Entre a Pedagogia da Autonomia de Freire e os fluxos de consciência de Virginia Woolf e Annie Ernaux

Qual a relação que pretendo traçar entre a Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire, os fluxos de consciência de Virginia Woolf em “Mrs. Dalloway” e a autossociobiografia narrada em palavras e fotos de Annie Ernaux em “O Uso da Foto”? Talvez seja mais pertinente iniciar com outra questão…

Quais as possibilidades para um mundo onde crises climáticas e humanitárias (causadas pelos mais ricos) geram consequências (para os mais pobres) e pressionam o rompimento de fronteiras, enquanto poderosas nações (ainda) respondem com omissão e violência? Uma pegunta que me faz refletir sobre como sonhar. É aí que pego o gancho dos livros.

Paulo Freire, Virginia Woolf e Annie Ernaux: questões emancipatórias

A escrita de Paulo Freire, a mim, simboliza em si uma força emancipatória a partir da Educação. Pode parecer abstrato, mas ler sua obra me traz uma espécie de fé em algo. 

Quem sabe, talvez, a própria fé na capacidade de conhecer e criar. Uma educação emancipatória, isto é, não impositiva e doutrinária, possibilita a chance do próprio ser tornar-se consciente de sua incompletude e, portanto, mais tolerante. 

Em outros termos: a Educação é, sim, uma forma de combate à violência. Aí você talvez me pergunte sobre o que isso tem a ver com os livros citados de Virginia Woolf e Annie Ernaux. É que simplesmente não posso deixar de mencionar essas recentes leituras, reveladoras de subjetividades das escritoras e de suas nobres investigações da condição humana.

As formas podem ser diferentes, mas há referências que parecem similares: em “O Uso da Foto”, mais um projeto de literatura autossociobiográfico da vencedora do Prêmio Nobel Annie Ernaux, é possível mergulhar no fluxo de consciência desta mulher durante um relacionamento com o jornalista Marc Marie, co-autor, no mesmo período em que ela recebeu o diagnóstico de câncer de mama.

Precursora, a inglesa Virginia Woolf investiga o universo de sua protagonista no clássico Mrs. Dalloway – ou seja, partindo de uma mulher no centro da escrita assim como Ernaux, modificando apenas o recurso narrativo utilizado: a ficção, no lugar da hoje chamada “autoficção” utilizada pela francesa. Seu texto apresenta reflexões sobre formas de pensar, estruturas sociais e, claro – sempre – a condição da mulher no contexto específico daquela época.

Contatar a subjetividade da outra e do outro é forma de combater violências

Ler mulheres. Indígenas, negras, pardas, trans, brancas. Conhecer. Contatar a subjetividade do outro é também uma forma de empatizar e combater violências. Neste ponto da história da humanidade reforço, uma vez mais, minha ideia de que precisamos muito ter fé. Mas não há mais tempo para uma fé alienante em um salvador. Algo maior, como bem colocou a jornalista Eliane Brum, não nos salvará.

A fé necessária é a fé na ação, justamente, pelo que busco defender neste texto: o direto à subjetividade, à educação, cultura e dignidade humana. A fé que, por fim, exigirá – como sempre exigiu – luta. Pelo direito de sonhar, vale a pena.

Que sigamos nossas lutas com fé e excelentes leituras.

Com meu abraço e até sempre,

Rafa

Manifesto ao amor

Manifesto ao amor - fotografia de acervo da Bienal de São Paulo

Imagem do acervo da 36ª Bienal de São Paulo, com entrada aberta e gratuita até janeiro de 2026, no Pavilhão Ciccillo Matarazzo (Portão 3) do Parque Ibirapuera;

Desperto com uma necessidade inadiável de escrever. Não sei se serei somente eu a ler isso, ou se encontrarei outros rostos a partir de minhas palavras. É que ontem foi um dia aparentemente comum. Só que não era. Ontem, algo neste país mudou.

Estudei pela manhã e trabalhei à tarde. Fui ao cinema com M. ver o filme do Cazuza. Depois, passamos em frente ao Copan. Nas manchetes da televisão: “Jair Bolsonaro em julgamento no STF”. Fomos até o Sesc 24 de maio. Dançamos no mirante, sob as luzes da melhor cidade da América do Sul. 

Voltamos para casa. Comemos sanduíches de queijo e mortadela. Vimos um pouco do Sarau Elétrico do Luis Fernando Veríssimo para matar a saudade de onde viemos, poetas do sul que somos. Gozamos de lindas formas. Tudo enquanto os golpistas do 8 de janeiro estavam no banco de réus. 

Desperto hoje com a dor no dedo mindinho do pé, onde ontem por nervosismo arranquei um naco de unha. Agora, há um machucado que precisa cicatrizar. Assim como o Brasil, lentamente, começa a cuidar de uma ferida…histórica. Começamos a aprender, coletivamente, que existem limites. Que não se pode ferir o outro com impunidade.

Começamos a entender, coletivamente, que o amor é um princípio ético essencial a qualquer projeto de nação (seria ainda muito utópica a ideia de uma reestruturação deste próprio conceito, considerando o que acontece no mundo?). Como a cada novo dia, impossível saber o que vai vir em seguida.

Rogo para que curemos, coletivamente, as feridas deixadas por conta da lógica ditatorial que deturpou nossa educação e mentalidade política por tanto tempo. Que esta nova era seja de mais igualdade, fraternidade, possibilidade. Entoo um canto para que amadureçamos juntas, juntos, juntes.

Com meu afeto,

Rafaela Dilly Kich

São Paulo, setembro 2025.

Uma imagem…

menino tomando sorvete no centro de SP, Brasil

Um menino de seis anos caminha sozinho em direção ao Edifício Copan tomando sorvete. Ele se distrai e o doce cai no chão. Começa a chorar. 

Chega um policial para investigar a situação. A autoridade questiona onde está a mãe do menino, mas a criança não responde. 

O pequeno se agacha no chão e começa a esfregar a gosma do sorvete na roupa do policial. Ele começa a ameaçar a criança.

Subitamente, o menino passa a gargalhar, mas o PM começa a chutá-lo. Então, alguns transeuntes passam a intervir e tentam resgatar a criança do Policial, mas é tarde demais.

O Policial saca a arma do bolso e atira no menino que, aos olhos de poucos, cai no chão em plena tarde de segunda-feira. 

* Exercício de escrita ficcional realizado na aula de Dramaturgia da SP Escola de Teatro, sob orientação da Professora Doutora Marici Salomão.

Imagem gerada com IA do Canva.

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Educar é uma tentativa e ideais elevados aumentam nossas possibilidades

imagem mostra o músico Maurício Colina tocando canções junto às e os estudantes da EMEB Arnaldo Grin. A jornalista e escritora Rafaela Dilly Kich aparece à direita, também acompanhando as canções;

Fotografia do Diretor Fernando Bertuzzi.

Está chegando ao fim a realização de meu Projeto “O Nascer da Poesia: pequenos poemas, grandes ideias”, na Escola Municipal de Ensino Básico Arnaldo Grin, em Novo Hamburgo, com financiamento do Programa RS Seguro COMunidade. Edital para artistas que queiram inscrever novos projetos está aberto, pelo site da Sedac.

Mostra com exposição de trabalhos encerra na tarde do dia 24 de julho

As primeiras atividades de encerramento envolveram momentos para contemplar alunos no contraturno para a finalização dos cartazes/quadros poéticos (criações artísticas com recortes visuais, desenhos e poemas), inicialmente elaborados durante minha presença na disciplina de Artes.

O momento foi rico, mais intimista do que as vivências anteriores nas turmas com maior número de alunos. Percebi um maior rendimento nos trabalhos manuais. Cada vivência, no entanto, é singular. Nos meses anteriores, as dinâmicas propostas com turmas de 7º, 8º e 9º ano buscaram ampliar noções sobre o que é poesia. Nas aulas de Educação Física, por exemplo, houve jogos teatrais e prática de Yoga (agradando a maioria).

Reitero que as práticas animaram o corpo discente e docente da Escola não apenas por observação empírica, mas por ter lido o relatório de avaliação do projeto que propus às estudantes e aos estudantes. A finalização oficial da atividade aconteceu no dia 18 de julho, nas salas de aula, seguida da abertura da exposição dos trabalhos na Biblioteca Mário de Andrade, nos intervalos da manhã e da tarde.

Além da mostra dos trabalhos (que segue até amanhã, dia 24 de julho, no intervalo da manhã), a abertura teve um Sarau de Poesias – com alun@s lendo poemas – e participação do músico graduando da UFPEL Maurício Colina. Ele tocou um repertório de Música Popular Brasileira e passou nas salas para conversar com as e os jovens sobre sua trajetória enquanto estudante da Rede Pública, desde o Ensino Básico até a Universidade.

No dia 24 de julho, amanhã, recolherei os materiais da Exposição e será considerado oficialmente encerrado o Projeto. Aqui, permito-me um momento para pensar e refletir: como estou me sentindo? Sinto-me cansada e ansiando por descanso. Foi bastante desafiador, no último semestre, equilibrar estudos e a condução deste e outros projetos.

Além disso, minhas expectativas quando idealizo uma iniciativa são sempre as mais altas. Acho que isso é positivo. Eleva as possibilidades para mim e quem me cerca. Mas há a expectativa e a realidade. O que podemos fazer dentro do que é possível e humano. 

Educar é uma tentativa. Exercer a docência é questionar-se o tempo todo: será que fiz o melhor que podia pelas alunas e alunos? Como posso fazer mais?

Assim, fazemos. Um dia após o outro. Buscando uma versão melhor de nós mesmos e de nossos estudantes. Aceitando, também, algumas impossibilidades. E, claro, mantendo uma postura intransigente diante daquilo que não pode ser aceito: a violência como normalidade.

Agora, permita-me falar um pouco mais, justamente, sobre essa realidade.

Violência e suas diferentes nuances

A série “Adolescência”, uma das principais produções em recorde de exibições pela Netflix neste ano, colocou em evidência a necessidade de um novo olhar para a juventude. Quando iniciei o projeto, já havia pesquisado sobre dados estatísticos alarmantes. 

Exemplos: total de ataques armados em escolas no Brasil, somado entre 2022 e 2023, já superou o registro dos 20 anos anteriores a nível nacional, apontam dados da Assembleia Legislativa do Estado do Piauí.

Conforme Informe Epidemiológico sobre Suicídio e Lesões Autoprovocadas do RS, publicado em 2023, os últimos anos registraram também considerável aumento no número de suicídios e autolesões entre jovens de 15 e 19 anos.

Adolescentes vivem hoje uma cultura que pode ser bastante opressiva. Seja pela estrutura neoliberal e, no caso da Rede Pública, muitas vezes também pela precariedade estrutural. Tudo se reflete em um aumento da violência. Acredito que, com meu projeto, plantei algumas sementes. Mas é preciso muito, muito mais.

Só há possibilidade de uma sociedade pacífica com Educação e Cultura

Quem realmente cuida diariamente das e dos jovens na sociedade são, justamente, as e os professores, coordenadores, diretores. Elas e eles estão “nas trincheiras”, assumindo funções tão vitais, quanto assustadoras em determinados momentos. Quem cuida de quem cuida? Há professoras e professores precisando fazer dois, três turnos por dia.

A desmoralização de profissionais da Educação por meio de salários precários é algo que precisa nos indignar como cidadãs e cidadãos. Essa é uma das formas mais brutais de manutenção da ignorância humana, de modo que formar pessoas aptas à individuação, ao pensamento crítico racional fica em segundo plano.

O reflexo do que acabei de afirmar aparece em problemas de toda a ordem: da violência urbana à superlotação de equipamentos públicos de saúde. Não há possibilidade de uma sociedade pacífica sem acesso à Cultura e Educação. 

A Escola precisa de Professores. A Escola precisa de Artistas.

E, sobretudo, de ideais elevados. Sempre. Como senti desde o primeiro instante na Escola Municipal de Ensino Básico Arnaldo Grin, que agora deixa lembrança no meu coração e o desejo de, quem sabe, um dia retornar. 

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Com amor,

Rafa

Ensinar poesia: entre escritas de Audre Lorde e experiência prática pessoal

Audre_Lorde,_Meridel_Lesueur,_Adrienne_Rich_1980. Por K. Kendall - originally posted to Flickr as Audre Lorde, Meridel Lesueur, Adrienne Rich 1980, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=8104615

Na fotografia, da esquerda para a direita, Audre Lorde, Meridel Le Sueur e Adrienne Rich, em uma oficina de escrita em Austin, Texas, 1980. Créditos: K. Kendall

O que dizer sobre ensinar poesia?

A poeta Audre Lorde escreveu o seguinte: 

“Então, ensinar poesia é ensinar a reconhecer o sentimento, é ensinar sobrevivência (…) o papel do poeta enquanto professor é encorajar a intimidade e a investigação. Assim, os medos que nos governam e formam nossos silêncios perdem poder sobre nós” – no artigo “A Poesia faz alguma coisa acontecer”, livro “Sou sua irmã” (Editora Ubu, 2020, p. 107)

Conforme me aproximo da Fase 3 da Execução do Projeto “O Nascer da Poesia”, na EMEB Arnaldo Grin, acredito intensamente que a docência é uma das práticas humanas que mais exige dinamismo. Ela demanda intenso planejamento e, ao mesmo tempo, desprendimento para fluir junto do movimento de um grupo de estudantes.

Acho que cabe dizer do quanto acho complexo nosso formato de ensino que ainda parte da dinâmica de uma pessoa dando aula para mais de 20 em uma sala de aula. Não vejo como ela pode ser plenamente proveitosa para todes, no sentido de que a capacidade de atenção à individualidade de cada estudante fica muito reduzida.

Contudo, considerando tal fato e a realidade do Brasil, no decorrer do projeto venho pensando em como extrair potencialidades a partir dos modelos estruturais do sistema educacional no país. Aí entra a função artista-docente: precisamos buscar formas de tornar aulas mais dinâmicas, integrativas, interessantes, em essência.

Poesia é também corpo e educar é exercício mútuo

Declamar poemas utilizando recursos oriundos das teatralidades (gestos corporais, mudanças nas nuances de voz, alterações de luz) em sala de aula tem se mostrado um recurso extremamente potente e que altera a dinâmica comum, engajando a maior parte das e dos estudantes.

Ademais, acho interessante citar que, quando propus aos alunos que trouxessem poemas de autores que começavam com a mesma letra de seus próprios nomes, entendi algo que ressoa com as teorias de Lorde e, arrisco dizer, com as de pensadores como Paulo Freire: educar é um exercício de compartilhamento mútuo de saberes. 

Em outros termos: não é porque estou ali na condição de professora que não tenho nada a aprender. Pelo contrário. Eu mesma conheci e revisitei poetas a partir das pesquisas dos alunos. As escritoras Isadora Duncan e Jacinta Passos são exemplos. 

Alguns alunos e alunas, mais tímidos, pediram para que eu interpretasse os poemas trazidos por eles. Aos mais corajosos, estimulei que lessem as palavras, sentindo-as, da forma que quisessem. Acho que a eles, a vivência foi igualmente bonita.

Penso que a experiência nos conectou, pois eu também me coloquei vulnerável, mostrando que a poesia, a literatura são lugares que nos permitem, sim, errar trechos em uma primeira leitura, tentar novamente, praticar, evoluir…este é, a priori, seu propósito. Permitir, sobretudo, que expressemos o que nos atravessa.

Alterar o espaço: a dinâmica da música ao vivo no intervalo

Nos intervalos das aulas do último encontro, convidei o artista Maurício Colina a entoar canções de Cazuza, The Beatles e outros compositores/grupos que transformaram também suas letras poéticas em músicas. A ideia central do Projeto também é esta: ampliar noções acerca do que se entende por poesia e (re)pensar de que formas distintas podemos ser tocadas e tocados por elas.

Mostrar referências é, acredito, uma das melhores “sementes” que podemos deixar a jovens estudantes. É o que tenho tido a oportunidade de vivenciar, na minha própria condição de estudante de Dramaturgia na SP Escola de Teatro, em espetáculos recentes.

Um dos exemplos é “Tão Carne Quanto Pedra”, do Balé da Cidade de São Paulo. Ali nem mesmo palavra se faz, mas a poética se traduz na coreografia e composição dos corpos e movimentos. Ou na apresentação cênica do Grupo Satyros, chamada “Peça para salvar o mundo”, na qual Inteligência Artificial e questões humanas profundamente filosóficas coexistem.

Cito, ainda, a referência dos espetáculos do Grupo Lume (que recentemente completou 40 anos de atuação), nos quais provocações de opressão também podem ser abordadas a partir de experiências de humor e palhaçaria, provocando risadas. Como educadores podem fruir dessas linguagens e adaptá-las para sala de aula, de modo a tornar a poética atraente, presente e estimulante para os jovens?

É uma questão relevante de se pensar na tentativa de responder com a prática. Se você tiver contribuições neste sentido, fique à vontade para comentar.

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Com amor,

Rafa

“Eu sou bonita. (Ou: uma resposta a Angélica Liddell)”

Imagem em preto e branco, na qual Angélica Liddell interpreta La Falsa Suicida, com um boneco de pano atado a seu corpo e dois cartazes na mão.

Um texto de 19 de abril de 2025.

Foto: Angélica Liddell, interpretando La Falsa Suicida, por Atrabilis. Imagem de Domínio Público, via Wikipedia.

Angélica,

Li recentemente seu texto dramatúrgico chamado “Eu não sou bonita”.

Fiquei pensando: para uma mulher, na cultura Ocidental, é melhor ser bonita ou feia?

“Bonita” – se aqui entendo o adjetivo como “dentro dos padrões de beleza”, parece trazer mais oportunidades.

As supermodelos são bonitas.

E, ao mesmo tempo, quando as fotos delas no Instagram, me surge uma estranha sensação ao observar aqueles corpos com tantas costelas e ossos aparentes.

Como se dissessem, de alguma forma:

“ser bonita é a greve de fome do século”.

[mas, mais uma vez, nem tudo são ônus: elas provavelmente são milionárias]. 

Eu não sou milionária. Eu me preocupo com o aluguel.

Mas eu tenho 30 anos. Não tenho filhos. E também sou bonita.

Acho.

Na verdade, nem sempre me acho bonita.

Mas me dedico para ser. Em certa medida, acho que funciona.

Acho que funciona porque não há praticamente um dia sem que eu saia na rua sem escutar comentários sobre a minha aparência.

Homens me veem e dizem coisas como “que coisa mais linda. Mas que mulher bonita”.

Não vou mentir. Gosto de me sentir atraente.

Mas, claro, fecho a cara sempre e sigo em frente, sempre.

Eu tenho medo. Eu tenho medo.

Não sei se “ser bonita” foi ou é pior ou melhor para mim, pensando neste lugar de mulher.

Você tinha 9 anos quando alguém enfiou a mão em você sem pedir autorização, Angélica. [eu sinto muito]. 

Comigo acho que foi lá pelos 15, 16. Veja que, nos consideremos bonitas ou não, essa narrativa se repete.

Ontem, sábado do feriado de Páscoa, houve mais de 6 feminicídios no Estado do Rio Grande do Sul. Seis assassinatos em menos de 24 horas.

Em São Paulo, a jovem Bruna Oliveira da Silva, estudante de Pós-Graduação da USP, foi encontrada morta em um estacionamento com as roupas rasgadas, indícios de que fora violentada.

No domingo de Páscoa, a maioria das pessoas está preocupada com a ressurreição de Cristo.

Eu estou preocupada com as jovens e as mulheres.

Quem ou o que poderia ressuscitá-las? Essas vidas tão covardemente encurtadas?

Tento, ao menos, mantê-las vivas em memória por meio destas palavras.

Eu escrevo. Eu escrevo.

E se Cristo fosse mulher? Cristo é mulher? Bonita ou feia, como nós?

Há um ponto da vida, como você coloca, em que se torna difícil amar aos homens quando testemunhamos seus atos.

Sinto raiva de todos. Todos. Sem exceção.

E, ainda assim, busco amá-los e compreendê-los.

Tudo é tão complexo que talvez a única saída para nossa sanidade seja mesmo uma espécie de Síndrome de Estocolmo.

Amar nossos agressores.

Soa bem Crístico, não?

Somos todas, de algum modo, crucificadas de braços abertos todos os dias.

Escreveu a cantora Zélia Duncan:

“Como é perigoso nascer mulher…”

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“Vitória”, “Monster” e “Adolescência”: o que a juventude quer nos dizer?

Foto de divulgação do filme "Vitória", cena entre atuantes no corredor; Dona Vitória, com uma sacola verde na mão, conversa com o jovem Marcinho;

Fotografia: Suzanna Tierie/Divulgação, via Jornal Extra

Será que os filmes “Monster”, “Vitória” e a série “Adolescência” têm algo em comum, considerando a questão: o que a juventude quer nos dizer? Vou tentar explicar (a você e a mim mesma).

Talvez um dos papéis mais relevantes da Arte na sociedade seja este: colocar determinados temas em evidência. Assim como aos jornalistas, a partir de uma série de critérios, cabe decidir o que é ou não “notícia”, aos artistas cabe escolher sobre o que falar.

Por exemplo: ao escrever um texto de Dramaturgia, necessito entender SOBRE O QUE falar, PARA QUEM quero falar e a FORMA como quero falar. É neste sentido que procuro agora estabelecer uma relação entre três produções audiovisuais que acompanhei recentemente. O ângulo que escolho é justamente a presença de jovens nelas.

1. Adolescência

Na série “Adolescência”, da Netflix, a proposta da produção é bastante óbvia e já escancarada no título: precisamos falar sobre o universo dos adolescentes na atualidade. O mundo da internet afeta as percepções e as relações das e dos jovens sobre a realidade?

Indiscutivelmente, sim. Os pais de outras gerações compreendem de forma ampla este impacto? Indiscutivelmente, não. Isso pode levar a consequências trágicas.

Aqui no Brasil, reflexo do que acabo de escrever é a proibição por lei do uso de celulares nas escolas da Rede Pública e Privada. Enquanto artista-docente em uma delas, por intermédio do Projeto O Nascer da Poesia, concordo que a proibição é necessária.

No entanto, proibir é também uma forma radical de admitir: não fomos capazes, enquanto sociedade, de lidar com a questão de forma mais organizada. O que, a meu ver, simboliza também uma fragilidade de nosso sistema.

2. Monster

Já “Monster” é uma produção majoritariamente focada nas implicações do ambiente escolar a partir de diferentes perspectivas: a de uma mãe solo, um educador, uma diretora – e, claro, de alunos (dois, em específico).

Uma mensagem que ficou comigo a partir do filme é esta: precisamos acolher os afetos que brotam entre jovens – sem visões maliciosas de adultos. Este é um caminho possível para pensar possibilidades de futuro menos catastróficas.

3. Vitória

Por fim, cito “Vitória”, filme nacional que estreou recentemente com a gigante Fernanda Montenegro. Nele, a crítica central é outra: a problemática dos territórios no Brasil, algo que persiste desde que os primeiros europeus pisaram aqui e que ganha novos e assustadores contornos com a evolução neoliberal.

Aqui, temos como enfoque a milícia. A ditadura que nunca acabou em zonas periféricas tomadas pelo tráfico de drogas. Aquilo que remete às feridas mais profundas da nação (#MariellePresente – sempre).

Sim, entre tudo o que menciono e me parece caber neste texto, acho que talvez a ferida mais sangreta, latente e urgente de estancarmos no Brasil é esta: as vidas jovens perdidas para a droga, o vício, o caminho contrário à Educação e Cultura. Até quando?

Jovens de 13 anos [muitas vezes, negros], viciados em cocaína são seres humanos que denunciam ainda haver algo de muito equivocado nisto a que chamamos de civilização. É preciso repensar nossos modelos.

Naturalmente, neste texto procurei refletir sobre três criações audiovisuais muito distintas em vários aspectos. “Adolescência” é uma série que se passa na Inglaterra, “Monster” tem o Japão como contexto e “Vitória”, conforme citado, é uma produção nacional. 

Todas elas, contudo, nos proporcionam um importante alerta: precisamos dialogar sobre – e com – adolescentes. Parar de estigmatizá-los de forma simplista como “difíceis”. Expressar nosso amor a elas e a eles. As e os adolescentes de hoje (que são também a esperança de algum futuro neste planeta sujeito à deterioração climática acelerada).

E você, já acompanhou a série ou os filmes citados? Quais foram as suas percepções? Fique à vontade para expressar sua opinião nos comentários.

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Com carinho,

Rafa

ORA-PRO-NÓBIS – Manifesto 2025

fundo branco com pratos coloridos decorados, em tons de branco e dourado e desenhos de linhas finas - semelhantes a mandalas

Texto: Rafaela Dilly Kich e Foto: Raul Cacho Oses, via Unsplash

Quem sou eu? Quem são vocês?

Se vocês também escrevem e algum dia se interessaram por sua anatomia vaginal – simbólica ou literalmente – lhes dedico estas palavras. Companheiras: somos hortaliças não convencionais. Mas já não somos como na chegada, caladas, preparando o jantar. 

Virginia Woolf questionou, em 1929: por que aos universitários identificados como sexo masculino é servido peixe dentro das universidades e nós, pessoas-mulheres, temos que nos contentar com ameixas? O que nossos cérebros criam com ameixas?

Claro, não estamos na Inglaterra. Nem – ufa! – nos Estados Unidos, onde Trump implementa uma ideologia política originária de um pensamento de 1919. Mil novecentos e dezenove. Isto segundo matéria do Estadão: em tempos de pós-verdade é sempre bom citar a fonte.

Buenas, 1919 é antes ainda do manifesto de Virginia. Virginia, Virginia, Virginia, fluxo de consciência, meu pensamento. Ah, sim. Aqui no Brasil. Comendo ameixas a gente até fica bonitinha, tipo capa da Caras ou Glamour. Mas a gente não pode sentar apáticas e cadavéricas e simplesmente esperar uma mudança, concorda?

Mulheres querem banana, feijão, “um teto todo seu” e dignidade para escrever. Este grito já vem desde Carolina Maria de Jesus. Infelizmente, ainda somos, companheiras, a carne pobre, o sexo da pobreza – em maior ou menor grau, por vezes, a depender de algo superficial, mas com implicações sociais profundas: a cor da pele.

Ora-pro-nóbis. 

No Brasil, menos de 30% dos livros publicados são de autoria de pessoas identificadas como mulheres, segundo o Instituto Pró-Livro e 97% dos autores publicados são brancos. Veja bem o paradoxo: de acordo com o levantamento, 59% do público leitor brasileiro é formado por mulheres. Ou seja, as mulheres leem mais e escrevem menos. 

Questiono: devido às triplas jornadas? Por falta de confiança e autoestima? Insegurança financeira? Rezar e esperar são aprendizados importantes como parte do caminho, mas não bastam. Especialmente em um contexto de apocalipse climático iminente, como nos alerta a escritora Eliane Brum

Pessoas identificadas como homens no poder vão destruir o mundo. 

Nem sempre as circunstâncias tornam a escrita fácil para nós. Escrever o que acabei de escrever não foi fácil. Dizê-lo é quase impossível.

No entanto, é justamente por haver coisas que não podemos compartilhar com ninguém por meio da fala que é preciso escrever. Todos os dias. Parafraseando Ernaux: escrever para que as coisas encontrem um termo, não sejam apenas vividas.

É preciso escrever para que sejamos também corpo-escrita – e inscritas na história. Escrevamos, portanto, pelas desigualdades enfrentadas pelo nosso sexo e, como diria Lispector, “apesar de”. 

*Exercício de texto criado a partir da música Ora-Pro-Nóbis, disco Tropicália ou Panis et Circenses. Proposta apresentada pela Dramaturga Amanda Carneiro, na turma de Dramaturgia – Módulo Azul, na linha de estudo de Dramaturgia da Escola SP de Teatro.

“O Nascer da Poesia: pequenos poemas, grandes ideias”

Pessoa segurando na mão um livro de poemas.

“Nada conterá a primavera” – Francisco, el Hombre

Foto de Valentin Salja, na Unsplash

É possível combater violência com poesia? Acredito que sim. Mas não se pensarmos nesta estritamente em um sentido lírico, métrico. Aqui, referencio a possibilidade da poesia em perspectiva mais ampla. A poesia que acolhe nossa vida por meio das canções, da Natureza e das relações diárias tocadas pelo afeto. 

Escrevo este texto, justamente, porque desejo compartilhar uma nova iniciativa no ano de 2025: o início do meu projeto “O Nascer da Poesia: pequenos poemas, grandes ideias”, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Arnaldo Grin, viabilizada por intermédio de financiamento do Estado do Rio Grande do Sul e apoio do Programa RS Seguro COMunidade.

A ideia surgiu a partir de uma lembrança do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. A proposta é, precisamente, trabalhar distintos aspectos da poesia em sala de aula, com estudantes dos Anos Finais, em uma escola pública fortemente afetada pelas enchentes de maio de 2024. Sua implementação se justifica, justamente, pelo objetivo de fortalecer a autoestima do público discente e combater a violência.

A violência só gera mais violência. Prova disto é o aumento no número de suicídios entre jovens e o número crescente de ataques com armas de fogo em escolas em anos recentes, como é possível encontrar facilmente comprovação estatística baseada em dados oficiais através de uma rápida pesquisa no Google.

Como acredito, a poesia é o que poderá nos salvar dos afogamentos em um contexto de sociedade violenta e marcada por diferentes camadas de opressão. “Educar para a poesia” é também uma maneira de combater uma lógica armamentista de solução de conflitos baseada em violência. 

A poesia é uma esperança. Mas não uma esperança que nos coloca em estado de alienação e apatia, como nos alerta sabiamente a escritora e jornalista Eliane Brum neste artigo, originalmente escrito para o jornal El País. 

O propósito deste projeto é tornar a poesia tangível, sensibilizar o olhar das e dos jovens para percebê-la e iluminar em seus corações a perspectiva de que, a partir de seus sentimentos e suas ideias, também podem criá-la. 

Por isso, te convido a acompanhar aqui no blog mais dos bastidores deste projeto que estou super contente em iniciar agora.

Com amor,

Rafa

6 leituras de 2024: dicas para você se inspirar

Fotografia: Kimberly Farmer, via Unsplash

Mais um fim de ano se aproxima e me peguei pensando: quais foram as leituras de 2024 que me fizeram evoluir e posso compartilhar como dicas para você se inspirar? A partir da questão, cresceu o desejo de compartilhar alguns livros que tocaram meu coração neste período. 

Claro que é complexo ser seletiva, mas a proposta aqui é apresentar obras que vão desde a literatura infantil, passando pela poesia e romance, caminhando também ao lado do erotismo.

Agora, sem mais delongas, espie algumas das minhas 6 leituras de 2024 que recomendo a você: 

1. Meu Crespo é de Rainha, de bell hooks

Ao ler bell hooks, descobri que cabelo não é só estética. Diz respeito à identidade e à autopercepção. Sim: a forma como nos relacionamos com ele também é política. E, no que diz respeito às crianças negras, torna-se ainda mais importante enaltecer a beleza dos fios crespos e encaracolados em suas mais distintas formas. 

É isto que, de uma forma simples e poética, bell hooks nos oferece neste livro colorido, fofo e cheio de personalidade, ilustrado por chris raschka. É recomendado para adultos e crianças a partir dos 3 anos (vale muito uma leitura em família!).

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2. Amora, de Natalia Borges Polesso

Amores, amoras, encontros, desencontros, desejos correspondidos ou não. Este livro de Natalia Borges Polesso traz contos que convidam às lágrimas: sejam de tristeza e/ou de alegria. Meu pai, Etílio Tuiscon Kich, costuma dizer que “todas as histórias são histórias de amor”. Gosto desta frase e esta obra, para mim, ilustra um pouco tal percepção.

Os contos da escritora trazem um toque de afago e fuga dos clichês ao passear por histórias que poderiam muito bem ser a de alguém conhecido seu – se não as suas próprias. Não por acaso, a obra já venceu o Prêmio Jabuti e foi traduzida e publicada em vários países. 

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3. Eu Versos Eu, de Paula Taitelbaum

Sou um pouco suspeita ao falar da Paula, por ser uma poeta, editora e escritora que tanto admiro e, inclusive, escreveu um comentário na contracapa do meu livro de poesias mais recentemente lançado, o “Fragmentos: poemas de pandemia”. Mas bem…que posso dizer? Poesia para mim é, entre muitas coisas, sinônimo de brincadeira com palavras.

E é isto que Paula faz neste livro que foi o seu de estreia, apresentando com coragem nuances da alma de uma mulher que sente, pensa, goza e quer muito da vida. Me inspira.

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4. Paula, de Isabel Allende

Não sou mãe (só de pet! hehe), então é complexo imaginar a dor de ver uma filha muito doente. No entanto, esta foi uma situação real da vida da escritora chilena Isabel Allende – e, como é típico das escritoras cujo talento transcende as palavras de seu livro – ela consegue transmitir tal sensação devastadora no livro “Paula”, um de seus maiores clássicos.

A obra não foi planejada, foi mesmo o resultado de uma sugestão da editora de Isabel para que ela atravessasse o difícil período em que esteve com a filha entubada no hospital lidando com a dor a partir das palavras. Ao dialogar e retratar fatos sobre sua infância e sua vida a ela, Allende acaba por rememorar também fatos importantes acerca da história do Chile, como a ditadura de Pinochet, no golpe militar de 1973.

Aqui, há um exemplo nítido do que Conceição Evaristo chama de escrevivência. Um livro para chorar, aprender, crescer e lembrar de valorizar o divino presente que é a saúde. Não por acaso ele consagrou Isabel como uma das maiores escritoras latino-americanas. 

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5. O Relatório Hite: Um Profundo Estudo sobre a Sexualidade Feminina, de Shere Hite

Mulher: você goza? Como goza? Quanto goza? Como gosta? Shere Hite foi uma mulher visionária, a partir de um questionário, ao entrevistar dezenas de mulheres acerca de sua sexualidade – algo que, por vieses religiosos e políticos, ainda hoje para algumas pessoas é tabu.

Neste livro, apresenta perguntas e respostas sinceras sobre temas que permeiam o erotismo e a vida sexual feminina, trazendo à tona temas como orgasmo, masturbação e relacionamentos homo e heterossexuais. 

Sem delongas, recomendo a leitura para todas as irmãs que procuram assumir o prazer em suas vidas com menos culpa e vergonha, mais amor-próprio e cuidado consigo mesmas. 

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6. Quintais, de Geruza Zelnys

Traumas, abusos, dor, violência. Beleza, êxtase, embalo, fruto. A vida tem disto tudo. É o que nos lembra a escritora Geruza Zelnys nos poemas do livro “Quintais”, obra que fortemente recomendo para quem tem coragem de deixar a poesia entrar visceralmente no corpo.

Como diz a também poeta Matilde Campilho, “a poesia não salva o mundo, mas salva o minuto”. O que Geruza, minha companheira de editora Patuá*, oferece aqui é um respiro, um escape de angústia, uma possibilidade de seguir pelas palavras – como é próprio da poesia. 

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*Sim, eu também publiquei por esta editora um livro de poemas, chamado “A Parte de Nós Que Canta”. Você pode comprar aqui ou me enviar um e-mail no endereço rafaela.kich@gmail.com para eu te encaminhar uma cópia autografada. Envio para todo Brasil e exterior. 

E você, já leu algum destes livros? Qual foi o que mais gostou? Qual foi a sua leitura mais marcante de 2024? Fique à vontade para me contar aqui nos comentários.

Me despeço com votos de que 2025 nos brinde com amor, saúde, paz, prosperidade e, claro, muitas leituras estimulantes para expandir cada vez mais nossa percepção de mundo. Continue acompanhando os textos do blog nesta nova etapa.

Vamos ter muitas e muitas novidades. 🙂

*ps: os livros contêm meu link de Afiliada da Amazon. Ao comprar através deles, eu recebo uma comissão que ajuda a manter este blog, mas você não paga nada a mais por isso. Muito obrigada!