É a convicção sem autocrítica que nos torna idiotas?

ator hugo possolo em divulgação do monólogo um idiota convicto

“Um Idiota Convicto”, monólogo de Hugo Possolo, esteve em cartaz no Espaço Parlapatães às 22h dos sábados no mês de agosto. Tive a oportunidade de prestigiar uma sessão da apresentação rica em um tipo de humor que parece cada vez mais raro: aquele que é fruto da revolta social e da autocrítica – e sem perder a graça, claro.

Esbanjando técnica e domínio cênico, Hugo transita por diferentes personagens satíricos e bastante arquetípicos, unidos por um elemento comum: a masculinidade tóxica. São os idiotas convictos, que não suportam lidar com visões de mundo diferentes das suas, adoram xingar na internet e sustentar uma espécie de gozo perverso com seus paus e armas.

A dramaturgia encontra espaço no jogo de corpo, ao ponto de provocar até mesmo risos histéricos na plateia (ao menos na sessão que acompanhei). Um efeito que tensiona, desestabiliza, dialoga com algo contestador. Apenas em alguns momentos, considerando a duração total do espetáculo, senti a atenção dispersar da cena – e pode até ser reflexo da incapacidade de concentração sintomática do espírito do nosso tempo.

Porém, enquanto dramaturga, sempre acho que ainda há algo que poderia ser cortado, ou levemente reduzido – embora não saiba exatamente dizer o quê. Encontrar essa precisão do tempo ideal de duração na dramaturgia de uma cena, ou mesmo de uma peça completa, me parece uma das buscas mais complexas para quem faz da arte ofício.

Na parte final do solo, me percebi mais próxima de cenas de um “homem comum”, evocando dilemas banais, em certa medida, quando se trata de casais. São camadas de situações mais íntimas entre homens e mulheres, evocando algo que me leva a palpitar que sejam trechos de autoficção.

No fim das contas, Hugo não poupa homem nenhum. A conta não sai barata nem para ele mesmo: a peça termina com uma sentença forte: “eu sou um monstro”, ecoando a problematização pertinente acerca da posição de um homem branco na sociedade, mas também abrindo a possibilidade de diversas outras significações.

Fiquei me perguntando: será que o potencial de monstruosidades não é inerente a todo o ser? E como lidamos com isso, se assumirmos essa possibilidade? O próprio título já aponta caminhos: é a convicção sem autocrítica que nos torna idiotas. Quando se trata de ser humano, parece de bom tom “estar atento e forte”, inclusive no que diz respeito aos nossos próprios comportamentos. 

Agora, isto me soa verídico: raramente os verdadeiros monstros são aqueles que escolhem fazer da arte sua missão de vida. Às vezes, ser freak, ser monstro, ser “anormal” é melhor do que vestir a máscara de uma normalidade abjeta na qual, muitas vezes, se camuflam os mais perversos. 

Fique atento: o espetáculo volta em breve para novas apresentações. Caso já tenha visto, me conta aqui nos comentários também o que achou. 🙂 

Entre “Michael” e “O Convite”, a monogamia em falência

olivia wilde e penelope cruz em o convite

Fotografia: Divulgação do filme “O Convite”, via ingresso.com

A Copa do Mundo vai acabar e a vida vai seguir: torça você para a Argentina ou não. Enquanto isso, o Congresso vai tirar férias sem votar a escala 6X1. Mas vamos ao ponto. Apenas para situar: o texto aqui se propõe a traçar reflexões a partir de dois filmes: “Michael” e “O Convite”, comédia com Olivia Wilde na direção.

Por força das circunstâncias, pude acompanhar ambos recentemente, na Galeria Olido (cineminha a 4 reais no Centro de SP) e no Cine Belas Artes (outra delicinha de cinema na Rua da Consolação).

Michael é um novo longa que narra a trajetória de Michael Jackson desde o início da carreira com os irmãos até sua “emancipação familiar”, marcando a ascensão estratosférica de sua carreira solo, em contraste com os desejos de seu pai (altamente controlador), conforme a perspectiva do longa. 

Já “O Convite” remonta às comédias românticas dos anos 30 – segundo referência da crítica Isabela Boscov -, mas oferece um espelho para debates bastante contemporâneos que se impõem, como o da não-monogamia. Se Michael já tinha um ingrediente chave para operar com gatilhos emocionais no público – as próprias canções do astro – Olivia Wilde (que acho fenomenal desde quando assistia “House”), nos brinda aqui com seu olhar de forma inédita.

[hiato dramático aplausos para Olivia Wilde na direção. sugiro neste instante que você pare de ler esse texto e bata uma salva de palmas para a mulher que está aí ao seu lado, ou pensando na sua mãe, avó, tia. tenho certeza de que em algum momento uma mulher salvou sua vida e deve salvar ainda todos os dias].

CLAP-CLAP-CLAP

Ok, agora seguimos…Michael é aquele tipo de filme nostalgia, de balançar na cadeira e renova a empatia pelo astro envolvido em tantas polêmicas. Enquanto isso, “O Convite” é, literalmente, um convite para rirmos de nós mesmos e da instituição do casamento monogâmico como modelo a ser seguido, algo que a diretora já deixa evidente com a citação de Oscar Wilde no início do longa.

 Vale a reprodução:

“Deveríamos estar sempre apaixonados, por isso nunca deveríamos casar.” 

Com um roteiro delicioso que permite que os atores se divirtam em cena (cada vez mais apaixonada pelo potencial que um elenco pequeno pode ter), Olivia, Penélope Cruz, Edward Northon e Seth Rogen  arrancam risadas fáceis do público. Isso por meio da tensão ocorrida no encontro entre um casal monogâmico e um não-monogâmico, durante um jantar na casa do primeiro.

Impactada pela experiência de ambas as criações, uma síntese que talvez possa soar radical: a monogamia é um modelo em falência. Se os movimentos sociais avançam, se o mundo caminha sempre para frente, apesar de eventuais retrocessos (você que é mal passado e que não vê?), não existe mais espaço para a romantização de proposições familiares que:

  1. restringem a liberdade da mulher e criam padrões impossíveis de beleza e perfeição;
  2. cobram uma performance de homens como se fossem máquinas sexuais;
  3. traumatizam gerações impondo pressões absurdas de sucesso estético e financeiro, reiterando o modelo “família de comercial de margarina”;

Aí talvez você me diga que há ondas conservadoras ainda em ebulição, que é “preciso estar atento e forte” e eu concordarei. Mas a não-monogamia, no sentido Geni Núñez da palavra – partindo de uma perspectiva que diz respeito não somente a relações afetivo-sexuais, mas como postura ética-política-filosófica de viver -, ganha cada vez mais evidência.

Intencionalmente ou não, Olivia Wilde coloca nas telas agora um manifesto audiovisual sobre o tema. É impossível não se contorcer de agonia, mesmo em meio às risadas que as piadas do filme evocam, ao ver o casal interpretado por Wilde e Rogen constantemente se agredindo e, mais ainda, o verdadeiro buraco em que se transformou a autoestima dela naquela relação. Ansiosa, insegura, arfando por qualquer migalha de elogio.

Descentralizar a “estrutura casal”. Dedicar tanto tempo aos amigos quanto você dedica ao parceiro ou parceira sexual. Ganhar seu próprio dinheiro. Viver modelos de família que não se restringem aos laços de sangue. Aí estamos diante de possibilidades de caminhos mais sadios para existir.

Não será sem resistência dos setores mais conservadores da sociedade, I know. Mas a mudança é inevitável. Não por uma questão de opinião, mas porque é da natureza da vida a procura pelo bem-estar, o equilíbrio. Se o modelo monogâmico é uma herança colonial e queremos descolonizar, ecoando Geni, precisamos descolonizar também os afetos.

Isso não quer dizer evitar relações aprofundadas e trocar constantemente de parceira(o) só porque você pode. Muito pelo contrário. Apenas quer dizer que você pode aprofundar a relação com um ou mais parceiros-afetivos sexuais, caso queira, assim como com a sua comunidade de um modo mais amplo e geral. Não-monogamia é sobre liberdade para cultivar relações com cuidado, afeto e diálogo. Incluindo você mesma(o) na equação.

Não-monogamia pode ser sobre ficar sexualmente com mais de uma pessoa, mas não se restringe a isso. Pode ser sobre a escolha de cultivar uma única relação de cunho afetivo-sexual, enquanto fizer bem às pessoas envolvidas, sem fazer dela o centro do universo.

Pode ser também sobre a escolha de ficar sozinha(o). Tem a ver com redimensionar os pesos e medidas com os quais nos relacionamos e o nível de energia dedicado a cada pessoa que passa por nossa vida e com a qual nos vinculamos.

Trata-se de uma liberdade trabalhada e não com uma promessa pronta e padronizada de modelo relacional. Ao invés de pensar o “felizes para sempre”, por que não sintonizar – referenciando uma última vez Geni – a ideia de “felizes por enquanto”?

E você, já viu “O Convite?” Se quiser deixar um comentário sobre o filme ou este texto, fique à vontade!

Entre a Pedagogia da Autonomia de Freire e os fluxos de consciência de Virginia Woolf e Annie Ernaux

Qual a relação que pretendo traçar entre a Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire, os fluxos de consciência de Virginia Woolf em “Mrs. Dalloway” e a autossociobiografia narrada em palavras e fotos de Annie Ernaux em “O Uso da Foto”? Talvez seja mais pertinente iniciar com outra questão…

Quais as possibilidades para um mundo onde crises climáticas e humanitárias (causadas pelos mais ricos) geram consequências (para os mais pobres) e pressionam o rompimento de fronteiras, enquanto poderosas nações (ainda) respondem com omissão e violência? Uma pegunta que me faz refletir sobre como sonhar. É aí que pego o gancho dos livros.

Paulo Freire, Virginia Woolf e Annie Ernaux: questões emancipatórias

A escrita de Paulo Freire, a mim, simboliza em si uma força emancipatória a partir da Educação. Pode parecer abstrato, mas ler sua obra me traz uma espécie de fé em algo. 

Quem sabe, talvez, a própria fé na capacidade de conhecer e criar. Uma educação emancipatória, isto é, não impositiva e doutrinária, possibilita a chance do próprio ser tornar-se consciente de sua incompletude e, portanto, mais tolerante. 

Em outros termos: a Educação é, sim, uma forma de combate à violência. Aí você talvez me pergunte sobre o que isso tem a ver com os livros citados de Virginia Woolf e Annie Ernaux. É que simplesmente não posso deixar de mencionar essas recentes leituras, reveladoras de subjetividades das escritoras e de suas nobres investigações da condição humana.

As formas podem ser diferentes, mas há referências que parecem similares: em “O Uso da Foto”, mais um projeto de literatura autossociobiográfico da vencedora do Prêmio Nobel Annie Ernaux, é possível mergulhar no fluxo de consciência desta mulher durante um relacionamento com o jornalista Marc Marie, co-autor, no mesmo período em que ela recebeu o diagnóstico de câncer de mama.

Precursora, a inglesa Virginia Woolf investiga o universo de sua protagonista no clássico Mrs. Dalloway – ou seja, partindo de uma mulher no centro da escrita assim como Ernaux, modificando apenas o recurso narrativo utilizado: a ficção, no lugar da hoje chamada “autoficção” utilizada pela francesa. Seu texto apresenta reflexões sobre formas de pensar, estruturas sociais e, claro – sempre – a condição da mulher no contexto específico daquela época.

Contatar a subjetividade da outra e do outro é forma de combater violências

Ler mulheres. Indígenas, negras, pardas, trans, brancas. Conhecer. Contatar a subjetividade do outro é também uma forma de empatizar e combater violências. Neste ponto da história da humanidade reforço, uma vez mais, minha ideia de que precisamos muito ter fé. Mas não há mais tempo para uma fé alienante em um salvador. Algo maior, como bem colocou a jornalista Eliane Brum, não nos salvará.

A fé necessária é a fé na ação, justamente, pelo que busco defender neste texto: o direto à subjetividade, à educação, cultura e dignidade humana. A fé que, por fim, exigirá – como sempre exigiu – luta. Pelo direito de sonhar, vale a pena.

Que sigamos nossas lutas com fé e excelentes leituras.

Com meu abraço e até sempre,

Rafa

O que vem depois da pele? O coração é testemunha

Imagem de um boneco vermelho desenhado, aparentemente desconfigurado e na cor vermelha (lembrando o quadro "O Grito"), com a chamada da peça "O que vem depois da pele", do Grupo Satyros Lab.

Fotografia: Cartaz de divulgação da peça “O que vem depois da pele”, do Satyros Lab

O clima de um espetáculo, por vezes, instaura-se já na recepção do público: acolhedora foi a experiência de entrar pela primeira vez no Satyros Bar para acompanhar a performance “O que vem depois da pele”. A fila fluía, as conversas paralelas demonstravam um tom de interesse despretensioso.

Enquanto mulher solo cito, contudo, que na fila fui abordada – e relato o fato aqui, pois farei costura com um tópico da montagem – por um rapaz (ex-ator, em suas palavras) que, por uma série de problemas de saúde, parou de atuar. Comentou minha aparência, contou-me sua história. Em dado momento, porém, disse: “para de me seduzir”. 

Obviamente, diante do ocorrido, fiquei irritada e disse: “não tô te seduzindo. Eu tô te ouvindo, cara!”. Me parece que vivemos em um mundo tão machista e desatento que, no caso citado, uma mulher escutando os problemas de um homem de forma atenciosa é lido como “seduzir”. E, ainda que fosse, que espécie de crime seria esse?

Em certa medida, coincidentemente ou não, a questão está inserida na criação teatral performática do Satyros Lab (que segue em cartaz, às sextas e sábados, às 21h, na Praça Franklin Roosevelt, 214, com ingressos antecipados via Sympla). Por que a mulher é, tantas vezes, condenada a troco de nada? Quem somos nós, perante a Justiça?

Performativo em profusão: Satyros e a Sociedade do Cansaço 

Entrando com mais foco nos méritos da performance, em si, entendo aqui que a criação se trata de um teatro de caráter performativo contemporâneo, ou seja, uma composição que segue a ideia de apresentar pontos de vista sem uma linearidade narrativa pré-definida. Engloba, portanto, diferentes signos, não apenas um único e sequencial.

Bem, em minha percepção, aqui está justamente o triunfo (senti-me representada pela imensa profusão de assuntos conflitantes, ideias e velocidades da vida moderna) da criação, mas também o ponto no qual ela, por vezes, se equivoca. Ao tentar agrupar elementos excessivos, em dado momento a força do que se pretende exprimir se perde.

De modo algum, porém, isso torna a performance completamente indecifrável. Ir pelo caminho da profusão é, sem dúvida, melhor do que deixar o espectador com sensação de vazio, ou mesmo de estar diante uma criação puramente autocentrada que nada tem verdadeiramente a dizer. Pelo contrário: o grupo tem muito a dizer. E quer muito.

A entrega de cada ator e atriz emociona, leva as e os espectadores às lágrimas em diversos momentos. Ao ler, posteriormente, sobre as referências críticas do grupo para a montagem – a exemplo do livro Sociedade do Cansaço, do filósofo Byung-chul Han -, entendi melhor qual é, de fato, a proposta estética-crítica-política do espetáculo.

Mensagens nos detalhes, para além das palavras

Parece-me que o grupo se propõe a questionar: onde fica o coração, o sentimento, diante de uma sociedade consumida pelas telas de celulares – um convite contínuo ao Burnout? Figurino, sonoplastia, cenário e iluminação aqui merecem todos os elogios, uma vez que, no que não cabe no texto, são signos lindamente pensados e executados que ajudam a elucidar a proposta.

Há uma escada em cena, cujo subir e descer é símbolo próprio do movimento da vida e convoca a uma provocação: quem nos tornamos para “subir” na escalada social, neste contexto de vida neoliberal? E há o coração, claro. Literalizado na forma de um “colar” que passa de um performer a outro no decorrer da peça. Imagem forte: entregar o coração.

Recorde-me da letra da música de Marisa Monte: “pra todo mundo a vida é difícil, mas todos fazem seus sacrifícios pra melhorar..”. Sim: em uma era contemporânea, parece-me que os Satyros querem provocar a questão: como nossa subjetividade, nosso “sentir” resistirá aos desafios dos tempos atuais? 

Como suportará nosso coração, tão atento e assustado, à robotização e aos esvaziamento do que é a matéria poética da vida, em detrimento do artificial? Precisaremos estar atentas e atentos para despertar, uns nos outros, uma percepção sensorial, sempre que perdida em meio ao correr da vida.

Sem coletividade, não haverá saída. Sem amor-próprio também não.

Conforme tensionou uma das performers do grupo ao fim do espetáculo: “qual é o peso que nossos corpos carregam?”. Particularmente, gosto muito desse teatro que me coloca perto da respiração e do movimento das pessoas em cena e do cenário Real do fazer teatro. Gosto porque é uma arte que aproxima, tangibiliza, convida a ser mais próximos, não apartados.

A própria Arte, em si, revela aqui seu porquê. Na saída, sorri para uma das performers do espetáculo. Seu olhar me cativou. Saí com a sensação de estar alimentada, mais do que isso, nutrida. E, portanto, (por tanto!), grata. A todes, assim, recomendo esse mergulho visceral em mais uma criação dos Satyros. 

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Entre Maria Schneider e Maya Deren: quem cria as narrativas do mundo?

Atriz e diretora Maya Deren, retrato preto e branco em frente a um vidro

Fotografia: Por Maya Deren (1917–1961) – Foto de Domínio Público, via Wikipedia

A proposta de traçar paralelos entre a trajetória da atriz Maria Schneider e o cinema de Maya Deren me faz questionar: até onde podem ir as consequências de uma violência? O quanto a sociedade ocidental é conivente com as violências – inclusive no meio artístico?

Já explico melhor. Recentemente, tive a oportunidade de acompanhar uma mostra de curtas produzidos pela atriz e cineasta norte-americana Maya Deren, bem como o novo filme “Meu Nome É Maria”, estrelado pela hipnotizante Anamaria Vartolomei (por quem sou apaixonada desde que a vi em “O Acontecimento”, longa baseado no livro de Annie Ernaux que também inspira minhas pesquisas e Ciclos de Estudos).

Desde então, minha mente tem feito circuitos entre a realidade e as experiências vivenciadas. Durante muito tempo, eu, Rafaela, acreditei ingenuamente que o Universo das Artes poderia ser uma “bolha de proteção”, pois pessoas cultas, elegantes e de esquerda não seriam machistas. 

hehehehe.

Esquecia-me de como, na verdade, sendo o machismo algo estrutural, ele permeia tudo, todas as relações, todos os meios. Na verdade, às vezes, o universo da Cultura e das Artes o revela de forma ainda mais abrupta, justamente por ser o lugar onde se esperaria um olhar mais subversivo, divergente, evoluído.

Maria Schneider e os impactos psíquicos da violência

Hoje, #MeToo e outros movimentos já denunciaram abusos na indústria do Audiovisual, confirmando: mesmo nos espaços criativos, culturais, há desrespeitos (micro e macroviolências). O filme sobre a vida da atriz Maria Schneider é uma denúncia em si mesmo.

Nele, o público é apresentado à forma como a atriz foi levada a gravar uma cena de estupro em frente a uma equipe de câmeras e técnicos, sem ser previamente avisada sobre como se desenrolaria a filmagem e sem ensaio prévio. O restante do enredo é desenvolvido em torno das consequências provocadas por essa vivência, incluindo o abuso de substâncias.

O que me leva a outro exemplo prático e vivido na pele, na mostra de curtas de Maya Deren – uma mulher que escreveu e atuou em vários de seus roteiros -, de quem eu nunca tinha ouvido falar (me pergunto o porquê), ocorrida de forma gratuita pelo CCSP. Adivinha o que aconteceu durante a exibição dos trabalhos dela?

Relato aqui: homens saíam da sessão e bocejavam (propositalmente, em minha percepção), em tom extremamente alto. Como quem diz “que coisa mais chata esses filmes de mulher”. Tentei não dar bola, mas aquilo me incomodou. Sobretudo, por se tratar de um trabalho no qual uma mulher, multi-artista, empenhava toda a sua subjetividade.

Qual é o destino das mulheres que criam e (re)criam narrativas?

Maya Deren suicidou-se, infelizmente. Maria, pelo que o filme dá a entender, supera o vício em heroína. No entanto, não sem antes sofrer muito. Qual é o destino das mulheres que ousam criar suas próprias narrativas trabalhando no campo das Artes (ou, ao menos, peitar as narrativas que lhe são impostas?). É uma pergunta que ficou comigo.

Discutir a Cultura e a forma como ela se faz é importante. Desmontar seus estereótipos também. São eles, afinal, que moldam nosso imaginário e o pensamento crítico de milhares de pessoas e espectadores.

Gostou do texto?

Te convido a se inscrever no Ciclo de Estudos “Conversas com Annie Ernaux” – uma série de quatro aulas para debatermos a obra da escritora francesa em eixos-temáticos da contemporaneidade. Início das aulas em maio!

“Vitória”, “Monster” e “Adolescência”: o que a juventude quer nos dizer?

Foto de divulgação do filme "Vitória", cena entre atuantes no corredor; Dona Vitória, com uma sacola verde na mão, conversa com o jovem Marcinho;

Fotografia: Suzanna Tierie/Divulgação, via Jornal Extra

Será que os filmes “Monster”, “Vitória” e a série “Adolescência” têm algo em comum, considerando a questão: o que a juventude quer nos dizer? Vou tentar explicar (a você e a mim mesma).

Talvez um dos papéis mais relevantes da Arte na sociedade seja este: colocar determinados temas em evidência. Assim como aos jornalistas, a partir de uma série de critérios, cabe decidir o que é ou não “notícia”, aos artistas cabe escolher sobre o que falar.

Por exemplo: ao escrever um texto de Dramaturgia, necessito entender SOBRE O QUE falar, PARA QUEM quero falar e a FORMA como quero falar. É neste sentido que procuro agora estabelecer uma relação entre três produções audiovisuais que acompanhei recentemente. O ângulo que escolho é justamente a presença de jovens nelas.

1. Adolescência

Na série “Adolescência”, da Netflix, a proposta da produção é bastante óbvia e já escancarada no título: precisamos falar sobre o universo dos adolescentes na atualidade. O mundo da internet afeta as percepções e as relações das e dos jovens sobre a realidade?

Indiscutivelmente, sim. Os pais de outras gerações compreendem de forma ampla este impacto? Indiscutivelmente, não. Isso pode levar a consequências trágicas.

Aqui no Brasil, reflexo do que acabo de escrever é a proibição por lei do uso de celulares nas escolas da Rede Pública e Privada. Enquanto artista-docente em uma delas, por intermédio do Projeto O Nascer da Poesia, concordo que a proibição é necessária.

No entanto, proibir é também uma forma radical de admitir: não fomos capazes, enquanto sociedade, de lidar com a questão de forma mais organizada. O que, a meu ver, simboliza também uma fragilidade de nosso sistema.

2. Monster

Já “Monster” é uma produção majoritariamente focada nas implicações do ambiente escolar a partir de diferentes perspectivas: a de uma mãe solo, um educador, uma diretora – e, claro, de alunos (dois, em específico).

Uma mensagem que ficou comigo a partir do filme é esta: precisamos acolher os afetos que brotam entre jovens – sem visões maliciosas de adultos. Este é um caminho possível para pensar possibilidades de futuro menos catastróficas.

3. Vitória

Por fim, cito “Vitória”, filme nacional que estreou recentemente com a gigante Fernanda Montenegro. Nele, a crítica central é outra: a problemática dos territórios no Brasil, algo que persiste desde que os primeiros europeus pisaram aqui e que ganha novos e assustadores contornos com a evolução neoliberal.

Aqui, temos como enfoque a milícia. A ditadura que nunca acabou em zonas periféricas tomadas pelo tráfico de drogas. Aquilo que remete às feridas mais profundas da nação (#MariellePresente – sempre).

Sim, entre tudo o que menciono e me parece caber neste texto, acho que talvez a ferida mais sangreta, latente e urgente de estancarmos no Brasil é esta: as vidas jovens perdidas para a droga, o vício, o caminho contrário à Educação e Cultura. Até quando?

Jovens de 13 anos [muitas vezes, negros], viciados em cocaína são seres humanos que denunciam ainda haver algo de muito equivocado nisto a que chamamos de civilização. É preciso repensar nossos modelos.

Naturalmente, neste texto procurei refletir sobre três criações audiovisuais muito distintas em vários aspectos. “Adolescência” é uma série que se passa na Inglaterra, “Monster” tem o Japão como contexto e “Vitória”, conforme citado, é uma produção nacional. 

Todas elas, contudo, nos proporcionam um importante alerta: precisamos dialogar sobre – e com – adolescentes. Parar de estigmatizá-los de forma simplista como “difíceis”. Expressar nosso amor a elas e a eles. As e os adolescentes de hoje (que são também a esperança de algum futuro neste planeta sujeito à deterioração climática acelerada).

E você, já acompanhou a série ou os filmes citados? Quais foram as suas percepções? Fique à vontade para expressar sua opinião nos comentários.

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Com carinho,

Rafa

6 leituras de 2024: dicas para você se inspirar

Fotografia: Kimberly Farmer, via Unsplash

Mais um fim de ano se aproxima e me peguei pensando: quais foram as leituras de 2024 que me fizeram evoluir e posso compartilhar como dicas para você se inspirar? A partir da questão, cresceu o desejo de compartilhar alguns livros que tocaram meu coração neste período. 

Claro que é complexo ser seletiva, mas a proposta aqui é apresentar obras que vão desde a literatura infantil, passando pela poesia e romance, caminhando também ao lado do erotismo.

Agora, sem mais delongas, espie algumas das minhas 6 leituras de 2024 que recomendo a você: 

1. Meu Crespo é de Rainha, de bell hooks

Ao ler bell hooks, descobri que cabelo não é só estética. Diz respeito à identidade e à autopercepção. Sim: a forma como nos relacionamos com ele também é política. E, no que diz respeito às crianças negras, torna-se ainda mais importante enaltecer a beleza dos fios crespos e encaracolados em suas mais distintas formas. 

É isto que, de uma forma simples e poética, bell hooks nos oferece neste livro colorido, fofo e cheio de personalidade, ilustrado por chris raschka. É recomendado para adultos e crianças a partir dos 3 anos (vale muito uma leitura em família!).

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2. Amora, de Natalia Borges Polesso

Amores, amoras, encontros, desencontros, desejos correspondidos ou não. Este livro de Natalia Borges Polesso traz contos que convidam às lágrimas: sejam de tristeza e/ou de alegria. Meu pai, Etílio Tuiscon Kich, costuma dizer que “todas as histórias são histórias de amor”. Gosto desta frase e esta obra, para mim, ilustra um pouco tal percepção.

Os contos da escritora trazem um toque de afago e fuga dos clichês ao passear por histórias que poderiam muito bem ser a de alguém conhecido seu – se não as suas próprias. Não por acaso, a obra já venceu o Prêmio Jabuti e foi traduzida e publicada em vários países. 

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3. Eu Versos Eu, de Paula Taitelbaum

Sou um pouco suspeita ao falar da Paula, por ser uma poeta, editora e escritora que tanto admiro e, inclusive, escreveu um comentário na contracapa do meu livro de poesias mais recentemente lançado, o “Fragmentos: poemas de pandemia”. Mas bem…que posso dizer? Poesia para mim é, entre muitas coisas, sinônimo de brincadeira com palavras.

E é isto que Paula faz neste livro que foi o seu de estreia, apresentando com coragem nuances da alma de uma mulher que sente, pensa, goza e quer muito da vida. Me inspira.

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4. Paula, de Isabel Allende

Não sou mãe (só de pet! hehe), então é complexo imaginar a dor de ver uma filha muito doente. No entanto, esta foi uma situação real da vida da escritora chilena Isabel Allende – e, como é típico das escritoras cujo talento transcende as palavras de seu livro – ela consegue transmitir tal sensação devastadora no livro “Paula”, um de seus maiores clássicos.

A obra não foi planejada, foi mesmo o resultado de uma sugestão da editora de Isabel para que ela atravessasse o difícil período em que esteve com a filha entubada no hospital lidando com a dor a partir das palavras. Ao dialogar e retratar fatos sobre sua infância e sua vida a ela, Allende acaba por rememorar também fatos importantes acerca da história do Chile, como a ditadura de Pinochet, no golpe militar de 1973.

Aqui, há um exemplo nítido do que Conceição Evaristo chama de escrevivência. Um livro para chorar, aprender, crescer e lembrar de valorizar o divino presente que é a saúde. Não por acaso ele consagrou Isabel como uma das maiores escritoras latino-americanas. 

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5. O Relatório Hite: Um Profundo Estudo sobre a Sexualidade Feminina, de Shere Hite

Mulher: você goza? Como goza? Quanto goza? Como gosta? Shere Hite foi uma mulher visionária, a partir de um questionário, ao entrevistar dezenas de mulheres acerca de sua sexualidade – algo que, por vieses religiosos e políticos, ainda hoje para algumas pessoas é tabu.

Neste livro, apresenta perguntas e respostas sinceras sobre temas que permeiam o erotismo e a vida sexual feminina, trazendo à tona temas como orgasmo, masturbação e relacionamentos homo e heterossexuais. 

Sem delongas, recomendo a leitura para todas as irmãs que procuram assumir o prazer em suas vidas com menos culpa e vergonha, mais amor-próprio e cuidado consigo mesmas. 

Compre o livro aqui neste link.

6. Quintais, de Geruza Zelnys

Traumas, abusos, dor, violência. Beleza, êxtase, embalo, fruto. A vida tem disto tudo. É o que nos lembra a escritora Geruza Zelnys nos poemas do livro “Quintais”, obra que fortemente recomendo para quem tem coragem de deixar a poesia entrar visceralmente no corpo.

Como diz a também poeta Matilde Campilho, “a poesia não salva o mundo, mas salva o minuto”. O que Geruza, minha companheira de editora Patuá*, oferece aqui é um respiro, um escape de angústia, uma possibilidade de seguir pelas palavras – como é próprio da poesia. 

Compre o livro aqui neste link.

*Sim, eu também publiquei por esta editora um livro de poemas, chamado “A Parte de Nós Que Canta”. Você pode comprar aqui ou me enviar um e-mail no endereço rafaela.kich@gmail.com para eu te encaminhar uma cópia autografada. Envio para todo Brasil e exterior. 

E você, já leu algum destes livros? Qual foi o que mais gostou? Qual foi a sua leitura mais marcante de 2024? Fique à vontade para me contar aqui nos comentários.

Me despeço com votos de que 2025 nos brinde com amor, saúde, paz, prosperidade e, claro, muitas leituras estimulantes para expandir cada vez mais nossa percepção de mundo. Continue acompanhando os textos do blog nesta nova etapa.

Vamos ter muitas e muitas novidades. 🙂

*ps: os livros contêm meu link de Afiliada da Amazon. Ao comprar através deles, eu recebo uma comissão que ajuda a manter este blog, mas você não paga nada a mais por isso. Muito obrigada!

bell hooks e o amor como a maior prática política

Escritora bell hooks em palestra no ano de 2009.

Fotografia por Cmongirl – Domínio público

Sinto-me no dever de escrever um pouco sobre a última obra em que mergulhei assinada por bell hooks: “A Busca das Mulheres Pelo Amor” (Editora Elefante. 2024). Afinal, se pensar sobre o amor pode até soar piegas, talvez em uma nova era Trumpiana este seja o momento de reconsiderar a questão. 

Desde o início, me fisgou o quanto a explanação de hooks neste livro é próxima da realidade, da Cultura. Exemplifico: no decorrer da leitura, encontrava respostas sobre sentimentos associados às relações que estava vivendo naquele exato momento. (obrigada, bell, você me deu a mão!).

Ou seja: a percepção de hooks, a meu ver, parte de uma perspectiva profundamente espiritual. Mas sem jamais perder a percepção do Real. Em outros termos, a autora nos convida a pensarmos sobre o amor sem jamais deslocá-lo dos desafios impostos pelo racismo, a heteronormatividade e o patriarcado.

Sobretudo, talvez, algumas reflexões que tocaram uma parte muito íntima e verdadeira de mim foram aquelas que salientaram o amor como uma prática política capaz de dissolver as estruturas bélicas, opressivas e violentas da Cultura Ocidental e da vertente neoliberal. 

Afinal, amar não tem a ver com dinheiro. Talvez, em parte pelo aspecto da sobrevivência, pela perspectiva do zelo, até sim. Mas o excesso não garante amor. Amor de verdade demanda muito mais. Apoio. Incentivo. Afeto. 

Amemos, portanto! Esta força, embora não aparente, pode ser mais forte que as armas. É dela que, diante dos desafios – climáticos, sobretudo – precisamos agora mais do que nunca, novamente. 

  • Um fato divertido:

Instigada, parei ao abrir o livro no nome da tradutora: Julia Dantas. Que alegria! Uma autora conterrânea e extremamente talentosa ter tornado possível o acesso às palavras da bell hooks. 🙂 e, graças à 70ª Feira do Livro de Porto Alegre, ainda foi possível receber este autógrafo/presente. Obrigada, Julia, pela acolhida carinhosa. Que nossos caminhos possam se cruzar de novo em breve.

Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo: dor transmutada em poesia (Resenha – Leituras Obrigatórias UFRGS 2024)

Em “Ponciá Vicêncio”, livro que integra a lista de leituras obrigatórias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2024, Conceição Evaristo demonstra que, se é das sensibilidades simples que nascem as mais belas literaturas, não é por acaso seu lugar consagrado entre as maiores autoras deste país.

Nele, conhecemos a história de uma ex-escrava e seus encontros e desencontros consigo mesma e sua família. A obra escancara a dor – nunca redimida pela branquitude – do período da escravidão brasileira, mas com frases de pura poesia que fazem da narrativa de uma história brutal também um exercício de leitura delicada. Há poética apesar da brutalidade, afinal. Também, que se há de fazer diante do absurdo já ocorrido?

Ponciá é herdeira da escravidão e todas as suas violências físicas e psíquicas. Violências que internalizam marcas próprias, somadas àquelas da pobreza, perpetuando-as. Passeando pelo campo da Psicanálise – intencionalmente ou não – Conceição nos permite aqui contemplar em uma personagem os efeitos da profundidade de um trauma.

Vemos, em Ponciá, os efeitos traumáticos de vivências a partir de contextos históricos/culturais (escravidão, submissão) e pessoais (violência doméstica), sempre correlacionados. Nossa personagem, a partir destas agressões conjuntas, “se apaga de si mesma”, contempla vazios, permanece horas em silêncio.

Seu irmão, afastado do campo, na cidade sonha em ser soldado – fardado, forjando, assim, uma identidade que lhe garanta respeito. É ao tecer esta narrativa de tramas que Evaristo nos brinda com “frases-abraço”, como: 

“Com o zelo da arte (…) buscava significar as ausências e mutilações, que também conformam um corpo”;

“A vida era um tempo misturado do antes-agora-depois-e-do-depois-ainda”;

“O amanhã de Ponciá era feito de esquecimento”;

Em “Ponciá Vicêncio”, Conceição Evaristo demonstra que a vida é, de fato, como cantou Vinicius de Moraes, a arte do encontro. Muito embora haja tanto desencontro pela vida.

E tu? Já leste este livro? O que achou da obra? Aproveita para me contar aqui nos comentários. 🙂

A Escrita como Faca: Pulsão, Memória, Erotismo em Annie Ernaux

Foto: Escritora Annie Ernaux - de camiseta azul e anel com pedra azul, fala com microfone e fones de ouvido, em painel de FLIP 2022;

Foto: YouTube/Reprodução

A Escrita como Faca e Outros Textos” (Editora Fósforo, 2023) é uma obra que conduz a leitora e o leitor a reflexões sobre memória, afeto, e, sobretudo, os “porquês” da escrita. 

Em um formato bastante experimental – que mistura trechos de cartas, diários e entrevistas da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, Annie Ernaux, – o livro convoca a pensar a escrita e a leitura enquanto processos e, indissociavelmente, como atos políticos (ainda que apartidários).

Annie Ernaux faz, aqui, um relato sincero acerca da escrita quase como “obsessão”. Como ela se dá, a partir de uma necessidade muito íntima e profunda. Que espaços encontra em seu dia a dia. 

Indo além, generosa como é, Ernaux revela também um pouco dos impulsos que a levam a redigir suas palavras – fios de memória que se costuram, fotos que despertam sentimentos pedindo por elaboração. Uma necessidade, agora parafraseando-a, de dar um sentido ao tempo, às coisas.

Pela escrita, a francesa parece querer fazer com que os acontecimentos não tenham um fim em si mesmos, mas que adquiram significado. Ernaux parece compreender, enfim, que fazer literatura, por meio da sintaxe, do uso das palavras e da escolha dos fatos a retratar é, em si, ato de libertação. E/ou de “vingar sua raça”, para citar termos que ela mesma coloca.

Seja como faca ou gozo/pulsão, intencionalmente ou simplesmente a partir de uma honestidade comovente, o fato é que na escrita de Annie nada é gratuito. Seu tecer das palavras é história, antropologia, psicologia, memória. Arte, em si. Política, portanto.

Recomendo a leitura.