“Um Idiota Convicto”, monólogo de Hugo Possolo, esteve em cartaz no Espaço Parlapatães às 22h dos sábados no mês de agosto. Tive a oportunidade de prestigiar uma sessão da apresentação rica em um tipo de humor que parece cada vez mais raro: aquele que é fruto da revolta social e da autocrítica – e sem perder a graça, claro.
Esbanjando técnica e domínio cênico, Hugo transita por diferentes personagens satíricos e bastante arquetípicos, unidos por um elemento comum: a masculinidade tóxica. São os idiotas convictos, que não suportam lidar com visões de mundo diferentes das suas, adoram xingar na internet e sustentar uma espécie de gozo perverso com seus paus e armas.
A dramaturgia encontra espaço no jogo de corpo, ao ponto de provocar até mesmo risos histéricos na plateia (ao menos na sessão que acompanhei). Um efeito que tensiona, desestabiliza, dialoga com algo contestador. Apenas em alguns momentos, considerando a duração total do espetáculo, senti a atenção dispersar da cena – e pode até ser reflexo da incapacidade de concentração sintomática do espírito do nosso tempo.
Porém, enquanto dramaturga, sempre acho que ainda há algo que poderia ser cortado, ou levemente reduzido – embora não saiba exatamente dizer o quê. Encontrar essa precisão do tempo ideal de duração na dramaturgia de uma cena, ou mesmo de uma peça completa, me parece uma das buscas mais complexas para quem faz da arte ofício.
Na parte final do solo, me percebi mais próxima de cenas de um “homem comum”, evocando dilemas banais, em certa medida, quando se trata de casais. São camadas de situações mais íntimas entre homens e mulheres, evocando algo que me leva a palpitar que sejam trechos de autoficção.
No fim das contas, Hugo não poupa homem nenhum. A conta não sai barata nem para ele mesmo: a peça termina com uma sentença forte: “eu sou um monstro”, ecoando a problematização pertinente acerca da posição de um homem branco na sociedade, mas também abrindo a possibilidade de diversas outras significações.
Fiquei me perguntando: será que o potencial de monstruosidades não é inerente a todo o ser? E como lidamos com isso, se assumirmos essa possibilidade? O próprio título já aponta caminhos: é a convicção sem autocrítica que nos torna idiotas. Quando se trata de ser humano, parece de bom tom “estar atento e forte”, inclusive no que diz respeito aos nossos próprios comportamentos.
Agora, isto me soa verídico: raramente os verdadeiros monstros são aqueles que escolhem fazer da arte sua missão de vida. Às vezes, ser freak, ser monstro, ser “anormal” é melhor do que vestir a máscara de uma normalidade abjeta na qual, muitas vezes, se camuflam os mais perversos.
Fique atento: o espetáculo volta em breve para novas apresentações. Caso já tenha visto, me conta aqui nos comentários também o que achou. 🙂

