O poder da palavra para pessoas e marcas

mãos escrevendo em um caderno, com uma xícara de café e croissant ao lado

“Qualquer história é melhor do que o caos. Na verdade, pode-se dizer que o caos da vida é uma condição crônica para a qual as histórias são o remédio” – Derek Thompson

O mundo é caótico. Eu mesma jamais imaginei na minha vida que sentaria em frente ao computador para escrever um livro durante uma pandemia mundial. Ainda assim, a realidade de 2020 foi essa.

A questão é que nós, homo sapiens, bem que tentamos organizar tudo. Mas grandes catástrofes e pequenos imprevistos diários sempre estão aí para nos lembrar: a verdade é que não temos controle real sobre nada. Isso nos assusta. Por isso, necessitamos de histórias e narrativas que sustentem nossas rotinas e escolhas de vida.

As histórias, pelo menos, nos dão um senso de controle. Uma ideia de que estamos seguindo em uma direção que faça sentido. Vivemos delas, nos alimentamos delas, criamos, cada um de nós, um certo roteiro de vida por meio das narrativas sociais em que acreditamos.

O brilhante historiador Yuval Harari fala sobre isso no livro “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”. Como espécie, para significarmos nossa existência, criamos narrativas. Marcas são narrativas. Personal branding em redes sociais não deixa de ser uma “narrativa” que criamos sobre nós mesmos. Cargos profissionais são narrativas.

Uma das ferramentas mais poderosas que sustenta todas essas narrativas é a palavra. Ela já imortalizou personalidades ao longo da história (quem não se lembra de emblemáticos discursos de Obama, Steve Jobs, J.K Rowling ou mesmo Churchill?). A palavra é o fio que costura postagens em redes sociais, blogs e toda esfera digital.

Derek Thompson, autor da frase que abre este texto, aborda a questão em “Hit Makers”, um livro que analisa minuciosamente como surgem as tendências globais. Ele conclui que a palavra, principalmente se bem colocada e repetida com uma frequência aceitável, porém não exagerada, é capaz de mover multidões.

Você sabia que na transcrição oficial da campanha “Yes, We Can” de Obama, a palavra “promessa” foi repetida 32 vezes? Há muita estratégia por trás do uso de palavras por parte de muitos marqueteiros e políticos. O que demonstra, por outro lado, que ela também pode ser perigosa. Determinados discursos, por meio da repetição, são capazes de alienar.

A escrita como revisão do que se passa em nós

É por isso também que, na esfera pessoal, penso que escrever seja tão assustador. Às vezes, quando escrevo meus diários (o que considero uma espécie de autoterapia), fico chocada ao contemplar o que está “saindo de mim”. Às vezes uma raiva, que eu nem sabia que estava ali, ou um sentimento inesperado por alguém.

Na correria da vida moderna, raramente paramos, respiramos e refletimos. Dar uma pausa e escrever é, portanto, uma maneira de “revisar” o que se passa dentro de nós. De não simplesmente engolir direto tudo que a gente escuta, ouve ou presencia. Todas as situações do nosso cotidiano geram um impacto emocional.

Quando não olhamos para isso, parece que tudo vai acumulando, acumulando, acumulando. Parar e escrever é uma forma de elaborar sentimentos e, até mesmo, eternizar momentos. Há textos que escrevi em determinados momentos da vida que, quando releio, parece que estou experimentando todas as sensações de novo.

Guardei, por meio de minhas palavras, lembranças de pessoas que se foram, memórias de momentos íntimos, detalhes de dias inesquecíveis. Muito do que fui e sou está ali. E posso ter acesso novamente a tudo isso quando quiser. É uma forma de compreender melhor quem já fui, o que aprendi e, a partir daí, moldar com mais clareza quem almejo ser daqui para frente.

Resumindo: a escrita é mágica. É por todos esses motivos que defendo veementemente que a palavra seja usada com responsabilidade, com alma, com verdade. Acredito que ela pode nos curar de diversas formas e, se você sonha em trabalhar escrevendo, penso também que poderá causar transformações sociais ao “emprestar” suas palavras a clientes/marcas.

Toda palavra nasce da emoção. Escrever acontece quando a gente experimenta um sentimento – prazeroso ou não – e tenta exprimir algo dali, entender, colocar no papel (ou Google Drive, ou Word, ou bloco de notas no celular). Às vezes travamos, o que é normal. Às vezes começamos a escrever tanto, que a mão chega a doer de tão feroz que é a experiência. Mas não dá para escrever sem sentir.

E o mundo, nos dias de hoje, parece se esforçar para não sentir. Medo, raiva, tristeza, melancolia, amor, dor, vontade, desejo, paixão. Parece que nada é permitido, você já teve essa impressão? Suprima tudo, tome um remédio para depressão, permaneça produtivo. O tempo é muito curto para lidar com sentimentos.

No cenário atual, escrever é quase um ato revolucionário de humanismo. Isso porque demanda justamente a necessidade de parar, ficar offline, desligar das redes, da poluição sonora e visual do mundo externo. A escrita demanda interiorização. Olhar para dentro. Resgatar o eu perdido.

Para citar também outra pessoa que me inspira muito: a jornalista Ana Holanda, autora do livro “Como se Encontrar na Escrita: o Caminho para Despertar a Escrita Afetuosa em Você”, diz em seu capítulo introdutório que escrever se tornou para ela justamente isto: uma experiência amorosa, humana em sua essência.

Quando aliada ao trabalho jornalístico ou de Marketing de Conteúdo, em sintonia, pode transformar-se então em ferramenta política e de transformação social. Revoluções hoje acontecem graças a pequenas telas de smartphones, que nos permitem partilhar instantaneamente uma mensagem a milhares de pessoas.

Hoje não posso mudar políticas, mas posso transformar a vida das pessoas pelas palavras. Quando isso acontece, a mudança acontece também”, escreve Ana Holanda. Pois eu sinto a mesma coisa.

O fluir das palavras

Escrever é, conforme referi, uma forma de contribuição. Primeiro e antes de mais nada, de mim para mim mesma. Escrevo sobre meus sentimentos, sobre minha forma de enxergar o mundo e minhas percepções, pois entendo que há padrões em mim que necessito observar. Como poderia usar com responsabilidade as palavras em outros projetos, sem estar bem comigo mesma?

Por isso, recomendo que, se você deseja também escrever profissionalmente, ensaie antes olhando para os seus próprios sentimentos. Captar o DNA de qualquer projeto de Marketing de Conteúdo depende de você estar alinhado(a) com o poder das suas palavras. Ter a dimensão de onde elas podem chegar.

Rabisque, teste, brinque com a sua escrita. Deixe por um momento os templates de lado. Posso dizer com propriedade: não é “copiando a fórmula” de alguém que você vai criar um caminho de escrita único e manter uma cartela legal de clientes.

Busque referências de escrita, capacite-se, sim. Mas faça questão de tirar um momento também para não pensar em nada disso. Desconecte-se de vez em quando.

O próprio Einstein dizia:

Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio: e eis que a verdade se me revela.”

Eu observei esse processo em mim mesma. A escrita mais pura não nasce de fórceps.

Nasce de um silêncio interior, de uma quietude quase que sublime.

Você tem se permitido essa quietude?

Este texto é uma adaptação do segundo capítulo do meu livro recém-lançado: “O Nascer da Escrita: encontre sua voz (e a de seus clientes) por meio das palavras”. Clique aqui para garantir seu exemplar e conferir na íntegra.

Um manifesto pelo direito à ambição feminina

mulher negra com faixa no cabelo olhando para cima

“Nosso maior medo é sermos poderosas além da medida”  – Marianne Williamson

Se você me acompanha aqui no blog, lá no LinkedIn ou pelas redes sociais, provavelmente já deve ter visto que acabei de lançar oficialmente o meu segundo livro: “O Nascer da Escrita: encontre sua voz (e a de seus clientes) por meio das palavras”. 

Estou bem orgulhosa do projeto. Só que este texto não é para falar sobre ele. É, sim, para abrir meu coração sobre os bastidores e compartilhar alguns insights que eles me trouxeram sobre ambição feminina.

A verdade é que sempre fui uma mulher ambiciosa. Talvez seja coisa dos astros mesmo. Sou leão com ascendente em leão (peeeensa!)

Mas a realidade é que, nos últimos anos, desde que lancei meu blog e comecei a me publicar nas redes sociais, todo dia tem sido uma batalha entre mim mesma e a impostora que me habita.

Aí vai a verdade nua e crua: diante de cada venda do livro, diante de cada comentário de “parabéns”, diante de cada elogio, aqui atrás da tela ainda está uma menina/mulher que pensa: será que mereço?

Além da minha própria autossabotadora interior que luto para vencer todos dias, ainda parece que escuto outras vozinhas ecoando lá no fundo da mente: “Quem ela pensa que é? Essa menina ‘se acha’ demais”. 

Sim, parece que sou capaz de ouvir vozes de outras mulheres me julgando. E não é por loucura da minha cabeça, como já cheguei a pensar que fosse.

Nas leituras feministas recentes que tenho feito, acabei descobrindo algumas respostas para os fenômenos que acontecem sempre que uma mulher procura ocupar lugar de destaque profissional e financeiro nesta sociedade.

Neste artigo, quero falar um pouquinho sobre elas.

O medo de não ser mais “Outro”

No brilhante livro “O Segundo Sexo”, a francesa Simone de Beauvoir traz uma tese poderosíssima: a construção da mulher na sociedade faz com que ela se enxergue como o Outro

Quem seria o Outro? Alguém que não é “o homem”, ou seja, alguém que não é o sujeito de sua própria vida e história. O Sujeito (homem) se constitui fazendo do outro o Objeto.

A mulher, portanto, seria isto – o  Outro, o objeto. Viveria, assim, uma espécie de alienação de si mesma. O que também, segundo a própria, traz certas vantagens confortáveis. 

Acontece que essa passividade é um caminho nefasto, pois não permite a liberdade de que nos tornemos tudo o que podemos ser. A ambição, em minha visão, nasce do desejo de explorarmos nosso potencial por completo – de sermos livres para buscar nossa essência.

No contexto capitalista, para uma mulher, ter ambição significa buscar autonomia moral, financeira, intelectual e espiritual. É uma forma de afirmar-se, dizendo: “quero ser Sujeito da minha própria vida, não Objeto”.

É um ato de libertação. Mas o sistema atual não se interessa muito por mulheres livres, convenhamos. 

Criadas para julgar

Aí entra a outra complicação da ambição feminina. Me parece que, quando uma mulher se declara independente ou quer ocupar um espaço de independência e destaque, precisa encarar um enorme medo de ser julgada, observada e até excluída (muitas vezes, por outras mulheres).

Fomos criadas para aniquilar umas às outras. É triste demais.

Esses dias fiquei sabendo em off que uma filósofa negra que conquistou um lugar de destaque no meio literário está cobrando uma bolada para dar palestras. Logo de cara, também achei o valor extremamente alto.

Depois, fiquei pensando “ok, esse valor é bem alto mesmo”. Mas…há diversos filósofos homens brancos que cobram cachês semelhantes e nunca ninguém achou “estranho”.

Então, será que ela estaria errada em cobrar assim pela sua fala? Vindo de onde veio, estudando tudo que estudou? Quem coloca o valor no nosso trabalho? 

Onde quero chegar: a sociedade patriarcal (em sua parceria com a Igreja também, sejamos honestos), embutiu nas mentes femininas, de todas as formas, o medo de ser grande.

Era para sermos queridinhas, humildes, quietinhas. Amebas invisíveis, em outras palavras. 

Ser uma mulher ambiciosa é dizer não para tudo isso. É um ato de rebeldia e exige coragem.

A anulação é que deveria assustar

Para encerrar, compartilho aqui então a minha maior descoberta desde que decidi me publicar como autora e usar a minha voz para defender causas que julgo importantes: ser ambiciosa é assustador, sim. Mas há algo pior.

O que temo mais, hoje, é a ideia de reprimir meus talentos por conta dessas vozinhas e me esconder no vazio de um emprego do qual não gosto – ou pior! – no infinito vazio do interminável trabalho doméstico.

Penso que deveríamos ter mais medo de nos permitirmos ser anuladas, do que de ter grandes ambições – e, por que não? – um excelente salário também.

Ser dona da própria vida exige muita coragem. Mas eu quero encorajar você, aqui, a seguir o caminho que você mesma escolher e bancá-lo.

Não vou mentir: não é fácil. Só que é libertador.

E viver sem liberdade nada mais é do que uma morte diária.

Como descobrir sua voz (e a de seus clientes) por meio das palavras

imagem de uma mulher de calça jeans e camisa branca escrevendo em um caderninho

“A escrita que abraça, acolhe, encontra uma quantidade maior de pessoas não é aquela cheia de palavras inatingíveis, mas a que todos têm capacidade de compreender”

 Ana Holanda

Escrevo profissionalmente desde que comecei minha carreira no Jornalismo, em 2013. De lá para cá, descobri que nossa forma de escrever pode ser afetada por inúmeras referências, técnicas de escrita e demandas de mercado. A forma como nos expressamos com palavras varia de acordo com nosso trabalho e o momento em que vivemos.

Por exemplo: a reportagem jornalística possui uma liberdade poética mais ampla do que um texto informativo de jornal, que preza por conceitos de objetividade e esclarecimento de fatos. Já uma monografia ou Trabalho de Conclusão de Curso exige cuidados pontuais mais específicos em relação a citações e referências.

Na internet, um texto bem focado em SEO (otimização para buscadores) demanda a observação de inúmeros detalhes minuciosos – como a repetição bem colocada de determinadas palavras-chaves e a formatação de intertítulos. Um post escrito para uma rede social, por sua vez, pode incluir emojis e outras “ferramentas de linguagem”.

Se você atua no mercado digital, muito provavelmente também já ouviu o termo “Copywriting”. Trata-se de um estilo de escrita mais persuasivo, que leva em consideração a necessidade de conduzir o leitor a tomar uma ação. Apresenta uma estrutura mais envolvente, sedutora, com o intuito de promover produtos/serviços e converter vendas.

Outra técnica amplamente utilizada em filmes, séries e na internet é a do Storytelling, a já bem conhecida “jornada do herói”. Ela consiste, para explicar de forma bem resumida, em relatar fatos por meio de narrativas, acompanhando a trajetória de um personagem que passa por provações e, no fim da história, encontra uma solução e as supera.

O que quero dizer com tudo isso? Que, se falarmos em “fórmulas” de escrita, a lista é praticamente interminável. E, ao longo da vida e de nossa jornada como escritores(as), nos deparamos com muitas delas! Particularmente, acho ótimo ter um repertório, conhecer técnicas diferentes, dominar habilidades variadas.

Eu mesma estudei todas as que acabei de referir. Jamais diria que foi desnecessário ou perda de tempo. Pelo contrário, anseio cada vez mais por mergulhar nos mais distintos caminhos de escrita e estilos literários. Adoro ver referências, analisar templates e metáforas, ampliar minha compreensão acerca do uso da palavra.

A grande questão é que, como toda a “regra”, fórmulas mágicas de escrita também podem nos tornar mais tensos e travados. É o que acontece com muita gente na hora de fazer o trabalho de conclusão da faculdade. São tantos detalhes para se pensar…parece que tudo simplesmente não flui.

Percebo muita gente perdida quando começa a ouvir termos como Copy e SEO. De fato, são universos tão profundos que você poderia passar anos estudando. Mas, vamos lá: de que adianta fazer mil cursos online diferentes e nunca colocar nada em prática? A pessoa se afunda em teoria e peca na prática.

Quando, na verdade, praticar é sempre melhor do que ficar só na teoria. Você melhora sua escrita a partir dos feedbacks que recebe. Só que, para obtê-los, precisa começar a mostrar seu trabalho.

Onde surge o entrave?

Acontece que também há uma razão para tudo isso. No livro Hit Makers, Derek Thompson relembra que as mentes mais brilhantes por trás de hits – sejam eles textos, músicas, filmes ou quaisquer tipos de produtos – são aquelas capazes de transcender a ideia da fórmula. Sua habilidade com as palavras, digamos, é tão intrínseca que a mecânica se torna invisível.

O texto simplesmente flui. Quase que sem perceber, você já está fisgado pela história. Porque quem realmente se destaca com as palavras não leva apenas a escrita como processo, mas sim como um ato de total devoção e entrega. O amor pelo trajeto de criação da obra é o ingrediente principal da narrativa.

Assim, o texto toca algum lugar mais profundo e se torna como um amigo, um carinho. É algo semelhante a quando você assiste um seriado e lembra de alguém. Ou escuta uma música e se transporta imediatamente para uma situação ou lugar. Está além da superfície. A identificação chega até a alma. 

Aí está o ponto-chave sobre o porquê as fórmulas não funcionam. Porque, como gosto de dizer, tudo na vida está em constante fluxo de movimento. Se há uma “fórmula para um texto de sucesso” e todos optam por segui-la, logo aquele formato provavelmente não será mais tão atraente assim. Por quê? Porque terá virado simplesmente um lugar comum.

O centro da escrita é sempre a pessoa

Quero reforçar, portanto, que provavelmente a melhor “técnica” para escrever melhor seja justamente começar a olhar mais para as pessoas. E sabe o que faz falta para a maioria delas? Justamente sentir. Falar de sentimentos, das delícias e dores de estar vivo. 

As pessoas anseiam por isso. E querem se conectar com sua essência, ainda que talvez não saibam disso de forma consciente. Como disse brilhantemente uma das minhas professoras de Yoga, Maria Nazaré Cavalcanti, todos nós estamos constantemente buscando reencontrar algo dentro de nós que é verdadeiro e lúcido.

Todos nós, sem exceção, possuímos uma necessidade interior muito forte de reconexão com a nossa origem, com a nossa natureza essencial. É por isso que uma escrita fluida e honesta é capaz de impactar multidões. Não falo apenas no sentido de escrever textos sobre devaneios próprios. Essa sensibilidade pode ser aplicada em basicamente qualquer contexto/projeto.

A linguagem é muito poderosa e, se você colocar honestidade e um DNA próprio nela, sua força é quase imensurável.

Qualquer que seja o tema em pauta.

ps: este texto é um pequeno spoiler do meu novo lançamento literário que vou anunciar na semana que vem, destinado principalmente a amantes das palavras, escritoras/escritores e produtores de conteúdo.  🤍

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a beleza do desespero.

o meu choro
é o de quem sente
tudo está no ser
o êxtase e a dor
o ganho e a perda
a vida e a morte
eu vivo em mim e sinto tudo
percebo ciclos
identifico padrões
e, acima de tudo, sigo
talvez até as lágrimas me enfeitem
deixem meu rosto molhado
pela essência da verdade
a crueza de sentir
que nunca pede licença
simplesmente transborda
mas ainda me faz ter certeza
de que mesmo na confusão
vivo, respiro
e estou aqui.

como nasce a empatia.

diariamente
quando o amor cresce
dentro de mim
e também por mim
cada vez mais
sou capaz de compreender
perdoar, entender e amar
também as outras pessoas.

Distopia ao inverso

menina olhando pela janela de um carro

Desperto tranquila, pois a vida não me pesa sobre os ombros. Ela tem tons leves, sem estresse financeiro ou emocional em excesso. Preciso dar conta das demandas do trabalho, claro, mas agora pelo menos sou remunerada pelo tempo despendido nas tarefas domésticas.

Além disso, não fico ansiosa pela obrigação de estar sempre bela. Não existe mais “padrão de beleza”. Assim, nós também paramos de nos comparar umas às outras e de fofocar pelas costas.

Quando o vizinho estaciona seu carrão na garagem, isso não me irrita. Afinal, nossos salários são equivalentes. Só não tenho o “carrão” porque prefiro viajar o mundo com o que ganho – um valor justo, digno e merecido.

Explorar os continentes como viajante mulher “solo”, aliás, tampouco me amedronta. Com a equidade salarial, o maior respeito à Natureza e a igualdade entre os sexos, a violência contra a mulher é praticamente inexistente.

Não tenho frio na barriga, temor de andar pela rua e ser estuprada. Aliás, os homens estão mais gentis por todos os lados. Eles deixaram aflorar seu lado feminino, pararam de brigar com ele, agora são mais empáticos, amorosos e gentis. 

Quando ando de bicicleta pelas ruas, observo as casas e me alegro. Não vejo só mulheres debruçadas sobre janelas e calçadas esfregando o chão. Às vezes são elas, às vezes são eles. E também há mais famílias com variadas composições (não há mais nenhum tipo de preconceito contra gays, lésbicas e a comunidade LGBTQI+).

Sobretudo, há uma vibração de respeito e afeto por todos os lados. O patriarcado parece ter ruído, os líderes fanáticos religiosos se foram e a nova lei sobre a terra é o amor. 

Poderia ser tudo verdade, como um voo em direção ao futuro utópico das mulheres e dos homens no planeta. Sou capaz de contemplá-lo, embora a realidade ainda esteja distante.

Não creio ser impossível e é por isso que escrevo, resisto e luto. Amparada pelas que vieram antes de mim e com a certeza de que, se não chegarmos a esse lugar ideal, pelo menos chegaremos a um lugar melhor, mais lúcido.

Espero que outras e outros acreditem comigo.

Onde estão tuas raízes?

Enraizar-se é um processo complexo dentro de uma sociedade que nos puxa para mil diferentes direções.

Confusos e cansados, começamos a criar raízes externas. Por meio de relacionamentos, posses, cargos profissionais. Nossos papéis moldam quem somos.

Mas isso não significa necessariamente ter raízes sólidas de verdade. Se tudo isso simplesmente sumisse, quem seria você? O que você seria sem seu emprego? Sem seu parceiro(a)? Sem sua casa?

Tudo isso um dia poderia sumir. Pode sumir até mesmo hoje – você não tem como saber. Não é possível evitar que tudo lhe seja tirado, por mais “seguros” que você tenha. E, então, o que restaria?

O equívoco não é enraizar-se em um papel. Mas esquecer que, antes de mais nada, é preciso estar bem enraizado em si mesmo.

Afinal, para onde quer que você vá, sozinho ou acompanhado, com ou sem dinheiro, com ou sem posses…lá estará você.

A gente gosta de tentar fugir, mas como Neruda certa vez colocou: em algum momento, inevitavelmente, encontraremos a nós mesmos. E esse poderá ser o mais feliz ou amargo encontro das nossas vidas.

Melhor é tentar, em doses homeopáticas, encontrar um pouquinho se si a cada dia.

quem te olha e vê?

algo em mim mudou
desde aquela primeira
troca de olhares
quando ela enxergou
algo além da superfície
e mergulhou no oceano inteiro
ela me olhou
mas foi mais que isso
ela realmente me viu
e ser vista muda tudo.

Carta anônima

imagem da sombra de uma mulher com flores na mão

Se gostar de poesia, fique.

A gente encontra um cantinho para desaparecer do mundo que ameaça nossa sensibilidade. Procura a beleza no meio do caos. Recusa esse tempo do relógio que já não mostra mais as horas, só exibe ponteiros gritando ansiosamente: corra, corra, corra.

Sei que é assustador, afinal é ir contra tudo e todos que estão ao redor. Talvez seja até intimidante quando olharmos nos olhos. Porque eles revelam tanto e já não se faz mais isso, né? Mas eu topo me desnudar, já não ligo mais pro “certo e errado” lá de fora.

Acontece que não sei não amar. Na verdade, eu sei amar. Mas não se assuste, ou tome isso como algo pesado de se carregar. “Ela tem sentimentos”. Sim, na era do Tinder, eu tenho sentimentos. Você sabe que pessoas como eu não estão lá, de qualquer forma.

É porque sou essencialmente assim que já chorei oceanos. E não me importaria de fazer tudo de novo, nunca seguraria ninguém à força se quisesse partir. Não é das dores do amor que tenho medo. O vazio de não sentir nada dessa vida apressada é que me assusta mais.

Agora, isto é fato: vou contar sobre ser mulher e talvez isso seja um pouco difícil de ouvir. – mas é por uma causa maior. E juro que vou tentar ser amorosa nisso, não raivosa, mas tampouco passiva. 

De fato, é complexo mesmo explicar as subjetividades que perpassam nascer e viver em uma sociedade machista e agressiva dentro de um corpo feminino. Antes eu olhava para mim mesma como se fosse composta de partes segmentadas. 

Entendo que soa estranho. Mas é que seu corpo nunca foi reduzido exclusivamente a uma “pele”, um “cabelo”, uma “nádega”, um “braço”, “um abdômen”. Nem tampouco seu intelecto foi analisado como algo “à parte” de tudo isso. 

Antes de chegar aqui, nestas palavras, eu tive que me descobrir inteira, recolher os pedaços, me perceber completa em mim mesma. E não foi fácil. Teve muito suor, cansaço e confusão envolvidos nesse processo. 

É por isso que essas conversas vão acontecer, não posso evitar. Porque elas são necessárias para um lugar de igualdade entre nós e não teria como ser diferente. Não estaria disposta a voltar lá para o começo. Seria uma loucura inconcebível.

Mas eu também nunca estaria aqui para viver em pé de guerra. Como eu disse, não sei viver nada disso sem amar.

Gosto de agradar. Danço, canto, brinco, leio. Se existe uma verdade é que não preciso de muito além de palavras e conversas que me façam esquecer do mundo e toda seriedade que é ser adulta para estar serena e feliz. 

Não ligo pro seu cargo, não me importa o quanto você ganha. Essas conversas me entediam um pouco.

Bom…e tem isso. Eu escrevo. 

Então, se gostar de poesia, fique. Quem sabe eu te transformo em alguma.

nuances.

é meio complexo
de se compreender
mas justo nos dias
mais doloridos e vulneráveis
que a vida nos brinda
com a oportunidade
de evoluirmos para conhecer
as nuances mais elevadas
de nós mesmos.