*Cena escrita para o evento “Cena Única“, da SP Escola de Teatro.
Registro da Leitura/Fotografia: Rodrigo Reis
Na foto, da esquerda para a direita: Adriana Albano, Rafaela D. Kich e Valéria Antunes
Personagens:
Nayara – Mulher negra, culta e questionadora, na reta final de seus 50 anos;
Anahi – Jovem escritora indígena, em torno dos 30 anos, muito inteligente, ainda um pouco tímida;
Na saída de um grupo de leitura de mulheres diversas, Nayra e Anahi conversam.
A – O lance da Guerra tá foda, né? Tem uma escritora russa que disse: “a guerra não tem rosto de mulher”.
N – Por falar em escritora e escrita, como andam teus livros?
A – É..escrever é mais uma forma de contar histórias. Tem sido bom, mas às vezes acontecem umas coisas…
(Silêncio)
N – Tipo?
A – Outro dia me chamaram para falar do Mário de Andrade lá no Theatro Municipal. Era uma homenagem ao centenário da Semana de Arte Moderna de 22.
N – E aí?
A – Tentei falar que acho a forma meio estereotipada. Macunaíma é outro símbolo pro povo Macuxi. Mas quando a gente faz crítica a um modernista, já viu, né? Toquei numa ferida. O palestrante quase pulou da cadeira, dizendo o quanto o Mário foi visionário.
N – Você disse que ele não foi?
A – Não.
(Pausa. As duas se olham e dão um sorrisinho cúmplice de deboche).
A – Só disse o quanto essa versão chega aos meus parentes distorcida. Na verdade, para a gente, Macunaíma é Macunaimã. Filho de Insikiran, nascido no Monte Roraima a partir das águas fecundadas pelo Sol e a Lua. Guardião da natureza.
N – No imaginário popular (pondera), sem tirar méritos do Mário por ter aberto as portas do imaginário para falarmos dos povos que originaram o Brasil mesmo diante de tantas referências que vinham da Europa, ainda foi retratada uma versão meio de “indígena preguiçoso”, né? Até hoje, para alguns estudiosos, é como se repensar esses escritores fosse mais ofensivo do que todas as ofensas reais e simbólicas aos povos originários neste país.
A – O que me pega é isso. (pausa) Não teve escuta.
N – Ainda é uma luta, né? Ser uma voz escutada é lugar de disputa.
A – E a base da escuta é a possibilidade de conectar a voz de um coração a outro.
N – Com certeza…(pausadamente): e a gente…a gente pode escutar com o corpo inteiro.
A e N (em coro): é isso!
A – Topa fazer alguma coisa agora?
N – Tá rolando um filme da Chantal lá no Cinesesc. Vamos?
A – Vamos.
Trocam um sorriso. Silêncio. Fim da cena.

