Ela lambe os dedos com geleia de goiaba e sente saudade da mãe. Ela precisa escrever – que ódio! – precisa fazer tudo e ainda escrever. É tudo por escrever. Insuportáveis ausências. Insuportáveis presenças. Fragmento. Clique. Leitura. Instagram. Leitura.
Ler é sempre mais prazeroso.
Ela lê bell hooks e como escrever depois disso? Não há nada mais interessante para ser escrito. E ainda assim ela escreve. Mesmo que para isso no caminho surjam ralos entupidos, cheiro de merda, medos abissais, pessoas indo, pessoas vindo, desejos realizados e outros não.
“Seu navegador está cheio de lixo”, diz o Antivirus. Ela tem vontade de quebrar o computador. Esse computador velho de merda, onde já escreveu tantos projetos – metade também foi pro lixo -, tantos trabalhos e que, ao menos, ainda sobrevive. Mas é um computador velho. Faz tanto tempo que ela sonha em ter um mais novo, um mais leve.
Só que ela trabalha com arte. São anos trabalhando com arte agora, talvez o suficiente para se cansar, mas ela cansada se adapta, reinventa e não abandona, não abandona a arte, porque a arte também é vida. Ela nem gosta mesmo de escrever em computador, ela gosta de caneta e cadernos,
Agora chega, agora chega porque ela tem livros esperando, livros são sempre melhores, tem Caio Fernando Abreu com suas ótimas crônicas, com “Morangos Mofados”, tem a “Poética de Aristóteles” e tem Annie Ernaux e tem Silvia Federecci e tem livros de Psicanálise e tem todas essas coisas que ela ainda não sabe e quer ver.
Ela já fez o suficiente hoje. Nesta noite de 7 de junho, “apesar de” – como diria Lispector – ela escreveu.
