se pensarmos nesta estritamente em um sentido lírico, métrico. Aqui, referencio a possibilidade da poesia em perspectiva mais ampla. A poesia que acolhe nossa vida por meio das canções, da Natureza e das relações diárias tocadas pelo afeto. 

Escrevo este texto, justamente, porque desejo compartilhar uma nova iniciativa no ano de 2025: o início do meu projeto “O Nascer da Poesia: pequenos poemas, grandes ideias”, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Arnaldo Grin, viabilizada por intermédio de financiamento do Estado do Rio Grande do Sul e apoio do Programa RS Seguro COMunidade.

A ideia surgiu a partir de uma lembrança do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. A proposta é, precisamente, trabalhar distintos aspectos da poesia em sala de aula, com estudantes dos Anos Finais, em uma escola pública fortemente afetada pelas enchentes de maio de 2024. Sua implementação se justifica, justamente, pelo objetivo de fortalecer a autoestima do público discente e combater a violência.

A violência só gera mais violência. Prova disto é o aumento no número de suicídios entre jovens e o número crescente de ataques com armas de fogo em escolas em anos recentes, como é possível encontrar facilmente comprovação estatística baseada em dados oficiais através de uma rápida pesquisa no Google.

Como acredito, a poesia é o que poderá nos salvar dos afogamentos em um contexto de sociedade violenta e marcada por diferentes camadas de opressão. “Educar para a poesia” é também uma maneira de combater uma lógica armamentista de solução de conflitos baseada em violência. 

A poesia é uma esperança. Mas não uma esperança que nos coloca em estado de alienação e apatia, como nos alerta sabiamente a escritora e jornalista Eliane Brum neste artigo, originalmente escrito para o jornal El País. 

O propósito deste projeto é tornar a poesia tangível, sensibilizar o olhar das e dos jovens para percebê-la e iluminar em seus corações a perspectiva de que, a partir de seus sentimentos e suas ideias, também podem criá-la. 

Por isso, te convido a acompanhar aqui no blog mais dos bastidores deste projeto que estou super contente em iniciar agora.

Com amor,

Rafa

O Nascer da Poesia: percepções a partir de uma oficina de escrita com jovens da Rede Pública

Imagem em banner cor de rosa, com 4 fotos na qual estão presentes a escritora Rafaela Dilly Kich e estudantes das turmas de 8º e 9º ano A e B, em setembro de 2024, na oficina de escrita e conversa denominada: O Nascer da Poesia

Inicio este texto com o estilo literário pulsante de Édouard Louis marcado em mim. Busco um referencial em sua fluência textual autobiográfica para relatar uma experiência pessoal e pontual: a vivência oportunizada por meio de fomento à Cultura (Lei Paulo Gustavo) de ministrar uma oficina de escrita para jovens dos 8ºs e 9ºs anos da Rede Pública de Ensino, especificamente na Escola Concórdia.

Pertinente, talvez, apresentar meu lugar de fala. Vivi, nestes últimos dias, um processo experimental que remete ao de Louis, também talvez ao da francesa Annie Ernaux, um pouco em reverso: sempre estudei em escolas privadas, do Ensino Básico ao Superior. Foi justamente a trajetória artística que me conduziu ao desejo de realizar trabalhos na esfera pública.

Sou mulher. Branca. Uma pessoa de 30 anos (investigando nuances não-binárias), mas com infraestrutura e amparo familiar. Alguém que está ministrando uma oficina porque escreveu livros. Porque foi capaz de redigir um projeto artístico e ser contemplada para ministrar atividade associada à Feira do Livro da cidade. Alguém que tem certa liberdade de ir além da didática/metodologia imposta pela rotina escolar.

Há, nisto, uma inevitável distância que me separa das e dos jovens com quem dialogo. Mas existe, também, este aspecto sempre transformador da literatura: a possibilidade, como disse Ernaux, de compartilhar algo do coletivo. O que é coletivo? A percepção dos sentimentos que, de algum modo, atravessam a todes nós. 

É a partir deste ponto que busquei me conectar com eles, lendo alguns poemas meus; na sequência, partilhando também escritos de Annie Ernaux e Virginia Woolf. Referenciei o quanto estas autoras utilizaram seus sentimentos para conduzir seus projetos literários, – no caso da primeira, sobretudo, a pauta da própria vida como investigação do sentir.

Ernaux, afinal, tem um livro intitulado “A Vergonha”. Gostaria, enquanto docente convidada, de assumir uma postura não-hierárquica, mas capaz de impor respeito. No decorrer da oficina, aliás, senti vergonha em dados momentos – não sabia se estava usando as palavras certas. Se eles compreendiam todas as minhas palavras, minha linguagem. Se todos sequer tinham alguma fluência para escrever.

Não queria soar arrogante, mas também não queria diminuir o vocabulário, pois a própria possibilidade de expansão de um vocabulário é uma possibilidade de expansão de si mesmo, de seu universo. Mas não gostaria, sobretudo, que se sentissem “burros” – adjetivo que já escutei em outras oficinas com certa frequência por parte dos jovens – diante de alguns exercícios propostos.

Percebi, notavelmente, que algumas meninas se mostravam retraídas diante de uma atividade mais autoral, lúdica. Os meninos, em sua maioria, diante da dúvida traziam seus questionamentos.

As meninas pareciam, em sua maioria, preocupadas em “não fazer errado”: o cuidado com a caligrafia, o preciosismo. Parecia difícil para elas lidar com a possibilidade de uma escrita mais livre. Claro: a postura de algumas não permite generalizar este como um comportamento típico somente das meninas. No entanto, é algo que me chamou atenção.

Propus como alternativa o desenho e a pintura, caso alguém não se sentisse confortável em fazer alguma dinâmica escrita proposta para acessar seus sentimentos. Estas atividades envolviam, sobretudo, possibilidades de autopercepção a partir da escrita. Por exemplo, solicitei que as/os jovens escrevessem livremente suas próprias definições do que é amar, ser escutado, mudar…

A didática é algo desafiador. A posição da docência exige dinamismo e um (re)pensar constante de si e do outro. Complexo achar um tom que não faça com que os/as jovens se sintam incapazes; mas também eles parecem, por vezes, necessitar de orientação mais aprofundada – e repetida – para criar algo do zero.

Também é uma posição que exige um aprofundamento constante da empatia, ao mesmo tempo em que impõe enorme seriedade. Mesmo nos detalhes, na forma como as atividades são elucidadas e propostas há noções importantes sendo transmitidas acerca de olhares sobre a vida: a relevância do diálogo democrático nas atividades propostas em grupo para tomada de decisões, o respeito a tod@s colegas.

Neste lugar enquanto escritora assumindo uma postura docente, em dado momento concluo que é preciso aceitar que não existe perfeição. Seguir, seguir, seguir. Fazer e aperfeiçoar a partir do fazer.

Propus, a partir de exemplificações dos fluxos de consciência de Virginia também a atividade de escrita de uma carta. Uma carta a uma mulher que cada um deles admira. A ideia veio há um tempo atrás, a partir de diálogo com meu amigo João Gonçalves. Lembrei às/os jovens que, em cartas, costumamos endereçar, assinar a data. É o tipo de lembrança  que, em geral, se guarda com carinho.

Ao fim das atividades com uma das turmas, uma jovem – Bianca – me entregou uma carta. Ela escrevera para mim. Fiquei fascinada pelo seu uso das palavras, pensei o quanto uma jovem adolescente carrega em termos de carga de sentimentos. O quanto a expressão é primordial e delicada.

O quanto, em uma era extremamente digital, é preciso oferecer aos jovens e às jovens a permissão e os instrumentos para que descubram e acolham sua caligrafia e para que entendam que, junto do conhecimento prático, a literatura pode oferecer um lugar também de amparo e refúgio. Acolhimento. É isto a que ela se propõe em sua mais elementar – e bela – função.

  • Deixo em registro agradecimento à Coordenadora Katia e Professora Ana Cláudia Gregorio, que me acolheram na escola, bem como uma nota de admiração pelo trabalho que realizam diariamente no cuidado com o futuro de cada uma e cada um destes jovens. Também à Secretaria de Cultura do município de Ivoti, gestão 2024, pelo apoio na implementação do Projeto.

, me amando cada dia mais

quando te convenceram
durante muito tempo
de que você é feia
e inadequada
assumir a Deusa
dentro de si
não é narcisismo
e libertação