Entre “Michael” e “O Convite”, a monogamia em falência

Fotografia: Divulgação do filme “O Convite”, via ingresso.com

A Copa do Mundo vai acabar e a vida vai seguir: torça você para a Argentina ou não. Enquanto isso, o Congresso vai tirar férias sem votar a escala 6X1. Mas vamos ao ponto. Apenas para situar: o texto aqui se propõe a traçar reflexões a partir de dois filmes: “Michael” e “O Convite”, comédia com Olivia Wilde na direção.

Por força das circunstâncias, pude acompanhar ambos recentemente, na Galeria Olido (cineminha a 4 reais no Centro de SP) e no Cine Belas Artes (outra delicinha de cinema na Rua da Consolação).

Michael é um novo longa que narra a trajetória de Michael Jackson desde o início da carreira com os irmãos até sua “emancipação familiar”, marcando a ascensão estratosférica de sua carreira solo, em contraste com os desejos de seu pai (altamente controlador), conforme a perspectiva do longa. 

Já “O Convite” remonta às comédias românticas dos anos 30 – segundo referência da crítica Isabela Boscov -, mas oferece um espelho para debates bastante contemporâneos que se impõem, como o da não-monogamia. Se Michael já tinha um ingrediente chave para operar com gatilhos emocionais no público – as próprias canções do astro – Olivia Wilde (que acho fenomenal desde quando assistia “House”), nos brinda aqui com seu olhar de forma inédita.

[hiato dramático aplausos para Olivia Wilde na direção. sugiro neste instante que você pare de ler esse texto e bata uma salva de palmas para a mulher que está aí ao seu lado, ou pensando na sua mãe, avó, tia. tenho certeza de que em algum momento uma mulher salvou sua vida e deve salvar ainda todos os dias].

CLAP-CLAP-CLAP

Ok, agora seguimos…Michael é aquele tipo de filme nostalgia, de balançar na cadeira e renova a empatia pelo astro envolvido em tantas polêmicas. Enquanto isso, “O Convite” é, literalmente, um convite para rirmos de nós mesmos e da instituição do casamento monogâmico como modelo a ser seguido, algo que a diretora já deixa evidente com a citação de Oscar Wilde no início do longa.

 Vale a reprodução:

“Deveríamos estar sempre apaixonados, por isso nunca deveríamos casar.” 

Com um roteiro delicioso que permite que os atores se divirtam em cena (cada vez mais apaixonada pelo potencial que um elenco pequeno pode ter), Olivia, Penélope Cruz, Edward Northon e Seth Rogen  arrancam risadas fáceis do público. Isso por meio da tensão ocorrida no encontro entre um casal monogâmico e um não-monogâmico, durante um jantar na casa do primeiro.

Impactada pela experiência de ambas as criações, uma síntese que talvez possa soar radical: a monogamia é um modelo em falência. Se os movimentos sociais avançam, se o mundo caminha sempre para frente, apesar de eventuais retrocessos (você que é mal passado e que não vê?), não existe mais espaço para a romantização de proposições familiares que:

  1. restringem a liberdade da mulher e criam padrões impossíveis de beleza e perfeição;
  2. cobram uma performance de homens como se fossem máquinas sexuais;
  3. traumatizam gerações impondo pressões absurdas de sucesso estético e financeiro, reiterando o modelo “família de comercial de margarina”;

Aí talvez você me diga que há ondas conservadoras ainda em ebulição, que é “preciso estar atento e forte” e eu concordarei. Mas a não-monogamia, no sentido Geni Núñez da palavra – partindo de uma perspectiva que diz respeito não somente a relações afetivo-sexuais, mas como postura ética-política-filosófica de viver -, ganha cada vez mais evidência.

Intencionalmente ou não, Olivia Wilde coloca nas telas agora um manifesto audiovisual sobre o tema. É impossível não se contorcer de agonia, mesmo em meio às risadas que as piadas do filme evocam, ao ver o casal interpretado por Wilde e Rogen constantemente se agredindo e, mais ainda, o verdadeiro buraco em que se transformou a autoestima dela naquela relação. Ansiosa, insegura, arfando por qualquer migalha de elogio.

Descentralizar a “estrutura casal”. Dedicar tanto tempo aos amigos quanto você dedica ao parceiro ou parceira sexual. Ganhar seu próprio dinheiro. Viver modelos de família que não se restringem aos laços de sangue. Aí estamos diante de possibilidades de caminhos mais sadios para existir.

Não será sem resistência dos setores mais conservadores da sociedade, I know. Mas a mudança é inevitável. Não por uma questão de opinião, mas porque é da natureza da vida a procura pelo bem-estar, o equilíbrio. Se o modelo monogâmico é uma herança colonial e queremos descolonizar, ecoando Geni, precisamos descolonizar também os afetos.

Isso não quer dizer evitar relações aprofundadas e trocar constantemente de parceira(o) só porque você pode. Muito pelo contrário. Apenas quer dizer que você pode aprofundar a relação com um ou mais parceiros-afetivos sexuais, caso queira, assim como com a sua comunidade de um modo mais amplo e geral. Não-monogamia é sobre liberdade para cultivar relações com cuidado, afeto e diálogo. Incluindo você mesma(o) na equação.

Não-monogamia pode ser sobre ficar sexualmente com mais de uma pessoa, mas não se restringe a isso. Pode ser sobre a escolha de cultivar uma única relação de cunho afetivo-sexual, enquanto fizer bem às pessoas envolvidas, sem fazer dela o centro do universo.

Pode ser também sobre a escolha de ficar sozinha(o). Tem a ver com redimensionar os pesos e medidas com os quais nos relacionamos e o nível de energia dedicado a cada pessoa que passa por nossa vida e com a qual nos vinculamos.

Trata-se de uma liberdade trabalhada e não com uma promessa pronta e padronizada de modelo relacional. Ao invés de pensar o “felizes para sempre”, por que não sintonizar – referenciando uma última vez Geni – a ideia de “felizes por enquanto”?

E você, já viu “O Convite?” Se quiser deixar um comentário sobre o filme ou este texto, fique à vontade!

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