Entre “Michael” e “O Convite”, a monogamia em falência

olivia wilde e penelope cruz em o convite

Fotografia: Divulgação do filme “O Convite”, via ingresso.com

A Copa do Mundo vai acabar e a vida vai seguir: torça você para a Argentina ou não. Enquanto isso, o Congresso vai tirar férias sem votar a escala 6X1. Mas vamos ao ponto. Apenas para situar: o texto aqui se propõe a traçar reflexões a partir de dois filmes: “Michael” e “O Convite”, comédia com Olivia Wilde na direção.

Por força das circunstâncias, pude acompanhar ambos recentemente, na Galeria Olido (cineminha a 4 reais no Centro de SP) e no Cine Belas Artes (outra delicinha de cinema na Rua da Consolação).

Michael é um novo longa que narra a trajetória de Michael Jackson desde o início da carreira com os irmãos até sua “emancipação familiar”, marcando a ascensão estratosférica de sua carreira solo, em contraste com os desejos de seu pai (altamente controlador), conforme a perspectiva do longa. 

Já “O Convite” remonta às comédias românticas dos anos 30 – segundo referência da crítica Isabela Boscov -, mas oferece um espelho para debates bastante contemporâneos que se impõem, como o da não-monogamia. Se Michael já tinha um ingrediente chave para operar com gatilhos emocionais no público – as próprias canções do astro – Olivia Wilde (que acho fenomenal desde quando assistia “House”), nos brinda aqui com seu olhar de forma inédita.

[hiato dramático aplausos para Olivia Wilde na direção. sugiro neste instante que você pare de ler esse texto e bata uma salva de palmas para a mulher que está aí ao seu lado, ou pensando na sua mãe, avó, tia. tenho certeza de que em algum momento uma mulher salvou sua vida e deve salvar ainda todos os dias].

CLAP-CLAP-CLAP

Ok, agora seguimos…Michael é aquele tipo de filme nostalgia, de balançar na cadeira e renova a empatia pelo astro envolvido em tantas polêmicas. Enquanto isso, “O Convite” é, literalmente, um convite para rirmos de nós mesmos e da instituição do casamento monogâmico como modelo a ser seguido, algo que a diretora já deixa evidente com a citação de Oscar Wilde no início do longa.

 Vale a reprodução:

“Deveríamos estar sempre apaixonados, por isso nunca deveríamos casar.” 

Com um roteiro delicioso que permite que os atores se divirtam em cena (cada vez mais apaixonada pelo potencial que um elenco pequeno pode ter), Olivia, Penélope Cruz, Edward Northon e Seth Rogen  arrancam risadas fáceis do público. Isso por meio da tensão ocorrida no encontro entre um casal monogâmico e um não-monogâmico, durante um jantar na casa do primeiro.

Impactada pela experiência de ambas as criações, uma síntese que talvez possa soar radical: a monogamia é um modelo em falência. Se os movimentos sociais avançam, se o mundo caminha sempre para frente, apesar de eventuais retrocessos (você que é mal passado e que não vê?), não existe mais espaço para a romantização de proposições familiares que:

  1. restringem a liberdade da mulher e criam padrões impossíveis de beleza e perfeição;
  2. cobram uma performance de homens como se fossem máquinas sexuais;
  3. traumatizam gerações impondo pressões absurdas de sucesso estético e financeiro, reiterando o modelo “família de comercial de margarina”;

Aí talvez você me diga que há ondas conservadoras ainda em ebulição, que é “preciso estar atento e forte” e eu concordarei. Mas a não-monogamia, no sentido Geni Núñez da palavra – partindo de uma perspectiva que diz respeito não somente a relações afetivo-sexuais, mas como postura ética-política-filosófica de viver -, ganha cada vez mais evidência.

Intencionalmente ou não, Olivia Wilde coloca nas telas agora um manifesto audiovisual sobre o tema. É impossível não se contorcer de agonia, mesmo em meio às risadas que as piadas do filme evocam, ao ver o casal interpretado por Wilde e Rogen constantemente se agredindo e, mais ainda, o verdadeiro buraco em que se transformou a autoestima dela naquela relação. Ansiosa, insegura, arfando por qualquer migalha de elogio.

Descentralizar a “estrutura casal”. Dedicar tanto tempo aos amigos quanto você dedica ao parceiro ou parceira sexual. Ganhar seu próprio dinheiro. Viver modelos de família que não se restringem aos laços de sangue. Aí estamos diante de possibilidades de caminhos mais sadios para existir.

Não será sem resistência dos setores mais conservadores da sociedade, I know. Mas a mudança é inevitável. Não por uma questão de opinião, mas porque é da natureza da vida a procura pelo bem-estar, o equilíbrio. Se o modelo monogâmico é uma herança colonial e queremos descolonizar, ecoando Geni, precisamos descolonizar também os afetos.

Isso não quer dizer evitar relações aprofundadas e trocar constantemente de parceira(o) só porque você pode. Muito pelo contrário. Apenas quer dizer que você pode aprofundar a relação com um ou mais parceiros-afetivos sexuais, caso queira, assim como com a sua comunidade de um modo mais amplo e geral. Não-monogamia é sobre liberdade para cultivar relações com cuidado, afeto e diálogo. Incluindo você mesma(o) na equação.

Não-monogamia pode ser sobre ficar sexualmente com mais de uma pessoa, mas não se restringe a isso. Pode ser sobre a escolha de cultivar uma única relação de cunho afetivo-sexual, enquanto fizer bem às pessoas envolvidas, sem fazer dela o centro do universo.

Pode ser também sobre a escolha de ficar sozinha(o). Tem a ver com redimensionar os pesos e medidas com os quais nos relacionamos e o nível de energia dedicado a cada pessoa que passa por nossa vida e com a qual nos vinculamos.

Trata-se de uma liberdade trabalhada e não com uma promessa pronta e padronizada de modelo relacional. Ao invés de pensar o “felizes para sempre”, por que não sintonizar – referenciando uma última vez Geni – a ideia de “felizes por enquanto”?

E você, já viu “O Convite?” Se quiser deixar um comentário sobre o filme ou este texto, fique à vontade!

Entre geleia e morangos

Ela lambe os dedos com geleia de goiaba e sente saudade da mãe. Ela precisa escrever – que ódio! – precisa fazer tudo e ainda escrever. É tudo por escrever. Insuportáveis ausências. Insuportáveis presenças. Fragmento. Clique. Leitura. Instagram. Leitura. 

Ler é sempre mais prazeroso.

Ela lê bell hooks e como escrever depois disso? Não há nada mais interessante para ser escrito. E ainda assim ela escreve. Mesmo que para isso no caminho surjam ralos entupidos, cheiro de merda, medos abissais, pessoas indo, pessoas vindo, desejos realizados e outros não.

“Seu navegador está cheio de lixo”, diz o Antivirus. Ela tem vontade de quebrar o computador. Esse computador velho de merda, onde já escreveu tantos projetos – metade também foi pro lixo -, tantos trabalhos e que, ao menos, ainda sobrevive. Mas é um computador velho. Faz tanto tempo que ela sonha em ter um mais novo, um mais leve.

Só que ela trabalha com arte. São anos trabalhando com arte agora, talvez o suficiente para se cansar, mas ela cansada se adapta, reinventa e não abandona, não abandona a arte, porque a arte também é vida. Ela nem gosta mesmo de escrever em computador, ela gosta de caneta e cadernos,

Agora chega, agora chega porque ela tem livros esperando, livros são sempre melhores, tem Caio Fernando Abreu com suas ótimas crônicas, com “Morangos Mofados”, tem a “Poética de Aristóteles” e tem Annie Ernaux e tem Silvia Federecci e tem livros de Psicanálise e tem todas essas coisas que ela ainda não sabe e quer ver. 

Ela já fez o suficiente hoje. Nesta noite de 7 de junho, “apesar de” – como diria Lispector – ela escreveu. 

Entre a Pedagogia da Autonomia de Freire e os fluxos de consciência de Virginia Woolf e Annie Ernaux

Qual a relação que pretendo traçar entre a Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire, os fluxos de consciência de Virginia Woolf em “Mrs. Dalloway” e a autossociobiografia narrada em palavras e fotos de Annie Ernaux em “O Uso da Foto”? Talvez seja mais pertinente iniciar com outra questão…

Quais as possibilidades para um mundo onde crises climáticas e humanitárias (causadas pelos mais ricos) geram consequências (para os mais pobres) e pressionam o rompimento de fronteiras, enquanto poderosas nações (ainda) respondem com omissão e violência? Uma pegunta que me faz refletir sobre como sonhar. É aí que pego o gancho dos livros.

Paulo Freire, Virginia Woolf e Annie Ernaux: questões emancipatórias

A escrita de Paulo Freire, a mim, simboliza em si uma força emancipatória a partir da Educação. Pode parecer abstrato, mas ler sua obra me traz uma espécie de fé em algo. 

Quem sabe, talvez, a própria fé na capacidade de conhecer e criar. Uma educação emancipatória, isto é, não impositiva e doutrinária, possibilita a chance do próprio ser tornar-se consciente de sua incompletude e, portanto, mais tolerante. 

Em outros termos: a Educação é, sim, uma forma de combate à violência. Aí você talvez me pergunte sobre o que isso tem a ver com os livros citados de Virginia Woolf e Annie Ernaux. É que simplesmente não posso deixar de mencionar essas recentes leituras, reveladoras de subjetividades das escritoras e de suas nobres investigações da condição humana.

As formas podem ser diferentes, mas há referências que parecem similares: em “O Uso da Foto”, mais um projeto de literatura autossociobiográfico da vencedora do Prêmio Nobel Annie Ernaux, é possível mergulhar no fluxo de consciência desta mulher durante um relacionamento com o jornalista Marc Marie, co-autor, no mesmo período em que ela recebeu o diagnóstico de câncer de mama.

Precursora, a inglesa Virginia Woolf investiga o universo de sua protagonista no clássico Mrs. Dalloway – ou seja, partindo de uma mulher no centro da escrita assim como Ernaux, modificando apenas o recurso narrativo utilizado: a ficção, no lugar da hoje chamada “autoficção” utilizada pela francesa. Seu texto apresenta reflexões sobre formas de pensar, estruturas sociais e, claro – sempre – a condição da mulher no contexto específico daquela época.

Contatar a subjetividade da outra e do outro é forma de combater violências

Ler mulheres. Indígenas, negras, pardas, trans, brancas. Conhecer. Contatar a subjetividade do outro é também uma forma de empatizar e combater violências. Neste ponto da história da humanidade reforço, uma vez mais, minha ideia de que precisamos muito ter fé. Mas não há mais tempo para uma fé alienante em um salvador. Algo maior, como bem colocou a jornalista Eliane Brum, não nos salvará.

A fé necessária é a fé na ação, justamente, pelo que busco defender neste texto: o direto à subjetividade, à educação, cultura e dignidade humana. A fé que, por fim, exigirá – como sempre exigiu – luta. Pelo direito de sonhar, vale a pena.

Que sigamos nossas lutas com fé e excelentes leituras.

Com meu abraço e até sempre,

Rafa

Manifesto ao amor

Manifesto ao amor - fotografia de acervo da Bienal de São Paulo

Imagem do acervo da 36ª Bienal de São Paulo, com entrada aberta e gratuita até janeiro de 2026, no Pavilhão Ciccillo Matarazzo (Portão 3) do Parque Ibirapuera;

Desperto com uma necessidade inadiável de escrever. Não sei se serei somente eu a ler isso, ou se encontrarei outros rostos a partir de minhas palavras. É que ontem foi um dia aparentemente comum. Só que não era. Ontem, algo neste país mudou.

Estudei pela manhã e trabalhei à tarde. Fui ao cinema com M. ver o filme do Cazuza. Depois, passamos em frente ao Copan. Nas manchetes da televisão: “Jair Bolsonaro em julgamento no STF”. Fomos até o Sesc 24 de maio. Dançamos no mirante, sob as luzes da melhor cidade da América do Sul. 

Voltamos para casa. Comemos sanduíches de queijo e mortadela. Vimos um pouco do Sarau Elétrico do Luis Fernando Veríssimo para matar a saudade de onde viemos, poetas do sul que somos. Gozamos de lindas formas. Tudo enquanto os golpistas do 8 de janeiro estavam no banco de réus. 

Desperto hoje com a dor no dedo mindinho do pé, onde ontem por nervosismo arranquei um naco de unha. Agora, há um machucado que precisa cicatrizar. Assim como o Brasil, lentamente, começa a cuidar de uma ferida…histórica. Começamos a aprender, coletivamente, que existem limites. Que não se pode ferir o outro com impunidade.

Começamos a entender, coletivamente, que o amor é um princípio ético essencial a qualquer projeto de nação (seria ainda muito utópica a ideia de uma reestruturação deste próprio conceito, considerando o que acontece no mundo?). Como a cada novo dia, impossível saber o que vai vir em seguida.

Rogo para que curemos, coletivamente, as feridas deixadas por conta da lógica ditatorial que deturpou nossa educação e mentalidade política por tanto tempo. Que esta nova era seja de mais igualdade, fraternidade, possibilidade. Entoo um canto para que amadureçamos juntas, juntos, juntes.

Com meu afeto,

Rafaela Dilly Kich

São Paulo, setembro 2025.

Uma imagem…

menino tomando sorvete no centro de SP, Brasil

Um menino de seis anos caminha sozinho em direção ao Edifício Copan tomando sorvete. Ele se distrai e o doce cai no chão. Começa a chorar. 

Chega um policial para investigar a situação. A autoridade questiona onde está a mãe do menino, mas a criança não responde. 

O pequeno se agacha no chão e começa a esfregar a gosma do sorvete na roupa do policial. Ele começa a ameaçar a criança.

Subitamente, o menino passa a gargalhar, mas o PM começa a chutá-lo. Então, alguns transeuntes passam a intervir e tentam resgatar a criança do Policial, mas é tarde demais.

O Policial saca a arma do bolso e atira no menino que, aos olhos de poucos, cai no chão em plena tarde de segunda-feira. 

* Exercício de escrita ficcional realizado na aula de Dramaturgia da SP Escola de Teatro, sob orientação da Professora Doutora Marici Salomão.

Imagem gerada com IA do Canva.

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Educar é uma tentativa e ideais elevados aumentam nossas possibilidades

imagem mostra o músico Maurício Colina tocando canções junto às e os estudantes da EMEB Arnaldo Grin. A jornalista e escritora Rafaela Dilly Kich aparece à direita, também acompanhando as canções;

Fotografia do Diretor Fernando Bertuzzi.

Está chegando ao fim a realização de meu Projeto “O Nascer da Poesia: pequenos poemas, grandes ideias”, na Escola Municipal de Ensino Básico Arnaldo Grin, em Novo Hamburgo, com financiamento do Programa RS Seguro COMunidade. Edital para artistas que queiram inscrever novos projetos está aberto, pelo site da Sedac.

Mostra com exposição de trabalhos encerra na tarde do dia 24 de julho

As primeiras atividades de encerramento envolveram momentos para contemplar alunos no contraturno para a finalização dos cartazes/quadros poéticos (criações artísticas com recortes visuais, desenhos e poemas), inicialmente elaborados durante minha presença na disciplina de Artes.

O momento foi rico, mais intimista do que as vivências anteriores nas turmas com maior número de alunos. Percebi um maior rendimento nos trabalhos manuais. Cada vivência, no entanto, é singular. Nos meses anteriores, as dinâmicas propostas com turmas de 7º, 8º e 9º ano buscaram ampliar noções sobre o que é poesia. Nas aulas de Educação Física, por exemplo, houve jogos teatrais e prática de Yoga (agradando a maioria).

Reitero que as práticas animaram o corpo discente e docente da Escola não apenas por observação empírica, mas por ter lido o relatório de avaliação do projeto que propus às estudantes e aos estudantes. A finalização oficial da atividade aconteceu no dia 18 de julho, nas salas de aula, seguida da abertura da exposição dos trabalhos na Biblioteca Mário de Andrade, nos intervalos da manhã e da tarde.

Além da mostra dos trabalhos (que segue até amanhã, dia 24 de julho, no intervalo da manhã), a abertura teve um Sarau de Poesias – com alun@s lendo poemas – e participação do músico graduando da UFPEL Maurício Colina. Ele tocou um repertório de Música Popular Brasileira e passou nas salas para conversar com as e os jovens sobre sua trajetória enquanto estudante da Rede Pública, desde o Ensino Básico até a Universidade.

No dia 24 de julho, amanhã, recolherei os materiais da Exposição e será considerado oficialmente encerrado o Projeto. Aqui, permito-me um momento para pensar e refletir: como estou me sentindo? Sinto-me cansada e ansiando por descanso. Foi bastante desafiador, no último semestre, equilibrar estudos e a condução deste e outros projetos.

Além disso, minhas expectativas quando idealizo uma iniciativa são sempre as mais altas. Acho que isso é positivo. Eleva as possibilidades para mim e quem me cerca. Mas há a expectativa e a realidade. O que podemos fazer dentro do que é possível e humano. 

Educar é uma tentativa. Exercer a docência é questionar-se o tempo todo: será que fiz o melhor que podia pelas alunas e alunos? Como posso fazer mais?

Assim, fazemos. Um dia após o outro. Buscando uma versão melhor de nós mesmos e de nossos estudantes. Aceitando, também, algumas impossibilidades. E, claro, mantendo uma postura intransigente diante daquilo que não pode ser aceito: a violência como normalidade.

Agora, permita-me falar um pouco mais, justamente, sobre essa realidade.

Violência e suas diferentes nuances

A série “Adolescência”, uma das principais produções em recorde de exibições pela Netflix neste ano, colocou em evidência a necessidade de um novo olhar para a juventude. Quando iniciei o projeto, já havia pesquisado sobre dados estatísticos alarmantes. 

Exemplos: total de ataques armados em escolas no Brasil, somado entre 2022 e 2023, já superou o registro dos 20 anos anteriores a nível nacional, apontam dados da Assembleia Legislativa do Estado do Piauí.

Conforme Informe Epidemiológico sobre Suicídio e Lesões Autoprovocadas do RS, publicado em 2023, os últimos anos registraram também considerável aumento no número de suicídios e autolesões entre jovens de 15 e 19 anos.

Adolescentes vivem hoje uma cultura que pode ser bastante opressiva. Seja pela estrutura neoliberal e, no caso da Rede Pública, muitas vezes também pela precariedade estrutural. Tudo se reflete em um aumento da violência. Acredito que, com meu projeto, plantei algumas sementes. Mas é preciso muito, muito mais.

Só há possibilidade de uma sociedade pacífica com Educação e Cultura

Quem realmente cuida diariamente das e dos jovens na sociedade são, justamente, as e os professores, coordenadores, diretores. Elas e eles estão “nas trincheiras”, assumindo funções tão vitais, quanto assustadoras em determinados momentos. Quem cuida de quem cuida? Há professoras e professores precisando fazer dois, três turnos por dia.

A desmoralização de profissionais da Educação por meio de salários precários é algo que precisa nos indignar como cidadãs e cidadãos. Essa é uma das formas mais brutais de manutenção da ignorância humana, de modo que formar pessoas aptas à individuação, ao pensamento crítico racional fica em segundo plano.

O reflexo do que acabei de afirmar aparece em problemas de toda a ordem: da violência urbana à superlotação de equipamentos públicos de saúde. Não há possibilidade de uma sociedade pacífica sem acesso à Cultura e Educação. 

A Escola precisa de Professores. A Escola precisa de Artistas.

E, sobretudo, de ideais elevados. Sempre. Como senti desde o primeiro instante na Escola Municipal de Ensino Básico Arnaldo Grin, que agora deixa lembrança no meu coração e o desejo de, quem sabe, um dia retornar. 

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Com amor,

Rafa

Ensinar poesia: entre escritas de Audre Lorde e experiência prática pessoal

Audre_Lorde,_Meridel_Lesueur,_Adrienne_Rich_1980. Por K. Kendall - originally posted to Flickr as Audre Lorde, Meridel Lesueur, Adrienne Rich 1980, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=8104615

Na fotografia, da esquerda para a direita, Audre Lorde, Meridel Le Sueur e Adrienne Rich, em uma oficina de escrita em Austin, Texas, 1980. Créditos: K. Kendall

O que dizer sobre ensinar poesia?

A poeta Audre Lorde escreveu o seguinte: 

“Então, ensinar poesia é ensinar a reconhecer o sentimento, é ensinar sobrevivência (…) o papel do poeta enquanto professor é encorajar a intimidade e a investigação. Assim, os medos que nos governam e formam nossos silêncios perdem poder sobre nós” – no artigo “A Poesia faz alguma coisa acontecer”, livro “Sou sua irmã” (Editora Ubu, 2020, p. 107)

Conforme me aproximo da Fase 3 da Execução do Projeto “O Nascer da Poesia”, na EMEB Arnaldo Grin, acredito intensamente que a docência é uma das práticas humanas que mais exige dinamismo. Ela demanda intenso planejamento e, ao mesmo tempo, desprendimento para fluir junto do movimento de um grupo de estudantes.

Acho que cabe dizer do quanto acho complexo nosso formato de ensino que ainda parte da dinâmica de uma pessoa dando aula para mais de 20 em uma sala de aula. Não vejo como ela pode ser plenamente proveitosa para todes, no sentido de que a capacidade de atenção à individualidade de cada estudante fica muito reduzida.

Contudo, considerando tal fato e a realidade do Brasil, no decorrer do projeto venho pensando em como extrair potencialidades a partir dos modelos estruturais do sistema educacional no país. Aí entra a função artista-docente: precisamos buscar formas de tornar aulas mais dinâmicas, integrativas, interessantes, em essência.

Poesia é também corpo e educar é exercício mútuo

Declamar poemas utilizando recursos oriundos das teatralidades (gestos corporais, mudanças nas nuances de voz, alterações de luz) em sala de aula tem se mostrado um recurso extremamente potente e que altera a dinâmica comum, engajando a maior parte das e dos estudantes.

Ademais, acho interessante citar que, quando propus aos alunos que trouxessem poemas de autores que começavam com a mesma letra de seus próprios nomes, entendi algo que ressoa com as teorias de Lorde e, arrisco dizer, com as de pensadores como Paulo Freire: educar é um exercício de compartilhamento mútuo de saberes. 

Em outros termos: não é porque estou ali na condição de professora que não tenho nada a aprender. Pelo contrário. Eu mesma conheci e revisitei poetas a partir das pesquisas dos alunos. As escritoras Isadora Duncan e Jacinta Passos são exemplos. 

Alguns alunos e alunas, mais tímidos, pediram para que eu interpretasse os poemas trazidos por eles. Aos mais corajosos, estimulei que lessem as palavras, sentindo-as, da forma que quisessem. Acho que a eles, a vivência foi igualmente bonita.

Penso que a experiência nos conectou, pois eu também me coloquei vulnerável, mostrando que a poesia, a literatura são lugares que nos permitem, sim, errar trechos em uma primeira leitura, tentar novamente, praticar, evoluir…este é, a priori, seu propósito. Permitir, sobretudo, que expressemos o que nos atravessa.

Alterar o espaço: a dinâmica da música ao vivo no intervalo

Nos intervalos das aulas do último encontro, convidei o artista Maurício Colina a entoar canções de Cazuza, The Beatles e outros compositores/grupos que transformaram também suas letras poéticas em músicas. A ideia central do Projeto também é esta: ampliar noções acerca do que se entende por poesia e (re)pensar de que formas distintas podemos ser tocadas e tocados por elas.

Mostrar referências é, acredito, uma das melhores “sementes” que podemos deixar a jovens estudantes. É o que tenho tido a oportunidade de vivenciar, na minha própria condição de estudante de Dramaturgia na SP Escola de Teatro, em espetáculos recentes.

Um dos exemplos é “Tão Carne Quanto Pedra”, do Balé da Cidade de São Paulo. Ali nem mesmo palavra se faz, mas a poética se traduz na coreografia e composição dos corpos e movimentos. Ou na apresentação cênica do Grupo Satyros, chamada “Peça para salvar o mundo”, na qual Inteligência Artificial e questões humanas profundamente filosóficas coexistem.

Cito, ainda, a referência dos espetáculos do Grupo Lume (que recentemente completou 40 anos de atuação), nos quais provocações de opressão também podem ser abordadas a partir de experiências de humor e palhaçaria, provocando risadas. Como educadores podem fruir dessas linguagens e adaptá-las para sala de aula, de modo a tornar a poética atraente, presente e estimulante para os jovens?

É uma questão relevante de se pensar na tentativa de responder com a prática. Se você tiver contribuições neste sentido, fique à vontade para comentar.

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Com amor,

Rafa

“Eu sou bonita. (Ou: uma resposta a Angélica Liddell)”

Imagem em preto e branco, na qual Angélica Liddell interpreta La Falsa Suicida, com um boneco de pano atado a seu corpo e dois cartazes na mão.

Um texto de 19 de abril de 2025.

Foto: Angélica Liddell, interpretando La Falsa Suicida, por Atrabilis. Imagem de Domínio Público, via Wikipedia.

Angélica,

Li recentemente seu texto dramatúrgico chamado “Eu não sou bonita”.

Fiquei pensando: para uma mulher, na cultura Ocidental, é melhor ser bonita ou feia?

“Bonita” – se aqui entendo o adjetivo como “dentro dos padrões de beleza”, parece trazer mais oportunidades.

As supermodelos são bonitas.

E, ao mesmo tempo, quando as fotos delas no Instagram, me surge uma estranha sensação ao observar aqueles corpos com tantas costelas e ossos aparentes.

Como se dissessem, de alguma forma:

“ser bonita é a greve de fome do século”.

[mas, mais uma vez, nem tudo são ônus: elas provavelmente são milionárias]. 

Eu não sou milionária. Eu me preocupo com o aluguel.

Mas eu tenho 30 anos. Não tenho filhos. E também sou bonita.

Acho.

Na verdade, nem sempre me acho bonita.

Mas me dedico para ser. Em certa medida, acho que funciona.

Acho que funciona porque não há praticamente um dia sem que eu saia na rua sem escutar comentários sobre a minha aparência.

Homens me veem e dizem coisas como “que coisa mais linda. Mas que mulher bonita”.

Não vou mentir. Gosto de me sentir atraente.

Mas, claro, fecho a cara sempre e sigo em frente, sempre.

Eu tenho medo. Eu tenho medo.

Não sei se “ser bonita” foi ou é pior ou melhor para mim, pensando neste lugar de mulher.

Você tinha 9 anos quando alguém enfiou a mão em você sem pedir autorização, Angélica. [eu sinto muito]. 

Comigo acho que foi lá pelos 15, 16. Veja que, nos consideremos bonitas ou não, essa narrativa se repete.

Ontem, sábado do feriado de Páscoa, houve mais de 6 feminicídios no Estado do Rio Grande do Sul. Seis assassinatos em menos de 24 horas.

Em São Paulo, a jovem Bruna Oliveira da Silva, estudante de Pós-Graduação da USP, foi encontrada morta em um estacionamento com as roupas rasgadas, indícios de que fora violentada.

No domingo de Páscoa, a maioria das pessoas está preocupada com a ressurreição de Cristo.

Eu estou preocupada com as jovens e as mulheres.

Quem ou o que poderia ressuscitá-las? Essas vidas tão covardemente encurtadas?

Tento, ao menos, mantê-las vivas em memória por meio destas palavras.

Eu escrevo. Eu escrevo.

E se Cristo fosse mulher? Cristo é mulher? Bonita ou feia, como nós?

Há um ponto da vida, como você coloca, em que se torna difícil amar aos homens quando testemunhamos seus atos.

Sinto raiva de todos. Todos. Sem exceção.

E, ainda assim, busco amá-los e compreendê-los.

Tudo é tão complexo que talvez a única saída para nossa sanidade seja mesmo uma espécie de Síndrome de Estocolmo.

Amar nossos agressores.

Soa bem Crístico, não?

Somos todas, de algum modo, crucificadas de braços abertos todos os dias.

Escreveu a cantora Zélia Duncan:

“Como é perigoso nascer mulher…”

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“Vitória”, “Monster” e “Adolescência”: o que a juventude quer nos dizer?

Foto de divulgação do filme "Vitória", cena entre atuantes no corredor; Dona Vitória, com uma sacola verde na mão, conversa com o jovem Marcinho;

Fotografia: Suzanna Tierie/Divulgação, via Jornal Extra

Será que os filmes “Monster”, “Vitória” e a série “Adolescência” têm algo em comum, considerando a questão: o que a juventude quer nos dizer? Vou tentar explicar (a você e a mim mesma).

Talvez um dos papéis mais relevantes da Arte na sociedade seja este: colocar determinados temas em evidência. Assim como aos jornalistas, a partir de uma série de critérios, cabe decidir o que é ou não “notícia”, aos artistas cabe escolher sobre o que falar.

Por exemplo: ao escrever um texto de Dramaturgia, necessito entender SOBRE O QUE falar, PARA QUEM quero falar e a FORMA como quero falar. É neste sentido que procuro agora estabelecer uma relação entre três produções audiovisuais que acompanhei recentemente. O ângulo que escolho é justamente a presença de jovens nelas.

1. Adolescência

Na série “Adolescência”, da Netflix, a proposta da produção é bastante óbvia e já escancarada no título: precisamos falar sobre o universo dos adolescentes na atualidade. O mundo da internet afeta as percepções e as relações das e dos jovens sobre a realidade?

Indiscutivelmente, sim. Os pais de outras gerações compreendem de forma ampla este impacto? Indiscutivelmente, não. Isso pode levar a consequências trágicas.

Aqui no Brasil, reflexo do que acabo de escrever é a proibição por lei do uso de celulares nas escolas da Rede Pública e Privada. Enquanto artista-docente em uma delas, por intermédio do Projeto O Nascer da Poesia, concordo que a proibição é necessária.

No entanto, proibir é também uma forma radical de admitir: não fomos capazes, enquanto sociedade, de lidar com a questão de forma mais organizada. O que, a meu ver, simboliza também uma fragilidade de nosso sistema.

2. Monster

Já “Monster” é uma produção majoritariamente focada nas implicações do ambiente escolar a partir de diferentes perspectivas: a de uma mãe solo, um educador, uma diretora – e, claro, de alunos (dois, em específico).

Uma mensagem que ficou comigo a partir do filme é esta: precisamos acolher os afetos que brotam entre jovens – sem visões maliciosas de adultos. Este é um caminho possível para pensar possibilidades de futuro menos catastróficas.

3. Vitória

Por fim, cito “Vitória”, filme nacional que estreou recentemente com a gigante Fernanda Montenegro. Nele, a crítica central é outra: a problemática dos territórios no Brasil, algo que persiste desde que os primeiros europeus pisaram aqui e que ganha novos e assustadores contornos com a evolução neoliberal.

Aqui, temos como enfoque a milícia. A ditadura que nunca acabou em zonas periféricas tomadas pelo tráfico de drogas. Aquilo que remete às feridas mais profundas da nação (#MariellePresente – sempre).

Sim, entre tudo o que menciono e me parece caber neste texto, acho que talvez a ferida mais sangreta, latente e urgente de estancarmos no Brasil é esta: as vidas jovens perdidas para a droga, o vício, o caminho contrário à Educação e Cultura. Até quando?

Jovens de 13 anos [muitas vezes, negros], viciados em cocaína são seres humanos que denunciam ainda haver algo de muito equivocado nisto a que chamamos de civilização. É preciso repensar nossos modelos.

Naturalmente, neste texto procurei refletir sobre três criações audiovisuais muito distintas em vários aspectos. “Adolescência” é uma série que se passa na Inglaterra, “Monster” tem o Japão como contexto e “Vitória”, conforme citado, é uma produção nacional. 

Todas elas, contudo, nos proporcionam um importante alerta: precisamos dialogar sobre – e com – adolescentes. Parar de estigmatizá-los de forma simplista como “difíceis”. Expressar nosso amor a elas e a eles. As e os adolescentes de hoje (que são também a esperança de algum futuro neste planeta sujeito à deterioração climática acelerada).

E você, já acompanhou a série ou os filmes citados? Quais foram as suas percepções? Fique à vontade para expressar sua opinião nos comentários.

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Com carinho,

Rafa

ORA-PRO-NÓBIS – Manifesto 2025

fundo branco com pratos coloridos decorados, em tons de branco e dourado e desenhos de linhas finas - semelhantes a mandalas

Texto: Rafaela Dilly Kich e Foto: Raul Cacho Oses, via Unsplash

Quem sou eu? Quem são vocês?

Se vocês também escrevem e algum dia se interessaram por sua anatomia vaginal – simbólica ou literalmente – lhes dedico estas palavras. Companheiras: somos hortaliças não convencionais. Mas já não somos como na chegada, caladas, preparando o jantar. 

Virginia Woolf questionou, em 1929: por que aos universitários identificados como sexo masculino é servido peixe dentro das universidades e nós, pessoas-mulheres, temos que nos contentar com ameixas? O que nossos cérebros criam com ameixas?

Claro, não estamos na Inglaterra. Nem – ufa! – nos Estados Unidos, onde Trump implementa uma ideologia política originária de um pensamento de 1919. Mil novecentos e dezenove. Isto segundo matéria do Estadão: em tempos de pós-verdade é sempre bom citar a fonte.

Buenas, 1919 é antes ainda do manifesto de Virginia. Virginia, Virginia, Virginia, fluxo de consciência, meu pensamento. Ah, sim. Aqui no Brasil. Comendo ameixas a gente até fica bonitinha, tipo capa da Caras ou Glamour. Mas a gente não pode sentar apáticas e cadavéricas e simplesmente esperar uma mudança, concorda?

Mulheres querem banana, feijão, “um teto todo seu” e dignidade para escrever. Este grito já vem desde Carolina Maria de Jesus. Infelizmente, ainda somos, companheiras, a carne pobre, o sexo da pobreza – em maior ou menor grau, por vezes, a depender de algo superficial, mas com implicações sociais profundas: a cor da pele.

Ora-pro-nóbis. 

No Brasil, menos de 30% dos livros publicados são de autoria de pessoas identificadas como mulheres, segundo o Instituto Pró-Livro e 97% dos autores publicados são brancos. Veja bem o paradoxo: de acordo com o levantamento, 59% do público leitor brasileiro é formado por mulheres. Ou seja, as mulheres leem mais e escrevem menos. 

Questiono: devido às triplas jornadas? Por falta de confiança e autoestima? Insegurança financeira? Rezar e esperar são aprendizados importantes como parte do caminho, mas não bastam. Especialmente em um contexto de apocalipse climático iminente, como nos alerta a escritora Eliane Brum

Pessoas identificadas como homens no poder vão destruir o mundo. 

Nem sempre as circunstâncias tornam a escrita fácil para nós. Escrever o que acabei de escrever não foi fácil. Dizê-lo é quase impossível.

No entanto, é justamente por haver coisas que não podemos compartilhar com ninguém por meio da fala que é preciso escrever. Todos os dias. Parafraseando Ernaux: escrever para que as coisas encontrem um termo, não sejam apenas vividas.

É preciso escrever para que sejamos também corpo-escrita – e inscritas na história. Escrevamos, portanto, pelas desigualdades enfrentadas pelo nosso sexo e, como diria Lispector, “apesar de”. 

*Exercício de texto criado a partir da música Ora-Pro-Nóbis, disco Tropicália ou Panis et Circenses. Proposta apresentada pela Dramaturga Amanda Carneiro, na turma de Dramaturgia – Módulo Azul, na linha de estudo de Dramaturgia da Escola SP de Teatro.