20 frases de “Os Miseráveis” que me fizeram refletir sobre trabalho, sociedade e relações humanas

foto aérea de Paris mostrando o

“Enquanto a ignorância e a miséria permanecerem no planeta, haverá necessidade de livros como esse” – Hauteville House, 1862

O ano de 2020 foi extremamente marcante em minha vida. Não só por conta da pandemia.

Como já mencionei em algumas outras postagens, se houve algo de positivo após o colapso do convívio social foi a oportunidade de me reconectar – ainda mais – com os livros.

Foi graças a um desafio literário lançado pelo podcast Tinha Que Ser Mulher que acabei mergulhando na leitura de um calhamaço que se tornou um dos mais fascinantes que já li. Os Miseráveis.

Difícil resumir mais de 1.400 páginas de enorme profundidade filosófica, histórica, religiosa e moral em breves palavras. Inquestionavelmente, mergulhar na narrativa publicada pelo escritor francês Victor Hugo em 1862 me fez repensar sobre inúmeros aspectos da vida em sociedade e da própria existência humana.

Naturalmente, também não poderia deixar de vir aqui compartilhar alguns aprendizados e frases marcantes da obra. Topa mergulhar comigo nas reflexões?

O amor sustenta uma existência

Há muitas frases em Les Mis que versam sobre o amor. Toda a narrativa (que perpassa a história de vida do personagem Jean Valjean) tem a capacidade de amar do ser humano quase como personagem atuante.

Victor Hugo parece querer frisar que uma solução possível para todas as esferas da miséria humana – da material à ética e moral – passa pela aptidão empática e existente em nós de amar.

É o amor que dá sentido a uma vida quando todo o mundo externo assusta e implode. O que me fez pensar: será que no contexto de nossa realidade cada vez mais acelerada e tecnológica, ainda encontramos tempo de amar?

Indo além…o que vai sobrar do tecido da nossa vida quando não mais estivermos aqui, se não deixarmos uma marca de amor no coração de alguém? São questões sobre as quais refleti e ainda pondero hoje.

Não basta dar “emprego” – é necessário dar dignidade ao ser humano

Tendo a Revolução Francesa e seus ideais de Igualdade, Liberdade e Fraternidade como pano de fundo de alguns acontecimentos centrais, Os Miseráveis também nos impele a ponderar sobre problemas de cunho social e trabalhista que culminam em conflitos.

Ao traçar um paralelo com a realidade atual, como a desigualdade social no país vem aumentando – tendo se acentuado ainda mais com a pandemia -, novamente pensei mais a fundo sobre a importância da equidade.

No contexto de Brasil em que vivemos, necessitamos começar a refletir mais não apenas sobre como empregar pessoas ao invés de robôs. Mas, principalmente, em como gerar cargos e empregos dignos, que viabilizem a evolução humana. 

Um salário não basta para formar intelectualmente um cidadão. Se queremos uma sociedade com menos criminalidade e brutalidade, precisamos desenvolver as pessoas. Ajudá-las a terem a capacidade de evoluir até o alcance de seu pleno potencial.

20 frases do livro “Os Miseráveis” para pensar além

O que compartilhei até aqui foram algumas de minhas percepções pessoais acerca da obra-prima de Victor Hugo. Abaixo, traduzi da versão em Língua Inglesa mais 20 trechos que aparecem no livro para que você leia, releia, questione e aprofunde.

Espero que goste:

“Amar ou ter amado. Isso é o suficiente. Não peça nada mais. Não há outra pérola a ser encontrada nas dobras escuras da vida. O amor é uma consumação.”

“Vamos compreender melhor o que diz respeito à equidade, pois se a liberdade é o cume, a equidade é a base; (…) civilmente, ela é todas as aptidões tendo iguais oportunidades; politicamente, todos os votos tendo o mesmo peso; religiosamente, todas as consciências tendo direitos iguais.”

“Se salvar pelos meios que lhe arruinaram, essa é a obra-prima dos grandes homens.”

“Viajar é um constante nascer e morrer.”

“A maior felicidade da vida é termos a convicção de que somos amados.”

“Com os olhos fechados é a melhor forma de olhar para uma alma.”

“Pobres daqueles que só amam corpos, formas e aparências. A morte levará tudo deles. Procure amar almas, você as encontrará de novo.”

“Monstros se incomodam facilmente.”

“Destrua o buraco Ignorância e você destruirá a toupeira Crime. O único perigo social é a escuridão. (…) Humanidade é similaridade. Todos os homens são a mesma argila. Não há diferença, aqui na Terra ao menos, por predestinação. A mesma escuridão antes, a mesma carne durante, as mesmas cinzas depois. Mas a Ignorância, mesclada com a composição humana, escurece essa percepção. É assim que a Ignorância possui o coração do homem e, daí, surge o Mal.”

“Diante daqueles cujo olhar não tem luz, reflita e estremeça. A ordem social tem seus mineiros sombrios. Há um ponto em que minar torna-se um sepultamento e toda a luz se vai.”

“Um cético cedendo a um crente é algo tão simples quanto a lei das cores complementares. O que nos falta nos atrai. Ninguém ama a luz como um homem cego.”

“O deleite que inspiramos nos outros tem esta encantadora peculiaridade: longe de ser diminuído como qualquer outro reflexo, ele retorna a nós mais radiante do que nunca.”

“É estranho como uma consciência clara resulta em uma geral serenidade.”

“Sobre métodos para se rezar, todos são bons, desde que sejam sinceros. Feche este livro e você está no infinito.”

“Este é, na verdade, o mais desastroso dos sintomas sociais: todos os crimes do homem começam com a vadiagem na infância.”

“Certamente nós falamos conosco mesmos; não há um ser pensante que não tenha experimentado isso. Alguém até poderia dizer que a palavra é um mistério ainda mais magnífico quando, dentro de um homem, ela viaja de seu pensamento até a consciência, e retorna da consciência ao pensamento.”

“A lei sagrada de Jesus Cristo governa nossa civilização, mas não a penetra. Eles dizem que a escravidão desapareceu. Isso é incorreto. Ela ainda existe, mas agora pesa especialmente sobre a mulher e se chama prostituição.”

“Em cidades pequenas, uma mulher desafortunada parece estar completamente nua diante do sarcasmo e da curiosidade de todos. Os maliciosos têm uma obscura felicidade (…) E algumas pessoas são maldosas pela simples necessidade de falar.”

“Ensine aos ignorantes tanto quanto puder; a sociedade é culpada por não prover educação universal gratuita, e deve responder pela escuridão que produz. Se uma alma é deixada na escuridão, pecados serão cometidos. E a responsabilidade não é de quem comete o pecado, mas daqueles que causam a escuridão.”

“Ser perverso não garante prosperidade.”

E você? Já leu Os Miseráveis ou ficou com vontade de mergulhar na obra? Fique à vontade para compartilhar suas percepções comigo aqui nos comentários. Vou adorar saber. 🙂

Quer ler mais?

Confira meus títulos publicados:

E-book de Poesias “Fragmentos.”

Livro Virtual “O Nascer da Escrita: encontre sua voz (e a de seus clientes) por meio das palavras.”

5 livros que me ajudaram a “sair da bolha” em 2020

desenho de uma menina soltando um balão em formato de coração

Tenho 26 anos, o que se traduz em uma experiência de vida ainda bastante limitada. No entanto, ouso dizer que 2020 tem sido um dos anos mais difíceis na história do Brasil. Por quê?

Bem, pois está escancarada bem diante de nossos olhos a abismal desigualdade social de nosso país patriarcal. Tudo isso em meio a um genocídio (sim, assim descrevo o que acontece quando mais de 170 mil pessoas perdem sua vida, devido à necropolítica praticada por um governo).

Ontem mesmo, o LinkedIn divulgou nova pesquisa do Ministério da Economia, apontando que as mulheres concentraram 65,6% dos empregos formais eliminados na pandemia.

Em um lado da balança, os extremamente ricos ficaram ainda mais ricos: segundo levantamento do banco suíço UBS, a fortuna dos bilionários em meio à pandemia passou de 10 trilhões de dólares. Enquanto isso, a miséria extrema também avançou (onde uns têm demais, outros têm de menos, por obviedade). 

Mais de 13,2 milhões de brasileiros, segundo dados do Cadastro Único do Ministério da Cidadania, estão em situação de extrema miséria. 

Sair da bolha é dolorido e demanda coragem

Para contextualizar melhor a introdução deste texto (antes que alguém me chame de socialista de iPhone ou comunista), primeiro quero frisar: sei bem que sou uma menina branca, de classe média. E que, provavelmente, ainda vivo em uma bolha de inúmeras maneiras. 

Só que isso não me impede de tentar enxergar outras realidades além da minha. Penso, inclusive, que é o mínimo dever que tenho diante dos privilégios que possuo enquanto cidadã.

Além disso, acredito que minha função como jornalista é realmente procurar falar por aqueles que não têm voz. Foi por isso que, no texto de hoje, decidi compartilhar cinco livros que me ajudaram a “sair um pouco da bolha” neste ano de 2020, justamente para compreender melhor o contexto que me cerca neste país. 

Sair de bolhas é dolorido, eu sei. É um processo – muitas vezes desconfortável – reconhecer privilégios, mas isso nos engrandece enquanto seres humanos. Nos torna mais gratos e empáticos.

Além disso, enquanto nós da classe média – e alta, principalmente! – não observarmos para além das nossas bolhas, viveremos com medo da violência e da barbárie, que são frutos da desigualdade social. 

Então, sem mais delongas, vamos aos livros?

Para ampliar horizontes: 5 obras essenciais 

1. Quarto de Despejo, por Maria Carolina de Jesus

“Que efeito surpreendente faz a comida em nosso organismo! Eu, que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.”

Nunca passei fome na vida, mas fui capaz de ter dimensão da experiência com a história de Maria Carolina de Jesus. Em seu livro, amplamente comentado neste ano de 2020 e já citado em palestras da Feira do Livro de Porto Alegre e Araxá (que, aliás, estão rolando online pelo Youtube com palestras e convidados incríveis!), é possível mergulhar na vida dos moradores da favela de Canindé, em São Paulo, década de 50.

A obra, tristemente, segue atual. O mundo ainda está repleto de “Marias Carolinas de Jesus”. Basta você passar por uma grande cidade para perceber. Enquanto mulher, esse livro me tocou muito e fez com que pudesse desenvolver um senso de gratidão ainda maior pelas coisas mais simples da vida, como a beleza do entardecer e um prato de comida.

2. Os Miseráveis, por Victor Hugo

“O que é a história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava. De quem? Da miséria. Da fome, do frio, do isolamento, do abandono, da privação. Dolorosa negociação. Uma alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita. […]. Dizem que a escravidão desapareceu da civilização europeia: é um erro. Existe ainda, mas não pesa senão sobre a mulher, e chama-se prostituição.” 

Ainda não finalizei a leitura deste clássico calhamaço, mas já vale a pena dividir algumas palavras por aqui. Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que a obra de Victor Hugo é das mais tocantes que já li em toda a minha vida. Principalmente porque versa sobre a miséria humana em todos os espectros possíveis: do âmbito financeiro ao moral.

Este livro tem me feito compreender diversos tipos de miséria que permeiam a existência. A do dinheiro é apenas uma delas – e que exige, de fato, muita atenção e compaixão por parte de todos nós que nunca passamos pela privação extrema.

Por outro lado, a obra também abre o coração do leitor para o que é realmente o aspecto mais importante da vida: amar. Sem amor, somos todos miseráveis (ricos ou pobres).

3. O Mito da Beleza, por Naomi Wolf

‘Depois do sucesso da segunda onda do movimento das mulheres, o mito da beleza foi aperfeiçoado de forma a impedir o avanço do poder em todos os níveis na vida individual da mulher. As neuroses modernas na vida de um corpo feminino se espalham de mulher para mulher em ritmo epidêmico.”

Enquanto mulher, também faço parte de uma minoria oprimida da sociedade. Mas, neste contexto, há ainda outras bolhas mais profundas, que afligem diferentes camadas sociais.

A obra da jornalista Naomi Wolf me fez ter a sensação de sair de uma nova bolha este ano: aquela que permeia a “obsessão pelo corpo perfeito”, que atinge tantas e tantas mulheres neste exato momento.

Neste livro, ela tece um argumento poderosíssimo de que, para brecar o avanço intelectual das mulheres e suas conquistas profissionais, a sociedade patriarcal associou o crescimento patrimonial da mulher à uma “beleza comprável”, por meio de cosméticos, cílios, maquiagens e horas gastas na academia.

Em outras palavras: a sociedade de consumo aprisiona a mulher em seu ideal de corpo, de modo que despendemos nossos salários (já mais baixos), muito frequentemente, em coisas relativamente fúteis – quando poderíamos estar lendo um livro, ou nos cuidando em casa mesmo…

A quem interessa, afinal, que sejamos ignorantes e apenas belos “cabides” maquiados, ao invés de seres pensantes?

4. O Conto da Aia, por Margaret Atwood

“Somos úteros de duas pernas, isso é tudo: receptáculos sagrados, cálices ambulantes.”

Embora seja ficcional, a obra de Atwood me fez sair da bolha no sentido de pensar profundamente sobre as diferentes experiências de dor que podem impactar a mulher em uma sociedade. Sobre como somos colocadas em caixinhas e, frequentemente, julgamos umas às outras pelos papeis que assumimos (mãe, amante, esposa fiel, “lésbica”, dona de casa, etc).

As palavras da autora despertaram em mim compaixão por outras mulheres que, com certa vergonha, hoje confesso que já cheguei a julgar. Me fez aprofundar também a compreensão de que a única forma de modificarmos a estrutura patriarcal, inserida no contexto do fanatismo religioso, é ajudando umas às outras, jamais competindo e apontando dedos.

ps: já escrevi uma outra resenha mais completa sobre “O Conto da Aia”, você pode ler neste link.

5. Admirável Mundo Novo, por Aldous Huxley

“As flores do campo e as paisagens têm um grande defeito: são gratuitas. O amor à natureza não estimula a atividade de nenhuma fábrica.”

A distopia de Huxley foi perfeita para o momento de quarentena, pois acentuou minha percepção do que estava por trás do colapso social e econômico que pautou 2020: a diferença de salários e o nível de valorização que permeiam distintas profissões, além da alienação coletiva que ocorre, justamente, quando não saímos da bolha.

Por que as pessoas não pararam de trabalhar em meio à uma pandemia? Algumas não tiveram opção, precisavam do dinheiro. Outras não aguentaram o peso de sua consciência dentro de casa e, mesmo com bens acumulados para três gerações, acabaram saindo. Houve, ainda, aquelas que mal pararam para refletir sobre tudo o que está acontecendo e seguiram rotinas em um automatismo assustador.

A ignorância continua a mover grande parte da massa populacional do Brasil. E o maior problema dela é justamente o fato de ser mortal, como ficou claro com o Covid-19.

E você? Já leu alguma dessas obras? Se quiser me contar aqui nos comentários, vou adorar saber! 

Observação: os livros indicados neste post contêm meus links de afiliada. Ao comprar por meio deles, você não paga nada a mais, mas ajuda a rentabilizar meu trabalho para que eu possa seguir escrevendo esses textos. Obrigada!




O Conto da Aia não é uma distopia. É uma releitura ficcional da realidade.

Atriz Elizabeth Moss em O Conto da Aia

Acompanhei a primeira temporada da série “O Conto da Aia” no início de 2019, quando os primeiros instintos mais fortes ligados à causa feminista começavam a aflorar dentro de mim. As cenas eram impactantes, duras de assistir, mas persisti até o fim. Na época, porém, ainda não tinha dimensão real do que tudo aquilo significava.

Passa um ano. Brasil, 2020. Fanatismo religioso. Pandemia. Isolamento social. Acabei, enfim, com um exemplar em mãos do livro que deu origem à série, escrito pela canadense Margaret Atwood

Eu, a mesma pessoa, mas agora já também com mais de um ano de estudos feministas na bagagem, graças ao projeto desenvolvido junto à minha amiga Carolina Marco, o NÓS (por meio do qual criamos conteúdo gratuito para empoderar mulheres), pude realmente me aprofundar nessa obra crítica brilhante. Talvez equivocadamente chamada de distopia.

O fato é que, a meu ver, o mundo em que vivemos hoje parece tornar-se cada vez mais próximo do cenário da série. Vou explicar o porquê.

Elementos centrais de O Conto da Aia 

Distopia, segundo o dicionário, seria uma antítese de utopia. Em outros termos, diz respeito a um estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação (antítese de utopia). Sob tal perspectiva, caso ainda não tenha ouvido falar da série ou do livro, a classificação estaria correta.

Para dar um breve resumo, a história se passa na chamada República de Gileade. Trata-se de uma sociedade estabelecida nas fronteiras do que antes eram os Estados Unidos da América, tomado por um movimento fundamentalista de reconstrução cristã autointitulado “Filhos de Jacó”. 

Por meio de um golpe, ele suspende a Constituição sob o pretexto de “restaurar a ordem” social diante de um problema central: o país se encontrava tão poluído e tóxico que a saúde e a fertilidade da maioria da população feminina foi afetada e as mulheres pararam de ter filhos.

Basicamente, o que se passa é que sob o pretexto religioso é criado um Estado completamente totalitário, militarizado, hierárquico e fanático, que distorce textos do Velho Testamento para reorganizar o país sob um elemento central: a reprodução. As mulheres não têm mais a possibilidade de leitura, estudo ou autonomia de qualquer tipo.

Naturalmente, elas acabam divididas em “castas” estabelecidas, claro, por sua capacidade reprodutiva (existente ou inexistente). Cada uma está predestinada a executar uma função. A personagem principal, Offred, faz parte do grupo das Aias – mulheres obrigadas a se vestirem de vermelho e copularem com os Comandantes das casas que habitam, cujas esposas já são inférteis.

Mas há também as mulheres destinadas à limpeza e aos serviços domésticos, por exemplo. Cada uma na sua “caixinha”, no seu papel. Odiando – ou invejando – a outra pelo que ela ocupa. São justamente esses elementos sutis da narrativa que parecem transformá-la não mais em algo distópico. Mas, sim, em algo próximo da realidade de todas as mulheres, independentemente da classe social. 

Na verdade, O Conto da Aia simplesmente mistura aspectos já existentes e fortíssimos da opressão à mulher e imagina-os levados à máxima potência.

Violência que transparece nas palavras

Tive o insight de que o livro não era totalmente imaginativo justamente porque palavras são muito expressivas. Como a obra inteira é narrada em primeira pessoa, fui capaz de sentir o mesmo que Offred em diversos aspectos de sua descrição quanto à objetificação de seu corpo, os olhares de julgamento de outras mulheres e a educação estruturada com base na cultura de estupro, que tende a culpabilizar as vítimas pelos abusos.

Tomei a liberdade de expor, aqui, alguns trechos diretos que corroboram o que digo. Por exemplo: quando, no Centro de Treinamento ao qual às mulheres são enviadas assim que a República de Gilead é estabelecida, as “Tias” (espécies de freiras treinadoras) lhe fazem uma lavagem cerebral para que se submetam ao regime.

“Janine está contando como foi currada por uma gangue aos catorze anos e fez um aborto. (…) – Mas de quem foi a culpa?, diz Tia Helena, levantando o dedo roliço. ‘Foi dela, foi dela, foi dela, entoamos em uníssono.’ ‘Quem os seduziu?’, Tia Helena sorri radiante, satisfeita conosco. ‘Ela seduziu. Ela seduziu. Ela seduziu. ‘Por que Deus permitiu que uma coisa tão terrível acontecesse? ‘Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição. Na semana passada, Janine explodiu em lágrimas. (…) Nesta semana, ela nem espera que comecemos com as zombarias. ‘Foi minha própria culpa’, diz ela. Foi minha própria culpa. Eu os incitei, os seduzi. Mereci o sofrimento’. ‘Muito bem, Janine’, diz Tia Lydia. Você é um exemplo.”

Forte, não é?

Ou esta descrição de como Offred se sente em relação ao seu próprio corpo:

“Eu costumava pensar em meu corpo como um instrumento de prazer, ou um meio de transporte, ou um implemento para a realização de minha vontade. Eu podia usá-lo para correr, apertar botões deste ou daquele tipo, fazer coisas acontecerem. Havia limites. Mas meu corpo era, apesar disso, flexível, sólido, parte de mim. Agora, a carne se arruma de forma diferente. Sou uma nuvem.”

Ok, não podemos dizer que a realidade atual do Brasil está nesse nível de totalitarismo, obviamente. Mas, se você for mulher, provavelmente vai se identificar com algumas sensações evocadas pelo livro. Talvez sinta alguma cosquinha engraçada que lhe diga: já experimentei tal sentimento. Ou, inclusive, “já julguei outra mulher assim”.

Foi muito interessante que, quando terminei a leitura, compartilhei lá no meu Instagram justamente a perspectiva de que “O Conto da Aia” não é uma distopia. A Mariana Blauth, que foi minha colega na faculdade de Jornalismo e hoje coordena um projeto literário super bacana chamado Página Cem, me chamou no inbox e contou:

“Sabia que a própria autora falou em uma entrevista que ela classificaria sua obra como ficção especulativa, não distopia?”

Aí a ficha caiu. De fato, a narrativa do livro não é completamente impossível. Para algumas mulheres, em maior ou menor grau, é uma extensão da realidade. Daí, mais uma vez, a importância da luta feminista: é sobre fazer prevalecer nossos direitos para que a vida se torne melhor para as mulheres – e não pior.

Porque o pior é muito, muito, muito assustador. Como Atwood já alertou em sua fascinante obra-prima que parece distante no tempo, escrita em 1985, mas se torna a cada dia mais atual.

E você, já leu o livro ou acompanhou a série? O que achou? Teve alguma percepção semelhante? Me conta aqui nos comentários que eu vou amar saber!




4 lições poderosas sobre produção de conteúdo do livro Hit Makers

desenho de duas mãos coloridas se tocando

Eu sei. Sei que você já leu neste oceano de informações da internet milhares de dicas sobre como criar conteúdos incríveis. Mas o livro Hit Makers, sobre o qual decidi falar neste artigo, não é apenas uma obra que aponta caminhos acerca de como ser um “creator” (o novo termo da modinha), capaz de criar estratégias e textos incríveis.

É um livro sobre comportamento humano, essencialmente. Sobre sociedade. Sobre cultura. Sobre o porquê as pessoas fazem o que fazem. Compreender todos esses aspectos é, em minha visão, o ponto mais relevante para se tornar um bom produtor de conteúdo.

Por quê? Porque, embora seja fácil chamar seus seguidores/clientes de leads, não dá para esquecer a grande verdade: do outro lado da tela, consumindo seu conteúdo, está um ser humano. É para ele/ela que você quer escrever. 

Então, topa um mergulho mais profundo comigo na obra escrita pelo Derek Thompson?

Hit Makers não entrega fórmulas, mas instiga a pensar

Um dos aspectos que mais me fascinou na obra do editor-sênior da Revista The Atlantic é justamente este: seu objetivo não é propor uma estrutura milagrosa, aquela “ideia secreta” por trás da fabricação de um HIT. Pelo contrário.

Ao investigar e apresentar no livro os bastidores dos mercados de criadores de conteúdo (nos mais variados formatos, desde música, cinema, arte e, claro, a própria internet), ele aparenta concluir justamente o oposto. Há muito caos na vida. Diversos HITS se tornaram fenômenos com uma importante ajudinha do acaso.

Bem diferente do que o mercado de Marketing de Conteúdo em geral tenta nos vender, não é? “Use a estratégia x e tenha o resultado y” (hahahaha. Sério, se você ainda acredita nisso, por favor, não seja ingênuo). Mas ok, vamos lá. Não é só porque o livro não traz fórmulas que deixe de apresentar argumentos interessantíssimos.

Ao tecer entrevistas com neurocientistas, produtores musicais, donos de canais de televisão por assinatura, entre diversas outras autoridades no mercado de HITS, Thompson aponta algumas direções interessantes. Embora não exista receita de bolo, ao observar o comportamento humano sempre é possível ter insights que, a meu ver, colocam o produtor de conteúdo em uma direção mais certeira.

Abaixo, compilei quatro deles.

TOP 4 insights do livro Hit Makers para produtores de conteúdo

Já abriu o bloquinho de notas aí? Espia algumas sacadas geniais que tirei de Hit Makers:

1. Crie uma linguagem de lembranças por meio do seu conteúdo

“As pessoas gostam de repetir experiências culturais, não somente porque querem se lembrar da arte, mas também porque querem se lembrar de si mesmas, e existe alegria no ato de se relembrar” – Derek Thompson

Você já deve ter assistido seu filme favorito mais de uma vez, não é? Há pessoas que relatam com alegria, por exemplo, já terem visto a série Friends milhares de vezes (eu também!). Por quê? Porque gostamos dessa familiaridade. Nossas séries e músicas prediletas se tornam parte de nós. Se transformam em uma linguagem de lembranças.

Pense aí: qual é o DNA do seu conteúdo que gera esse impacto nas pessoas? O que vai fazê-las quererem ler, reler seus textos, ou acompanhar seus vídeos semanalmente? Como você toca as pessoas de modo que elas anseiem por seu conteúdo?

2. Esqueça a ideia de “aceitação”

“Talvez a genialidade floresça em um espaço levemente protegido da necessidade de ganhar um concurso de popularidade. (…) Talvez a maior obra venha dos criadores que procuram alguma coisa além da aceitação, empurrando a fronteira mais adiante”.Derek Thompson

Se você ainda tem medo de publicar conteúdo, ou medo de se expressar pela falta de aceitação, esqueça isso. De verdade. Sei que é difícil. Às vezes eu publico conteúdos pensando: “talvez fulano e beltrano não gostem disso que eu escrevi”. Mas, se me prendesse a isso, não teria chegado a publicar dois textos aqui.

Não produza conteúdo pensando sempre em agradar alguém. Seu conteúdo é sua arte na internet. Ele pode – e deve – ser autoral, original e, às vezes, crítico. Faz parte não agradar todo mundo. Talvez seja mais interessante fazer com que as pessoas reflitam, do que buscar sua aceitação unânime.

3. Humanize seu conteúdo

“As necessidades básicas das pessoas são complexas, mas antigas. Elas querem se sentir únicas e também querem pertencer a algo; querem banhar-se em familiaridade e também ser um pouco provocadas”. – Derek Thompson

O maior erro do produtor de conteúdo que se prende a templates e regrinhas é, repito, esquecer que do outro lado da tela existe uma pessoa. De que forma seu conteúdo dialoga com as necessidades mais intrínsecas do ser humano? Como ele resolve um problema, oferece uma solução, gera senso de pertencimento?

Vou ser meio enfática, mas lá vai: se você não pensa nisso ao produzir conteúdo, acredito que está dando um tiro no pé e, ao mesmo tempo, prestando um desserviço à sociedade. A internet não precisa de mais lixo eletrônico. Precisa de conteúdo com verdade, alma e propósito.

4. Reforce a mesma mensagem, de formas distintas, prezando pela simplicidade

“Conforme nós crescíamos, tentávamos ser tudo para todo mundo. Nós tentávamos promover todas as coisas em vez de focarmos em poucas. (…) A ESPN havia se tornado uma rede que servia muitos pratos medíocres, como um restaurante barato” – John Skipper, ex-presidente da ESPN

Ah, o tal do minimalismo. Viu só como ele serve para o mercado de produção de conteúdo também? Vou ser bem sincera: para oferecer um bom resultado aos seus clientes, não creio que seja necessário estar presente em todas as redes sociais e plataformas. Apresentar todos os formatos possíveis. Falar sobre 15 assuntos diferentes.

Foque no essencial. Se você for capaz de fazer o essencial bem feito, já tem tudo para conseguir resultados.

E aí, curtiu as dicas? Já leu o livro? Ficou com vontade? Vou deixar o LINK aqui, caso você queira adquirir seu exemplar pela Amazon.*

Se você também já vem estudando o mercado de produção de conteúdo e deseja se aprofundar, sem essa de firulas ou fórmulas prontas, mas mergulhando de cabeça mesmo em como entender seu cliente e criar uma estratégia, convido a espiar os Cursos de Produção de Conteúdo que já fiz e recomendo.

AH! E, se você ler o livro do Thompson, não deixa de vir aqui também depois me contar o que achou! 🙂

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5 livros de desenvolvimento profissional (e pessoal) essenciais para mulheres

mulher segurando livro de capa azul

Livros de desenvolvimento profissional, em minha concepção, são ferramentas poderosíssimas para a materialização de sonhos. Falo por experiência própria: foi graças a eles que tive coragem de tomar algumas das decisões mais difíceis da minha vida, mas que me permitiram hoje trabalhar remotamente e viver o lifestyle nômade.

Indo ainda mais além, creio que para mulheres ler livros é ainda mais indispensável – tanto para a carreira, quanto para a vida pessoal. O motivo? Sinceramente, ninguém pega a gente pela mão e nos ensina a negociar, a “vender nosso peixe”, a ter confiança e autoestima, não é? Se você é mulher, já deve ter reparado: geralmente, ocorre o oposto.

Por isso, neste artigo – que dedico especialmente a nós, mulheres – gostaria de aprofundar um pouquinho os motivos pelos quais defendo que a leitura é uma ferramenta de libertação feminina. E, ainda, quero indicar 5 livros que foram essenciais no meu processo  (ainda em andamento, diga-se de passagem!) e que acho que podem fazer diferença no seu!

Topa?

Por que livros sobre desenvolvimento podem ajudar as mulheres a terem voz?

Vou direto ao ponto: simplesmente porque, na “formação tradicional”, ninguém nos ensina a ter voz – e muito menos a ter coragem de usá-la. 

A sociedade patriarcal é estruturada de modo a inibir o desenvolvimento pessoal e profissional das mulheres, através de “sutilezas” como a disparidade salarial e as diferenças na licença paternidade/maternidade. Isso sem falar na propaganda abusiva que almeja reforçar o tempo inteiro a mensagem de que somos física e/ou intelectualmente inadequadas.

É com muita alegria que observei/observo a ascensão de movimentos como o #MeToo e o #FridaysForFuture, liderados por mulheres que simplesmente não vão mais se sujeitar a ficarem caladas diante de atrocidades contra seu corpo, seus direitos pessoais e profissionais e nosso planeta. Mas a verdade é que o caminho ainda parece longo.

Eu agradeço muito por ter tido a oportunidade de ser impactada pelas vozes dessas mulheres, que tanto me inspiram com suas lutas. Mas sou privilegiada. Infelizmente, há mulheres massacradas diariamente por não terem seus direitos assegurados, sem ao menos saberem disso…

E como podemos avançar no trabalho de modificar essa realidade? Bom, tem uma frase da Clarice Lispector que eu amo:

“A palavra é o meu domínio sobre o mundo”.

As palavras transformaram a minha vida e minha visão de mim mesma, como pessoa e profissional. E acho que podem causar verdadeiras revoluções existenciais para qualquer mulher. É aí que entram os livros…

Top 5 livros de desenvolvimento profissional (e para a vida, em geral) das mulheres

Vou ser sincera: foi difícil escolher só 5 livros para colocar nesta listinha, mas vamos lá! Seguem, abaixo, sugestões de obras que fizeram total diferença na minha vida e carreira:

A Deusa Interior: Um Guia sobre os Eternos Mitos Femininos que Moldam a Nossa Vida, de Roger J. Woolger e Jennifer B. Woolger

Você já parou para refletir sobre o fato de que  a vivência de uma cultura majoritariamente cristã no ocidente, na qual há um “Deus Pai Todo Poderoso” e nenhuma “Deusa Mãe”, já é uma forma de exaltar o modelo patriarcal e violentar mulheres? Pois bem, ainda que inconscientemente, isso acontece.

No livro “A Deusa Interior”, Roger J. Woolger e Jennifer B. Woolger apresentam um estudo brilhante da psique feminina moderna inspirado pelos arquétipos de 5 antigas Deusas gregas: Atena (Deusa do Intelecto), Ártemis (Deusa da Natureza), Hera (Deusa do Poder), Perséfone (Deusa do mundo Espiritual), Afrodite (Deusa do Amor) e Deméter (Deusa Maternal).

O ponto de partida é a noção de que, dentro de qualquer mulher, todas essas Deusas poderiam conviver integradas e em harmonia. No entanto, em razão do patriarcado cristão, as deusas se “desintegraram”. Ou seja: nos dias atuais, geralmente cada mulher encarna uma delas, em detrimento das demais. Para piorar, uma tende a julgar a outra!

Quando sintonizamos em excesso a energia de uma única deusa, criamos o que os autores chamam de CHAGAS das deusas. Por exemplo: viver só para o trabalho (Atena) pode nos causar distúrbios alimentares, enquanto vibrar apenas a sensualidade pode causar problemas afetivos. Marilyn Monroe é um exemplo da chaga/estereótipo de Afrodite.

É difícil resumir em poucas palavras uma obra tão complexa, mas recomendo demais a leitura. Ela pode ajudar você a descobrir qual a deusa que está dominando a sua vida e ensinar você a lidar melhor com as suas dores e escolhas profissionais e emocionais.

Mulheres Poderosas, de Louise Hay

Louise Hay é uma das minhas autoras mais queridinhas e seu livro “Mulheres Poderosas” me abriu os olhos para algo que faz muitas mulheres se tornarem dependentes e nunca conquistarem a independência financeira: a falta de amor-próprio. Fomos ensinadas a nos contentarmos com pouco.

Como até pouco tempo não tínhamos espaço nenhum no mercado de trabalho, fomos ensinadas a “aceitar o que vier”, como se ter um salário já fosse um privilégio. Negociar? Dizer o quanto queremos ganhar? Recusar um trabalho que não temos vontade de fazer? Ninguém nos mostrou como fazer isso

O livro traz dicas de afirmações poderosas para incluir na rotina e trazer coragem e abundância para a vida da mulher, como “Eu sou merecedora” e “Eu sou capaz”. Parece bobinho, mas é transformador.

Eu Sou Malala, de Malala Yousafzai e Christina Lamb

Esta dica é tipo inspiração para a vida! Como mulher, sempre procuro ler biografias para me inspirar. “Eu Sou Malala” foi um verdadeiro tapa na cara. Naturalmente, conta a história de Malala, a menina que do Paquistão ganhou o olhar do mundo, depois de quase ter sido morta simplesmente por ser mulher e ir à escola.

Malala entendeu, desde nova, que conhecimento é fonte de libertação. E quase deu a vida para poder exercer o direito de estudar e compreender como o mundo funciona. Me inspirou a ter voz, a falar também por outras mulheres que não têm, ou que morrem tentando diariamente.

Se você estiver em busca de algo bem inspirador, super recomendo.

Para Educar Crianças Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie e Denise Bottmann

Sempre é mais eficiente atuar sobre a causa do que o efeito. Em outras palavras: é muito melhor educarmos as mulheres desde novas a se amarem e se respeitarem, do que ensiná-las a resgatarem sua autoestima depois. É por isso que o livro “Para Educar Crianças Feministas” é tão maravilhoso!

Ele afronta os estereótipos de gênero desde a infância, com dicas sobre como criar meninas que saibam que não é errado se expressarem, gostarem de esportes e que “ser mulher” não é, por si só, um empecilho para que realizem qualquer coisa.

Leia, por favor. E, se você for mãe, leia para a sua filha também.

Beleza: Uma Nova Espiritualidade da Alegria de Viver, de Anselm Grün

Me deixa realmente muito triste ver como os padrões de beleza acabam com a autoestima das mulheres. E eu me incluo nessa! Há dias em que ainda travo uma triste batalha contra o espelho. Durante muito tempo achei que era algo só meu. Mas hoje, escutando outras mulheres, vejo que praticamente todas se martirizam pela autoimagem…

No livro “Beleza: Uma Nova Espiritualidade da Alegria de Viver”, Anselm Grün reforça que a beleza vem de dentro, vem de nos sentirmos felizes e satisfeitas com quem somos. Vem da possibilidade de realizarmos nossos sonhos, cuidarmos da nossa saúde, da mente e do corpo. Não por futilidade, mas por amor próprio.

Achei linda a forma como ele constrói o conceito de beleza, não como algo a ser “comprado”, mas sim desenvolvido. A beleza mora em nós. Quando nos aceitamos, ela aflora naturalmente.

E aí, curtiu as dicas e reflexões? Se você já leu algum dos livros, me conta aqui nos comentários? Quero saber! 🙂

Observação: os livros indicados neste post contêm meus links de afiliada da Amazon. Ao comprar através deles, você não paga nada a mais, mas ajuda a rentabilizar meu trabalho para que eu possa seguir escrevendo esses textos. Obrigada!




Lidere pela sua forma de viver a vida (resenha do filme Dois Papas)

Quando a tela do cinema escurece, os créditos sobem e todos batem palmas, toma conta da atmosfera um sentimento de unanimidade: o filme realmente é uma obra de arte. Foi o que aconteceu depois que assisti ao novo longa dirigido por Fernando Meirelles: “Dois Papas” que, embora já esteja na Netflix, também é exibido em algumas telonas do país.

Misto de orgulho pela genialidade do diretor brasileiro que nos representará no Oscar (como é bom ter um motivo positivo para nos orgulharmos como nação, ainda mais através da arte/cinema!); com diversos insights sobre autoconhecimento, liderança, superação. É isso que um filme incrível faz conosco: faz PENSAR.

Meu objetivo, quando fui ao cinema, não era escrever nada posteriormente. Porém, mais uma vez, saí inspirada para compartilhar alguns insights. 

Topa aprofundar?

Antes, um breve resumo sobre “Dois Papas”…

“Dois Papas” é um filme sobre poder e como símbolos e figuras são capazes de moldar o inconsciente coletivo de pessoas – e, no caso da Igreja Católica – de nações em âmbito global. Apesar da narrativa central tensa, porém, o roteiro abre espaço para diversas tiradas cômicas e sarcásticas – seja através de recortes fotográficos ou da trilha sonora.

Se você ainda não viu o trailer, vou deixar aqui embaixo.

A história prende a atenção do início ao fim. Como outros longas baseados na vida real, faz lembrar de nossa própria história quando os fatos ali descritos se desenrolam. Onde estávamos durante a febre do “Habemus Papa”, ou mesmo na fatídica Copa de 2014, naquele tenebroso 7×1…

Em paralelo, embora traga sim um viés crítico a hipocrisias da Igreja Católica, Meirelles se propõe a ir além. O enfoque central da trama são os Papas. Ou melhor – os seres humanos por trás de dois Papas, seus temores, conflitos internos, dimensões pessoais. Em um dos diálogos entre o Papa Bento XVI e Jorge Mario Bergoglio, o primeiro enfatiza:

“A sua própria maneira de viver a vida já parece ser uma crítica à Igreja”. Isso porque o popular atual Papa argentino optou por renunciar a determinados luxos e preferia estar pregando em comunidades mais pobres. Em essência, ela era em microescala o que hoje é para o mundo…

Coerência entre discurso e ação é o que molda um líder

Com isso, me veio um insight poderosíssimo acerca das verdadeiras lideranças. Um líder de verdade é aquele que é exemplo pela ação – e não pelo discurso. Ele inspira por ser exatamente quem é. Liderança não é só sobre “skills”. É sobre viver de acordo com sua verdade.

Hoje são vendidos cursos, workshops, treinamentos sobre liderança. E tudo bem, eles podem agregar. Mas nada disso adianta se você não coloca em prática. Você pode fazer também um curso de “Marketing de Gentileza”, por exemplo, mas você já experimentou…ser genuinamente gentil também?

O líder que ganha respeito é aquele coerente, que alinha discurso e prática. Sem isso, torna-se incapaz de exercer qualquer efeito realmente potente sobre os outros. E mais! A “falsa liderança” não se sustenta. O discurso motivacional perde efeito se o líder também não coloca a mão na massa.

A Igreja, de alguma forma, entendeu que precisava de alguém mais popular no poder – principalmente frente aos escândalos de abusos divulgados pela mídia. Mas esse não era o perfil do Papa que acabou por renunciar (e não que isso fosse bom ou ruim), mas ter de exercê-lo, para ele, simplesmente tornou-se impossível.

Você só consegue usar uma máscara por um tempo limitado.

Todos os dias, seja a mudança que você quer ver

Apenas para concluir, outra grande revelação que o filme me trouxe foi a seguinte: todos os dias, as decisões mais importantes do mundo são tomadas por pessoas. De carne e osso, como você e eu. Pessoas que têm valores, medos, fragilidades e conflitos internos.

As decisões que tomamos podem não reger o mundo inteiro, mas regem o “nosso mundo”, “nossos relacionamentos”, “nosso trabalho”. Então, vale a mesma máxima sobre liderança. Você não precisa ser líder de uma empresa para ser exemplo.

Leve a lógica para sua esfera pessoal, para qualquer situação. Que tipo de acontecimento você gostaria de mudar na sua vida? Você costuma reclamar que as pessoas são muito irritadas, mal-educadas? Então, comece você sendo bem educado. Reclama das grosserias no trânsito? Seja você bem educado no trânsito.

É assim que você pode mudar o mundo, com suas ações. Ninguém se inspira no que você fala, as pessoas podem se inspirar no que você FAZ.

Só para resumir, vou terminar com Gandhi:

“Seja a mudança que você quer ver no mundo”.

Curtiu os insights? Já assistiu ao filme? Concorda com minhas percepções? Me conta aqui nos comentários que vou amar saber. 🙂

Recomendo ainda esta entrevista do Fernando Meirelles no programa Provoca do Youtube, com o sempre brilhante @MarceloTas. Aqui ele compartilha um pouquinho dos bastidores…

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5 livros sobre sociedade para você repensar seu trabalho – e sua vida – em 2020

menina com livros e café

O clima de fim de ano já tomou conta da atmosfera, não é? 2020 se aproxima e parece que estamos, oficialmente, vivendo no futuro. Em menos de uma década, segundo projeções do Laboratório de Aprendizado de Máquina em Finanças e Organizações da Universidade de Brasília (UnB), metade dos empregos que existem hoje serão substituídos por robôs e pela automação.

Você já parou para refletir sobre isso em profundidade? Basicamente, significa que todos seremos afetados em algum nível, independentemente de que posição ocupamos (seja como colaboradores(as), microempreendedores(as) ou empresários(as)/gerentes de uma organização). O mundo está se transformando bem diante dos nossos olhos.

E precisamos estar preparados. Por isso, neste artigo, decidi compartilhar minhas dicas de 5 livros com reflexões pertinentes sobre a sociedade para que possamos direcionar melhor nossas ações em 2020 e no futuro, de modo geral – a nível pessoal e profissional.

Espero que possam ser úteis em sua jornada. 🙂

5 livros sobre sociedade para você repensar vida e carreira

Já abriu o Google Keep aí? Espie, abaixo, minhas 5 sugestões de obras para você ler, refletir e planejar seu 2020:

1.Sociedade do Cansaço

Já reparou que todo mundo parece estar mais cansado desde que os smartphones entram em nossas vidas? Esses pequenos dispositivos – muitas vezes geradores de ansiedade – nos colocam em uma frequência aceleradíssima. Parece que tentamos “competir” com a velocidade da tecnologia. E sempre perdemos.

É esse o tema do livro “Sociedade do Cansaço”, do filósofo alemão Byung-chul Han. Ele apresenta uma leitura da vida moderna como permeada por uma violência neuronal, com excesso de informação e zero espaço à contemplação. O volume de dados, para muitos, é de fato enlouquecedor.

Aqui, a reflexão é: se a tecnologia vai substituir muitas de nossas funções de qualquer modo, não seria melhor usarmos um tempinho para meditar, desacelerar e, quem sabe, tomar decisões mais sábias sobre nossas vidas e carreiras? Ir na contramão da manada pode ser fonte de extrema sabedoria. 

Quem sabe desacelerar um pouco não possa ser também uma meta para o seu 2020?

2. Qual é a Tua Obra?

Sou fã assumida do Cortella e creio já ter indicado o livro “Qual é a Tua Obra?” em outro artigo. Mas vale a pena indicar novamente, pois se encaixa muito bem no contexto aqui. Por quê? Porque nele o filósofo explica que, ao trabalharmos, não apenas “fazemos o trabalho”. O trabalho também “nos faz!”. Ele é parte de quem somos.

Ou seja, com tantas transformações pautadas pela tecnologia, teremos que trabalhar muito nossa resiliência profissional e nossa humildade. Quem achar que já sabe tudo está, literalmente, ferrado. Um conselho para 2020? Apaixone-se por aprender!

Prender-se a um ego muito inflado jamais foi tão perigoso.

3. Homo Deus

Harari é outro dos meus autores favoritos. Em “Homo Deus”, ele teoriza sobre como a transformação digital poderá gerar ainda mais desigualdade entre diferentes pessoas e países. Quem tiver acesso no futuro às melhores tecnologias por meio do poder aquisitivo (principalmente na área da saúde, terá vantagem BIOLÓGICA sobre os outros). Bizarro, não?

A obra me instigou a pensar, cada vez mais, sobre a importância de lutarmos contra a desigualdade, dar voz às minorias e pensar em como poderemos criar modelos sociais mais colaborativos. Afinal, não é segredo: desigualdade gera violência. E o mundo, definitivamente, precisa é de mais amor. 

4. Supercérebro

Doenças neurodegenerativas são assustadoras, não é? E, talvez justamente pela violência neuronal mencionada na obra de Byung-chul Han, os casos dessas patologias estão aumentando. A boa notícia é que, na contramão, a medicina está comprovando que o código genético não é o fator principal de influência sobre nossa saúde.

É isto mesmo: a ciência moderna demonstra que os seus hábitos de vida são tão relevantes para a sua saúde quanto seu DNA. O livro “Supercérebro”, do Deepak Chopra, fala justamente sobre isto: como os cuidados com sua alimentação e seus pensamentos podem influenciar sua rotina, melhorar sua produtividade e ajudar a evitar doenças.

Pessoalmente, acredito que investir na saúde é o melhor investimento que qualquer um pode fazer – até porque, sem ela, não realizamos nada. Neste artigo, indico 5 livros sobre o tema que ajudaram a transformar minha vida e minha carreira também. 

5. Nômade Digital: um Guia para Você Viver e Trabalhar Onde e Como Quiser

Também já recomendei anteriormente aqui o livro “Nômade Digital: um Guia para Você Viver e Trabalhar Onde e Como Quiser”, mas vale a pena mencionar mais uma vez! Você já parou para refletir sobre o fato de que, atualmente, com um computador e acesso à internet você pode trabalhar praticamente de qualquer lugar do mundo? As barreiras geográficas estão desaparecendo. 

E, quando o assunto é nomadismo digital – o lifestyle que envolve viajar E trabalhar -, a maior referência para mim é o Matheus de Souza. Ele já carimbou o passaporte em diversos países e traz dicas incríveis sobre como conciliar a estrada e a carreira.

Se você sonha em fazer seus próprios horários e trabalhar de onde quiser, a obra dele apresenta dicas preciosíssimas para chegar lá. Eu mesma me inspirei e escrevi um E-BOOK gratuito sobre trabalho remoto com um compilado de dicas minhas e insights que vieram também com o livro.

Aproveite para fazer a leitura e incluir nos planos para 2020 a possibilidade de trabalhar onde e como quiser, caso seja o seu sonho. 

Insights sobre o lado positivo da disrupção digital na sociedade do futuro

Em resumo, só para finalizar, penso ser incontestável que as transformações digitais vão balançar muitas estruturas sociais e profissionais nos próximos anos. Justamente daí a necessidade urgente de exercermos o tal do raciocínio crítico e aprimorarmos a busca pelo autoconhecimento – de modo a nos prepararmos. 

Embora possa parecer assustador pensar que muitas funções serão substituídas por robôs, acredito que há sempre um lado positivo em qualquer situação. Pois bem, aqui, creio que a melhor parte é justamente esta: o futuro é de inúmeras possibilidades. Não seremos mais restritos a um único cargo como “definição de quem somos”.

Vou dar meu exemplo pessoal: sou formada em jornalismo, atuo como produtora de conteúdo e ghost writer. E, no ano que vem, pretendo fazer uma formação e começar a dar aulas de Yoga! Não sei mais me definir por uma profissão específica. Sou um verdadeiro emaranhado de todas essas coisinhas.

O que quero dizer com isso é que, se tivermos a mente flexível, poderemos nos adaptar a todo e qualquer cenário. E eis que surge a verdadeira liberdade de sermos plurais, multifacetados e, quem sabe, até mais tranquilos e felizes do que hoje. 

Curtiu a reflexão? Já leu algum dos livros? Me conta aqui nos comentários que eu vou adorar saber!!

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Por que o autoconhecimento deve ser nossa prioridade pessoal e profissional?

homem olhando para vidro

Um dos meus maiores desafios existenciais é buscar viver de forma consciente e focada no autoconhecimento. Constantemente, me questiono sobre tudo o que faço, reflito sobre o porquê faço e como faço. Tenho uma vozinha interna que sempre diz: “sem isso, você é só uma marionete do sistema”.

Pois bem, na semana passada, após acompanhar a entrevista do brilhante professor israelense Yuval Harari no Roda Vida (vou deixar o vídeo completo no fim do artigo), o sentimento se intensificou ainda mais. Ele é um daqueles seres humanos que me parece capaz de prever os rumos da humanidade.

Um dos pontos que mais me chamou atenção na entrevista foi sua abordagem em relação ao autoconhecimento. Na visão dele, meditar, silenciar e exercer um olhar contemplativo em relação a nós mesmos nunca foi tão relevante para a saúde física e mental.

Concordo plenamente e vou explicar o porquê. Topa aprofundar?

Autoconhecimento na Era Digital

Harari disserta muito sobre o impacto da tecnologia em nossa realidade. Na obra 21 Lições para o Século 21, ele já havia alertado: corremos um sério risco de que, em breve, as máquinas saibam mais sobre nós do que nós mesmos.

Pode parecer algo bobo e inofensivo, mas é assustadoramente real. O avanço tecnológico é, inquestionavelmente, benéfico em inúmeros sentidos. Só que ele parece afastar o ser humano ainda mais de si próprio. É fácil se distrair e nunca olhar para si com tanto conteúdo à disposição.

Isso, sem dúvidas, deveria ligar um alerta vermelho dentro de nós. Mas não liga. Porque a tecnologia emergiu justamente em um momento extremo de desconexão interna. Então, nós mal refletimos antes de deixar que os dispositivos entrassem na nossa vida. Simplesmente aderimos, sem pensar nas consequências…

E eu ouso dizer que os resultados estão cada vez mais evidentes. Parecemos cada vez mais zumbis ambulantes com telefones nas mãos. Ao mesmo tempo em que temos quase todas as facilidades ao alcance de um aplicativo, somos uma população cada vez mais deprimida e ansiosa.

E este é o grande risco de não olharmos para nós mesmos: ficamos estancados no mesmo lugar, às vezes presos em trabalhos que não nos satisfazem, com uma sensação de sermos vítimas. Enquanto isso, as máquinas já procuram nos dar tudo de forma pronta, automatizada. Terceirizamos à tecnologia nosso poder de escolha.

Sobre com quem estar, com quem se relacionar, como consumir, o que assistir, como se locomover. Sabe aquela frase do gato da Alice “se você não sabe para onde vai, qualquer caminho serve?”. É isso.

Se não soubermos pelo menos um pouquinho melhor quem somos, simplesmente seguiremos a tecnologia (e os interesses daqueles que a criaram). E podemos acabar mal. 

Isso é tudo, menos viver consciente, concorda?

A ponte entre hiperatividade e passividade

Ainda sobre tecnologias, em outro livro incrível que estou lendo – chamado “Sociedade do Cansaço”, o filósofo Byung-chul Han apresenta um argumento semelhante ao de Harari. Para ele, vivemos em uma sociedade imersa em hiperatividade, com pouco tempo contemplativo à disposição. A tecnologia acelerou tudo. 

Paradoxalmente, essa violência cognitiva tende a nos deixar tão exaustos que ficamos na verdade ativamente passivos – por mais louco que pareça. Mas pense bem: não é exatamente isso que fazemos quando dedicamos horas ao Instagram, Facebook, Netflix (e derivados)? Estamos ali, acordados, consumindo conteúdo…

Mas, em essência, estamos adormecidos. Veja que trecho fantástico:

“A agudização hiperativa da atividade faz com que esta se converta numa hiperpassividade, na qual se dá anuência a todo e qualquer estímulo. Em vez de liberdade, ela acaba gerando novas coerções. É uma ilusão achar que quanto mais ativos nos tornamos, mais livres seremos”.

Basta verificar quantas vezes já nos arrependemos por alguma mensagem no WhatsApp, ou contemplar nossa própria incapacidade de desligar o aplicativo e não responder ao chefe no fim de semana. Somos escravos passivos da hiperatividade.

Autoconhecimento na prática: por onde começar?

Todas essas reflexões sobre tecnologia fazem o cérebro ferver, não é? Em meio a todas elas, precisamos ser realistas: dificilmente poderemos frear essa ascensão digital. Por isso, precisamos ser responsáveis por reservar alguns minutos do dia sagrados a nós mesmos.

Pode ser com uma meditação pela manhã ou à noite, uma aula de Yoga, uma horinha na academia, uma caminhada leve. Ou até regando uma planta. O mais importante é você não se perder de si mesmo(a) em um momento tão crítico na história. 

Abaixo, a entrevista completa do Harari. Imperdível. E o próprio medita duas horas todos os dias, a título de curiosidade. 

Gostou do texto? Tem suas próprias opiniões sobre o assunto? Compartilhe aqui que eu vou adorar ler e responder para aprofundar a discussão!

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“Coringa” me fez sentir compaixão pelos desafios que enfrentamos em uma sociedade doentia

joaquin phoenix em frente ao espelho

*Aviso: contém muitos SPOILERS!

Foto: Reprodução/Site A Crítica

Vamos lá: eu não fui ver “Coringa” no cinema com o intuito de escrever um texto aqui. A verdade é que eu achei o longa simplesmente tão agoniante que senti necessidade de elaborar algo através das palavras. Só para exorcizar um pouco do mal-estar que experimentei me contorcendo na cadeira do cinema.

Se você ainda não assistiu, portanto, meu primeiro alerta é: vá bem preparado(a) para duas horas de ininterrupta agonia cena após cena. Joaquin Phoenix passa, literalmente, o filme inteiro apanhando. E não só no sentido literal, mas também psicológico, claro. 

Os trejeitos ansiolíticos do ator – cuja interpretação é realmente digna do Oscar – a forma como ele traga o cigarro como quem parece incapaz de engolir a vida, a magreza insalubre, o olhar incompreendido. Tudo isso já promove um desconforto extremo.

Mesmo em se tratando de um psicopata (seus atos são injustificáveis, claro), ainda assim qualquer espectador com o mínimo de empatia sente-se mal por ele. Mas a atmosfera pesada, em minha opinião, não é ocasionada apenas pela trajetória do protagonista.

O grande trunfo do filme é mostrar que, quando uma sociedade é doentia e gananciosa, o sofrimento afeta todos os seus cidadãos – ricos, classe média, pobres. Todos.

Topa aprofundar o raciocínio?

Em Coringa, todo mundo está enfrentando uma batalha

Ao rememorar algumas cenas do longa, hoje percebo que o sentimento despertado em mim foi o de compaixão. Por exemplo: quando Arthur dialoga com sua terapeuta, esta parece desinteressada e distante. E, ao fim, anuncia que a prefeitura vai cortar os serviços de atendimento público na área da saúde mental. Ou seja: ele ficará sem seus remédios. 

Parece fácil culpá-la, mas a verdade é que ela também é peça do sistema. O que poderia fazer? Nesse ponto, já é válido questionar: se ele tivesse continuado com os remédios, será que tragédias subsequentes poderiam ter sido evitadas? 

Corta para a cena em que ele comete seu primeiro ato de violência. No metrô, três homens de perfil classe média (subindo na “escada social”), bêbados, tentam estuprar uma menina. 

Mais uma vez, enxerguei ali cinco vítimas: os meninos entorpecidos pelo álcool (provavelmente cheios de problemas do trabalho na cabeça); a personagem que, se não fosse a intervenção do “palhaço”, provavelmente seria violentada e teria um trauma para lidar pelo resto da vida e, claro, o próprio Coringa, que ganha mais alguns hematomas.

Já o gran finale é a cena em que Gotham implode em uma confusão anarquista e vemos como os pais de Bruce Wayne são assassinados. Na saída de um elegante teatro, uma pessoa qualquer aponta a arma para o casal e diz “você vai pagar, Wayne” (ou algo do tipo).

A cena termina com a mesma passagem que vemos nos filmes do Batman. A criança ali desamparada, órfã, passando pelo trauma de ver pai e mãe assassinados em sua frente. Na verdade, trata-se de mais uma vítima do sistema. 

Onde quero chegar? Bem, Coringa é uma crítica social que, embora forçada em alguns pontos para “reforçar a mensagem” que deseja transmitir, é extremamente necessária. Por coincidência, até no momento vivido pelo Brasil. 

Será que com a estrutura de país que temos e os índices cada vez mais elevados de desigualdade, seria prudente as pessoas andarem armadas? Eu creio fortemente que não. 

E reforço: não se trata de uma posição partidária. É só observar a violência das pessoas no trânsito. Em um sistema violento, onde todos ocupam eventualmente o papel de vítimas dele, a violência gera mais violência.

E será que ser gentil em uma sociedade carrasca vale a pena?

É impossível também ver o filme sem pensar: “por que todas as pessoas são tão cruéis com o personagem o tempo todo?”. Bem, é o que o sistema faz. Quando todos estão lidando com as suas merdas (desculpa o palavrão), como partes intrínsecas de uma sociedade doente, parece que ninguém se preocupa em ser gentil. Seria pedir demais.

Você certamente já enfrentou – ou enfrenta – situações em que as pessoas são maldosas. No transporte público, no trabalho, na faculdade. Só que, muitas vezes, temos que pensar que elas são assim porque também alguém lhes tratou da mesma forma. É um ciclo de violência contínuo. É o modo sobrevivência. Matar ou morrer.

Só que é triste ter que viver em um mundo assim, não é? Eu gosto de uma dessas frases de internet que diz assim: “seja gentil com todos que encontrar, você nunca sabe o que aquela pessoa está enfrentando”. Imagina se as pessoas colocassem isso em prática?

Não sei dizer quantas vezes já ouvi que, no mundo capitalista, se você for “bonzinho demais vai se ferrar”. Bem, ser gentil não é o mesmo que ser conivente com maus-tratos. Saber dizer não e ter amor-próprio é fundamental.

Em outras palavras, sim, é preciso estar atento, para que as pessoas não lhe passem a perna. Mas também não precisamos sempre desconfiar de tudo e todos, nos tornarmos amargos, sarcásticos e maldosos.

Eu escolho tentar ser gentil todos os dias e, depois desse filme, vou tentar ainda mais. Porque se queremos menos violência e mais amor – em todas as esferas sociais – precisamos começar com nossas atitudes em relação aos outros. É o primeiro passo.

Não importa em que degrau do sistema você está hoje. Se não contribuir para torná-lo um pouco menos cruel, injusto, desigual e violento, um dia a violência também chegará em você. De alguma forma.

Vamos ser mais gentis uns com os outros?

Gostou da reflexão? Já viu o filme e teve algum insight? Compartilhe nos comentários!

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Abstract: devaneios sobre como arte e design transformam o mundo

corpo humano

Em nosso mundinho de dualidades, comumente a arte e qualquer outro tipo de atividade mais voltada ao abstrato parecem desconexas do contexto pragmático do mercado de trabalho. Talvez por isso acompanhar a série Abstract (disponível na Netflix – a 2ª temporada acabou de chegar!) esteja sendo uma experiência tão maravilhosa para mim.

Abstract é uma série sobre pessoas que reinventaram conceitos de design, arquitetura e engenharia. Mais que isso. É uma produção que aborda a genialidade dos que ousam perceber o mundo sob um olhar diferente e, a partir daí, propõem novas soluções aos problemas que a humanidade enfrenta.

Para mim, parece uma forma de respiro em meio a enxurradas de notícias tristes e problemáticas que vemos todos os dias no Brasil. Me faz crer que, com ideias criativas, podemos solucionar velhos e novos desafios. Traz esperança, essencialmente.

Por isso, neste artigo quero falar um pouco sobre alguns aprendizados, insights e devaneios que tive ao acompanhar os episódios. Topa?

Onde a arte encontra “a vida real”?

Pelos mais diferentes locais de trabalho pelos quais passei, percebi um padrão que se repete: no dia a dia das organizações, o foco dos gestores e colaboradores muitas vezes é lidar com urgências. Há pouco espaço disponível para focar em novas soluções e propor ideias ousadas, o que acaba por fazer muitos problemas se acumularem mais e mais.

Mas é precisamente quando alguém ousa romper essa barreira do óbvio a partir de um olhar artístico e questionador que grandes revoluções acontecem. Só para citar um exemplo batido, porém que não deixa de ser revelador e todos nós conhecemos. Steve Jobs

Não só ele reinventou o design dos aparelhos. Ele revolucionou a forma como usamos o smartphone. E onde isso nos levou? A novas soluções em mobilidade urbana (Uber, bikes e patinetes nas cidades), formas de pedir comida, uso de mapas e por aí vai. 

A questão aqui é que o abstrato pode ganhar aplicabilidades reais imensuráveis. Acho que nem as mentes mais geniais que criam essas soluções conseguem dimensionar seu real impacto. Portanto, arte e o abstrato podem levar a caminhos que geram, sim, lucros e novas oportunidades para corporações – de forma cada vez mais sustentável, assim espero. 

Um dos episódios de Abstract que mais me marcou foi o de Neri Oxman. Basicamente, ela inventou uma nova profissão baseada na construção de materiais bioarquitetônicos. Hoje, no MIT, trabalha em um departamento com enfoque justamente nisto: criar soluções mais sustentáveis para construção e repensar o design e a manufatura de processos que degradam o meio-ambiente.

Não é incrível?

O futuro é abstrato. Quem vai criá-lo somos nós.

Ao acompanhar os episódios de Abstract, percebi um denominador comum entre diversos artistas e profissionais retratados nos episódios: com base em suas paixões, muitos deles verdadeiramente criaram novas ocupações. Talvez, com a tecnologia, aquela velha ideia de “viver da nossa arte” já não precise estar mais tão distante.

Mais do que isso: talvez seja justamente essa a sacada para empresas, colaboradores e empreendedores do futuro. As soluções de que o mundo necessita não cabem mais em profissões que seguem uma linha padrão. De acordo com dados reportados pela BBC, até 2030 mais de 800 milhões de empregos serão extintos pela automação.

Então, talvez agora seja o momento crucial de olharmos para nós mesmos, para aquela chama criativa que sempre esteve ali, e pensar: como eu posso rentabilizar meus talentos e propor novas soluções ao mundo (seja empreendendo ou dentro da empresa onde atuo?). As oportunidades nunca foram tão amplas. 

Recentemente, li um livro do filósofo Mario Sergio Cortella chamado “Por Que Fazemos o Que Fazemos”. Ele traz a ideia de que o trabalho que exercemos ajuda a nos construir como pessoas, assim como nós podemos criar um senso de contribuição a partir do que fazemos. Por mais clichê que pareça, isso nos traz aquela ideia de propósito

E o propósito está intrinsecamente associado ao nosso ímpeto de viver, propor novos caminhos diante dos desafios que enfrentamos, na esfera individual e coletiva. A motivação nasce com o propósito. Cada um de nós deve ter coragem para moldar e descobrir o seu, ampliando seus horizontes.

Já que o texto falou tanto sobre arte, vou encerrar com uma frase citada por Cortella e, de acordo com ele, proferida originalmente por Michelangelo:

Todo pintor pinta a si mesmo.

Basta coragem para pensar além das caixinhas. 

E aí, curtiu as dicas? Se você também acompanha a série, deixa um comentário aqui para eu saber e me conta qual episódio é seu favorito. 🙂

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