*texto lido originalmente no evento Cena Única, organizado por estudantes de Dramaturgia da SP Escola Superior de Teatro, em 31 de outubro de 2026.
PERSONAGENS:
INÊS
LÉLIA
“Marx concebe a alienação do corpo como um traço distintivo da relação entre capitalista e trabalhador. Ao transformar o trabalho em mercadoria, o capitalismo faz com que os trabalhadores subordinem seu trabalho a uma ordem externa, sobre a qual não têm controle e com a qual não podem se identificar (…) Podemos observar que a primeira máquina desenvolvida pelo capitalismo foi o corpo humano, e não a máquina a vapor nem o relógio” – Silvia Federicci, em “Calibã e a Bruxa”
I: Minha querida, vou te contar. Eu pensei em desistir. Mas Deus me deu forças. Quando cheguei no Brasil, não demorou nem duas semanas e eu já tinha um emprego. Só que naquele trabalho não podia nem sentar.
L: Mas você sabe que não é porque o outro emprego era tão ruim que você precisa aceitar tudo nesse, né? O Julio, gerente, às vezes dá uma surtada, mas eu relevo e não dou muita bola. Gerente é meio assim, né..segura a operação do negócio nas costas, surta e volta ao normal. O dono, Marco, que aparece só de vez em quando…Às vezes ele encosta a mão no meu ombro. Me dá calafrio. Me dá vontade de dizer “não encosta em mim!”. Mas só penso nisso depois. Na hora fico meio travada…
I: Eu sei, eu sei. Pode deixar. Não deixo abusar, nem violar. Mas olha, pede você as luvas pro patrão, tá? Eu não falo português tão bem..e imagina se o patrão não gosta. Preciso desse emprego, sabe?
L: Sei. Eu também. Você precisa. Eu preciso. A gente precisa.
I: Sabe, no meu outro trabalho eu subia e descia escada, lavava louça, tirava o lixo. O movimento não parava nunca. Precisava do dinheiro, queria sair, mas não podia. Então pedi a Deus para me dar força. Pedi a Deus para me resgatar. E consegui esse trabalho aqui. Aqui é 5×2. É bom.
L: É, mas não tem plano de saúde. Não tem vale-refeição. Não tem insalubridade. Eles podiam tirar isso do lucro deles. Eu sinto dor no pé que tá virando uma coisa crônica. Tô sempre cansada e faço força para prestar atenção na aula, porque me dá um sono…E ainda assim, os boletos vão vindo e não dá nem pra respirar – é correr sempre pra sair do vermelho.
I: É, tem isso..Mas eu nem registrada sou…mas tô disposta a trabalhar. Preciso do dinheiro, ganhar a vida..Foi para isso que vim aqui também. Porque sabia que encontraria emprego no Brasil.
L: Inês, tô falando contigo porque meu contrato é temporário e acho que eles não vão me manter, por conta de uma licença que pedi..Mas não deixa eles te obrigarem a fazer a minha parte do trabalho sozinha até colocarem outra pessoa, tá?
I: Ai, não! Me dá um abraço. Não se preocupa. Não, não, não…não deixo abusar, não deixo violar. E você… não para de estudar, hein!
L: Não vou parar, não. É escrevendo que vou me vingar. Mas ainda me pergunto, Inês…se alguém olha para as pessoas atrás dos aventais, as pessoas que preparam a comida, as pessoas que servem e diz: “também elas são artistas!”. Como a política dos afetos vai prevalecer neste mundo?
“A mulher tem o direito fundamental de participar e usufruir da riqueza da nação e da sociedade que ela mesma ajudou a construir”. – Joice Berth, no livro “Empoderamento”
